Tina Oiticica Harris e eu

Não sei se um ano é tempo suficiente para que um episódio seja esquecido, digerido ou provocado alguma reflexão. Também nunca tive pretensão em julgar o que os outros pensam ou fazem, apenas defendo o direito de todos eles em defender suas idéias livremente. Na verdade, nada disso importa. O que você verá a seguir é apenas uma descrição sobre como desenvolvi minha conexão virtual com uma amiga que perdi há um ano, e o que aprendi com isso. Pode ser que não sirva para você, mas enfim.

Em junho de 2006, fiz um textinho bem vagabundo sobre minha rotina durante a Copa. Fui surpreendido por um comentário, mmmhhh, complexo.

Um dos comentários seus leva o bolão se dependesse de mim. Sou apaixonada por futebol. Nos tempos da FAU-UFRJ, íamos dois amigos e eu para a geral três vêzes por semana. Um é Framengo, o outro é Fluminense e eu sou Botafogo. Há vinte anos moro na minha terra natal, os EUA. Perdi muito o interesse pelo futebol e pior: vi a seleção ao vivo em Pasadena contra a Suécia; foi um purgante de jalapa aquele jogo. Recentemente colocamos a Rede Bobo pra dentro da casa. Dá pra ver o futebol do Brasil. Chego no ponto do bolão já-já. O futebol jogado no Brasil mudou. Não ligo pra campeonato nacional. Você venceu: torço é pro Botafogo; ainda mais, o quê me interessa é o campeonato carioca. O escrete canarinho, dizer o quê? Vi uns poucos jogos do Gaúcho, vi aquela vergonha contra a França, não gosto desde então do Ronaldo Fenômeno. João Saldanha dizia que a camisa pesa. Cheguei aqui através do blog Pensar Enlouquece.

A quantidade de informações encadeadas num único parágrafo chama a atenção de qualquer um. Acabei que não dei qualquer retorno – sequer agradeci a visita, como normalmente faço. “É por isso que seus visitantes somem”, pensei. Não foi bem assim. Ela voltou em outubro, intervindo num texto meu de proposta bem clichê: resolva seus problemas chutando aquilo que não lhe faz bem.

Alhear-se de pensamentos negativos é um exercício de força de vontade muito além da que tenho. Sou obsessiva, remôo todos os lados da questão que me injuria, falo pra caramba, escrevo, acordo de volta ao assunto e não esqueço. Acho que só um Maracanã de fósforos pra mudar minha idéia ou o Botafogo ser campeão. Valeu a retórica, ao menos.

Se não havia motivo para ignorá-la da primeira vez, agora havia. “Deve ser difícil lidar com essa mulher”. Ah, vá! Demorou mais algumas semanas até surgir a primeira cutucada. Lembro quando ela reapareceu em janeiro de 2007, quando escrevi um texto simplinho sobre a cratera do Metrô de São Paulo. Cheguei a conversar com a Luciana: “ei, já ouviu falar na Tina? Olha esse comentário aqui e me diz: ela não é maluca?”. Aqui, além das múltiplas informações encadeadas, veio uma atropelada leve.

Multiplique por vários milhares e você terá a cobertura do 9/11. Só soube hoje porque a Time Warner é malvada e nos deixou sem Internet; todos aqui no sul da California estamos com problemas. O buraco? Provavelmente erro na construção, desleixo no estudo geológico... A ponte Rio-Niterói deu problema porque os peões embuxavam os furos na estrutura com jornal, segundo um dos meus professores na FAU-UFRJ. Houve aqueles prédios na Barra, foi erro na construção, ganância. Meus votos de dias melhores a toda São Paulo. Isso não tem a ver com Serra ou PT. A indústria de construção civil é fogo na estopa. Olha só o bode de Nova Orleans e foi o exército USA quem construiu a proteção teórica da cidade. Para mim a palavra mais apropriada, com sua licença, é responsabilidade, não culpa. Culpa é coisa de religião. Com todo respeito.

Devo ressaltar aqui minha admiração aos que, mesmo diante da interface eletrônica que a rede oferece, agem exatamente como se o interlocutor estivesse diante dos seus olhos. Conheço quem goste de entrar em uma boa discussão… Há quem elabore argumentos como se não houvesse amanhã e sinta prazer quando percebe o oponente partir para a ofensa, demonstrando fraqueza.

Não é o meu caso. Minha cota de interação com pessoas esquentadas costuma esgotar no âmbito profissional, onde “convivência” vira sinônimo de “sobrevivência”. Preferi ser educado, agradecendo finalmente a visita e sinalizando um ajuste no texto. Novo comentário dela no texto seguinte, mais um e-mail simpático de retorno. No primeiro e-mail que recebi dela, pincei uma entre inúmeras idéias descritas – creio que nunca mais verei alguém com estilo de texto parecido ao dela.

Muito obrigada pelas palavras gentis. Sou petista e Libelu. Espero que não mude sua opinião sobre mim. Tenho fama de barraqueira entre os blogueiros. Treteira. Pois é.

