Três lições para reaprender a blogar

Sabe quando alguém compra um sítio num lugarzinho bucólico, mas a casa ainda precisa de intermináveis finais de semana em intensa reforma e faxina? É assim que sinto ao mudar o blog de lugar. Trazer para cá alguns textos acumulados em mais de seis anos soa como carregar caixas de papelão cheias de antigos cadernos, empilhá-las na caminhonete, viajar até a casa nova, descarregar e organizar tudo na estante – sem esquecer de arrumar o portão, cortar a grama, essas coisas.

Nessa altura, alguém pode dizer: “jogue essa papelada imprestável fora!”. Ao menos uma boa razão eu teria para isso: meu passado me condena, com muita força. Também pudera: minhas experimentações textuais no blog em 2002 reuniam plantões de notícias absurdas, declarações elogiosas aos autores de blogs favoritos (alguém se lembra dos “fansigns”?) e comemorações estúpidas diante de uma mensagem do tipo “seu blog recebeu este award megafuckingpower!”.

Mas eu sou amante apaixonado pela nostalgia. Olhar para trás e apontar o que funcionou (e o que virou chacota) é exatamente o que farei daqui uns anos, quando vou lembrar dessa fase onde compromissos profissionais consumiram tempo e fôlego suficiente para deixar o blog em ritmo lento. E quando esse dia chegar, será hora de reavaliar o que estou prestes a desenvolver. Basicamente, um tripé de idéias capaz de “ressuscitar” um espaço inerte.

Disciplina. Uso o Google Docs como repositório de idéias que, um dia, podem virar post. Já tem mais de cem. Todos com algum link e duas ou três palavrinhas, que garantem a perpetuação (melhor seria dizer “clausura”) da proposta. Esse enrosco reflete na frequência desordenada de publicações, presumindo desinteresse de quem o escreve – despertando, consequentemente, o mesmo desânimo em quem lê.

É horrível ficar mais de uma semana, pelo menos, sem novidades. Mas tem algo pior do que simplesmente não escrever nada. É fazer algo parecido com o que fiz acima: “oh, vida ingrata, como ando ocupado e infeliz, desculpas por não conseguir escrever mais aqui mas prometo melhorar!”. Deve existir alguma estatística indicando esse discurso como sendo o mais comum encontrado nos últimos posts de blogs abandonados…

Mas enfim. Disciplina é uma dessas palavras-chave que funcionam em qualquer meta de vida, como juntar dinheiro para comprar uma geladeira, perder vinte quilos em seis meses, disputar a São Silvestre ou escrever uma vez por semana.

Agilidade. Ficar tempo demais pensando na morte da bezerra, nos compromissos agendados ou em como o dia poderia ser diferente… Bom, isso faz mal à conexão entre cérebro e a ponta dos dedos no teclado. Substituir boas leituras por atividades burocráticas e horas de sono também atrapalham: fico parecendo um retardado diante do monitor, processando neurônios em busca da palavra que melhor se encaixa. Não devia, mas fico tempo demais diante de parágrafos que não acabam nunca!

Pois bem. Aqui não entra apenas disciplina, mas sim alguma técnica, macete, segredinho profissional para redigir parágrafos consistentes no menor intervalo de tempo. Como qualquer redator de website, que leva meia hora (estourando) para redigir o relato completo de um jogo de futebol. Com um pouco mais de tempo, dá até para abrir uns três ou quatro arquivos-texto por vez e ir lapidando-os aos poucos, acumulando gordura.

Um pouco de prática – oriunda da disciplina – também ajuda. Se um dia esse hábito realmente pegar, é possível que meus textos continuem compridos, mas preparados em pouco tempo. Em alguns anos, quem sabe, conseguirei redigir dezenas de parágrafos simultaneamente, como o Inagaki.

Tesão. Parece óbvio, não? Se é preciso motor (disciplina) e aerodinâmica (agilidade), ainda falta o combustível: o que te leva a escrever? E ultimamente está difícil perceber qual dos três itens parece falhar mais. Temos uma idéia brilhante, mas falta tempo. Sobram dez minutos, mas faltam as palavras. Finalmente conseguimos tempo e disposição, e eis que surge um vazio criativo. Falta vontade.

Sobre isso, a Gisele escreveu: “inicialmente eu postava pra mim. Depois para os amigos próximos, mas ainda utilizava o blog para armazenar coisas bacanas que achava por aí. De uns tempos para cá andei postando por trabalho, por vaidade, por possibilidades. Mas isso cansa, viu?”. Imagino que sim.

Já ouvi mais de uma vez algo que talvez contribua com uma reflexão. Pode ser que esse cansaço apareça após um processo de “motivação”, e aí mora um perigo: o efeito da motivação é o mesmo de um energético, acaba logo. Tome como exemplo qualquer desafio profissional: atingir resultados depende muito mais de esforço, trabalho duro, determinação, superação dos limites, independente do estado de espírito. Imagine se eu tivesse que contar apenas com motivação…

Não é pra ser um texto de auto-ajuda, mas sim uma lição simples. Você pode usar seu blog para o que desejar: divã, mesa-redonda, palanque, anúncio… Desde que sinta tesão ao fazê-lo. Seja qual for o seu desafio – fazer amigos, faturar milhões ou liberar a mente, o espírito deve ser o mesmo de um atleta. Ele pode correr para ser o melhor, para manter a forma ou relaxar: em qualquer circunstância, é fundamental sentir prazer.

Como dizem que o ano só recomeça após o Carnaval, ainda dá tempo de estabelecer as resoluções de 2009 para este blog. Hábito, técnica e alegria: é tudo o que preciso para seguir em frente.

André Marmota é um rei momo sem dono, sem trono, um pierrot mal-amado... Não, esperem, esse é o Ed Motta. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (14)

  1. Mudança de ares, ou de casa, sempre dá um gás para escrevermos coisas novas no Blog – nos últimos dias, você já escreveu dois grandes e excelentes textos ;-)

    Só essa mudança já te deu combustível. Agora é disciplinar-se (ou seja, o bom e velho “toma vergonha na cara”) e continua tocando o barco, quer dizer, o blog!

  2. Mas que bela novidade! Gostei demais da “nova morada”, viu? E não tenho a menor dúvida de que haverá disciplina, agilidade e tesão de sobra, como sempre. Abração!

  3. Pensei em dizer exatamente a mesma coisa que o Ock-Tock.

    Mas blogar é meio como andar de bicicleta, não se esquece. Porém, tem dias que chove, tem dias que o joelho reclama, tem dias que a gente vai longe demais e fica com preguiça de voltar, tem dias que o sol tá lindo, tem outros em que temos companhia. é isso.

  4. Ei, você me deu uma idéia! Junto com minha coletânea anual de posts que eu gostaria que tivessem sido mais lidos, vou passar a listar os PEORES posts do ano que passou! Preciso lembrar disso em janeiro do ano que vem, hehehe!

  5. Não é à toa, Marmota, que te nomeei padrinho de blog e meu guru! Você disse tudo: disciplina, boa técnica e alegria são essenciais pra manter o blog, ainda que este tenha o objetivo de apenas fazer (e manter) amigos.

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