Decidi ignorar solenemente os adjetivos que ela usou, mantendo a cordialidade – o que fez com que eu descobrisse mais a respeito dela. Ao redigir uma mensagem para qualquer pessoa, costumo começar com “espero que esteja tudo bem com você”, ou algo assim. Logo percebi que devia ter deixado isso bem claro a ela.

Esses dias perguntei um lance e quando você tiver tempo me responda, por favor. Por quê você tomou a iniciativa, duas vezes, de saber como estou? Fiquei intrigada, é só isso.

Minha explicação resultou em algo que não se vê todos os dias. Ela me respondeu como estava de maneira sincera, aberta, surpreendente. Usou para isso um longo arquivo em word, onde revelou muitos detalhes sobre sua vida. Contou suas idas e vindas entre Estados Unidos e Rio de Janeiro, histórias permeadas com a ditadura militar e sua carreira como professora de inglês. Detalhou seus problemas de saúde, de origem nervosa, e suas cirurgias. Uma delas explica seu discurso peculiar: como tinha dificuldades para digitar, seus textos eram concebidos por um programa de reconhecimento de voz.

Ah, sim. A segunda parte do mesmo arquivo trouxe uma história envolvendo sua relação tensa com alguns blogs, algo que ela levava a sério demais – infelizmente. Considerei que a primeira parte do relato explica o fato de sua mente criar conexões estranhas entre expressões aparentemente inocentes, pregando-lhe peças. Uma vez, por exemplo, coloquei um link para a Ana Brambilla – cujo blog chama-se Libellus. E não é que a Tina veio brigar comigo, sentindo-se perseguida e ofendida por ter sido da Libelu?

Sim, a Tina era uma pessoa difícil de lidar. Mas eu a respeitava, exatamente por identificar o que estava por trás disso. Segui ignorando o que a pudesse fazer mal: limitávamo-nos a conversar sobre os assuntos de nossos blogs. Eu aprendi a lidar com seu temperamento, e admito que não era tarefa simples.

A própria Luciana (que também adora um barraquinho, vai) perdia a paciência facilmente. Em boa parte dos casos, bastava parodiar o Balão Mágico para seguirmos em frente, dando risada: “dizem que é lelé da cuca, mas a Tina é gente fina e companheira”. Na briga mais feia que elas tiveram, ela desabafou e, ao final, perguntei:

– Lu, a Tina é mau-caráter?

– Não, não é…

– Então releve, Lu.

Nunca soube se a Tina gostava ou não dessa vida de implicante. Ela não parava de se enrolar, mas ao mesmo tempo pedia, vez ou outra, conselhos para sair destas saias justas. Foi assim quando proliferaram alguns posts com temática “essa tina é louca” na mesma semana que, coincidentemente, a mãe dela faleceu. No fundo, sinto que ela queria apenas ser ouvida por alguém. Era o que eu fazia, além de respondê-la sempre de um jeito parecido.

Oi, Tina! Sei que já passou um tempo desde que aquela multidão chegou ao seu blog por causa de alguns posts aí. Confesso que estava um pouco atarefado, por isso não acompanhei essa repercussão. Ao mesmo tempo, não presto atenção em relações virtuais quando elas não passam de simples troca de links ou tuitadas.

Mas enfim, como já te disse antes, a melhor coisa a fazer sempre nessas situações todas é ignorar completamente as pessoas que nos fazem mal. Eu também ando bastante entediado com pessoas que medem seu valor numa escala fraca - fulano é top te linha porque Fudêncio falou nele... Batizei essas relações de "suflê": são infladas, mas sem sustância, entende?

Sabe, às vezes sinto em você uma necessidade (muito positiva) em responder com firmeza, demonstrando seu ponto de vista com veemência. Só que, dependendo de quem estiver do outro lado, os efeitos dessa argumentação podem te fazer mal. E sabe o que mais? Ficar incomodada com "relações suflê" é perder um tempo que poderia ser ocupado com coisas melhores.

No seu lugar, Tina, eu pensaria assim: "bom, até esses dias, fulano conversava comigo por alguma razão. Agora me agride, me dispensa... Ou vai ver que está se dedicando a outras prioridades, o que pode ser bom pra ele. Se qualquer dessas coisas o faz feliz, viva. Eu vou seguir minha vida, cultivando aquilo que me faz bem".

Resumidamente: não tem como agradarmos a todos, e espero realmente que você use esse episódio como uma excelente oportunidade: limpe sua caixa de entrada e largue quem te decepciona. Valores baseados em "relações suflê" não fazem bem. Relações verdadeiras, baseadas na amizade e no respeito, sim.

Acredito que ela nunca tenha conseguido ignorar relações virtuais. Pode ser que ela realmente identificasse relevância em se aproximar de conexões e insuflá-las, pegando carona em “hubs sociais”. Mas como disse, nada disso importa. Há pouco mais de um ano, a Luciana me estimulou a fazer algo que já tinha vontade há tempos: “por que não gravamos um podcast especial com a Tina?”.

Tínhamos alguns bons pretextos: a Tina ouvia constantemente nosso experimento, o LoveLive. Ao mesmo tempo, o aniversário dela estava próximo. Assim, formalizamos o convite e, via Skype, ficamos umas três horas jogando conversa fora. Tive uma certeza: a “Tina oral” não se aproxima em nada da “Tina verbal”, a ponto de me arrepender por não ter tomado essa iniciativa há mais tempo.

Talvez por isso eu tenha ficado tão chocado com a súbita morte da Tina, dois dias depois daquela conversa tão rica, tão cheia de vida, de planos futuros (sobre isso, Luciana e o Doni já disseram o que eu penso). Fiquei mais triste ainda pelo marido Nicolas e o filho Gabriel, que diante de tantos elos enfraquecidos na web, eram suas conexões mais valiosas. Foi assim que a Tina se despediu, horas depois do nosso bate-papo:

Quero agradecer pelo papo no Skype, que deixou de incluir vários dos temas propostos mas foi super-legal pra mim. Espero poder vê-los LIVE aqui em Santa Monica, onde nossas portas estão abertas para vocês.

Duas coisas que aprendi sobre o André, confirme ou não Luciana pois você o conhece bem melhor que eu. Primeiro, a memória dele me assustou, pois é tão boa e detalhista quanto a minha. Segundo, me parece que ele exerce sua liderança usando a lei do menor esforço. Ele não briga, não força a barra, apenas caga e anda, o que minha tchurma chamava de "lesmar" para o que vá desgastá-lo.

Finalmente, vai ser uma puta tranqueira (meu) editar três horas e doze minutos de papo. Estou com pena adiantada dele.

Para mim foi muita emoção. Luciana, volte a blogar por favor porque sinto falta dos teus posts. André, desculpe-me pelo abuso do seu tempo. Seja incisivo e me corte de saída na próxima.

Beijos pra vocês e até breve nos comentários da vida na blogosfera.

A Tina nem imagina o trabalho que tive para editar… Preferi não mexer nessa gravação, esperar nossas vidas seguirem. Até para convidar a todos para guardarem todos os adjetivos para si, sejam eles bons ou ruins, e simplesmente curtir as boas vibrações propagadas por nossas gargalhadas. E já que você conseguiu ler até aqui, não custa nada ouvir mais uns setenta minutos e, ao final, cantar “parabéns a você” ao som do Talking Heads.

Sim, ela era uma pessoa dificil de lidar. Isso explica facilmente os muitos comentários negativos que ela recebeu – tanto em vida quanto depois. Também cometo minhas gafes, não sou perfeito. Sem falar que, como Tina bem disse no LoveLive, de perto ninguém é normal. Sem julgamentos, encerro com uma das reflexões possíveis, tomando emprestado a mensagem mais feliz que recebi sobre o tema, há um ano.

Eu nem sabia quem era a Tina. Mas por causa de seu falecimento, aprendi uma lição sua que nunca mais vou esquecer. Agora toda vez que estou brigando ou irritada com alguém, penso: "essa pessoa é mau-caráter?". Isso põe as coisas em perspectiva. Sempre.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (11)

  1. “Agora toda vez que estou brigando ou irritada com alguém, penso: “essa pessoa é mau-caráter?”. Isso põe as coisas em perspectiva. Sempre.”

    É uma bela frase e uma bela atitude. Lamentavelmente, como bem sabemos, nem sempre resolve tudo. Mas ajuda a pelo menos cometer menos injustiças. São tantas no mundo que é sempre bom pensar que não contribuímos com elas mais do que o possível.

    Forte abraço, camarada. Você mora longe, é pena.
    MarcosVP

  2. Caro André
    Seu texto é bem fiel à pessoa da minha irmã. Encrenqueira, crítica, etc, etc … Mas também carinhosa, amiga e principalmente, uma pessoa de caráter – bom, ressalte-se. Ela curtia muito a amizade blogosférica com vc e Luciana. um beijo carinhoso, Olga.

  3. Ah,obrigada por lembrar.Como tenho memória péssima,sempre pensava:meu Deus,quem lembrará da Tina?Será que ela irá para o esquecimento?Ficava assustada com a força com ela defendia o que achava certo,e como levava a ferro e fogo(na minha interpretação)as coisas da internet;mas ficava magoada por ela quando via os comentários malvados e rancorosos,mesmo depois de sua morte.Às vezes não entendia bem o que ela dizia,mas como sou meio lesa,deixava passar.Sinto saudade.Obrigada mais uma vez.

  4. Meu relacionamento com a Tina começou assim também, como num espanto e depois as coisas se ajustaram. Bastou compreensão e convivência de ambas as partes. Ela faz falta, justo também pela sua sinceridade. Beijus

  5. Estava lembrando da Tina e resolvi procurar no google e encontrei seu post. Eu era mais um dos amigos virtuais dela, acho que fui um dos poucos que nunca tive uma “briga”, só faziamos trocar links sobre música e conversar sobre a disputa virtual que ela tinha com o Izzy Nobre. Bateu uma saudade daquele tempo. Guardo até hoje um presente que eu, depois de muita insistência dela, aceitei.

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