Sobre escolhas e a falácia da alma gêmea

Eu não sei quem foi o imbecil que começou a espalhar por aí que “o que é teu tá guardado, sua alma gêmea vai aparecer e todos serão felizes para sempre”. Balela. Você pode até embarcar nessa onda de sentimentos anestesiantes, mas a chance de se decepcionar aumenta proporcionalmente em relação a “perfeição” do outro.

A verdade é uma só: faça sua escolha e pé na tábua. Mas não se agarre no conceito de “minha alma gêmea” esperando por eterna harmonia, como se fossem uma entidade única. Isso não existe. Mesmo aqueles que você sempre admirou vão pisar na jaca um dia. As brigas serão inevitáveis. Então, para continuar a caminhada, será preciso renunciar uma porção de coisas.

Normalmente, quem se apóia em alma gêmea sente dificuldades em raciocinar e optar por escolhas e renúncias equilibradas e justas. Conheci uma bela garota há alguns anos. Tinha certeza de que era uma garota bacana, mas longe de ser a tal “alma gêmea”. Ela pensava a mesma coisa, e realmente foi além quando conheceu uma, digamos, amiga despachada que eu tinha.

Eu tinha certeza de que poderia me entender com a bela garota – até porque as vibrações que sentia diante da amiga despachada eram bem diferentes. Mas a cabeça dela pensava de maneira tortuosa e confusa. Já estávamos juntos há algumas semanas quando, numa tarde de outono, ela apareceu lacrimejante e visivelmente chateada. Não disse uma única palavra, apenas entregou um bilhete em letras miúdas.

Oi, Deh...

Estou escrevendo alguns resultados do muito que eu pensei sobre nossas últimas conversas. Em primeiro lugar, está sendo bem mais difícil do que eu imaginava esse processo de te perder... Nesse final de semana eu pensei muito em você. Sério. Sabe que música eu te dei? Aquela assim: "uma boca que eu sei, não por que me fala 'lindo' e sim 'veja bem'...".

Acho que foi o efeito daquela discussão sobre a sua prova de ética e agenda setting (que nem foi uma discussão, né? Eu só quis te ouvir...) que me deixou com uma paixão intelectual por você. Eu passei a pensar em todas as coisas que nós poderíamos conhecer juntos, incrementando-as com idéias.

Além disso (eu deixei de te falar no momento apropriado), um dos beijos mais deliciosos que eu já recebi em toda a minha vida foi aquele que você me deu no rosto, lá no Açaí, junto com aquele abraço terno e envolvente ao mesmo tempo, com a pele do teu rosto acariciando a do meu.

Enfim, comecei a te transformar em um namorado perfeito em potencial, com o equilíbrio razão/emoção do jeito que eu sempre quis. Mas...

Lembrei da sua amiga despachada. Que sorriso lindo, não? E tão independente, com uma família tão legal, tendo um contato muito maior com você... E vocês gostam tanto de sair, né?

Então eu começo a lembrar de outras coisas que já aconteceram. A situação era mais ou menos a mesma. Tinha eu, e tinha uma morena linda que propiciava muito mais contato (se você ignorar minha discrição, terá a exata idéia do que eu quero dizer...). A única coisa que pesava ao meu favor era aquele estúpido "eu cheguei primeiro". Minha decisão foi sair de campo, eu sabia que eu não tinha condições de dar aquilo que ele queria.

Sabe o que eu fiz? Comecei a elogiar a menina. Um dia ele virou e disse: "por que você está fazendo isso, ela está me puxando e você me entrega assim, de bandeja?" O que você acha que ele decidiu? Pois é, hoje ele é absolutamente louco pela moça. O amor que ele sentia por mim acabou nascendo por ela, com o tempo. Foi bom, sabe? Desta forma as coisas se ajeitavam. Hoje ele tem a menina que ele ama e que se entrega.

Talvez eu esteja cometendo o mesmo erro de novo, mas eu acho que se você escolher a sua amiga despachada, vai acabar pintando um sentimento forte por ela também. Eu não vou poder oferecer independência para você. E se você quiser ouvir mais histórias sobre o tema, eu devo ter milhões na memória...

Mas se você estivesse disposto a ter muita paciência para esperar eu ir derrubando os obstáculos...

Se não, eu vou entender (é sério). Você merece mais do que isso, com certeza. E eu vou ficar satisfeita de saber que você está feliz em algum lugar longe do meu ciúme.

Ah, caso isso aconteça mesmo, posso te pedir uma coisa? Me guarda aí, em algum cantinho, tá? Leva um pouco das lembranças de mim contigo. Eu vou levar as tuas.

Será que essa carta precisa mesmo acabar com esse tom de despedida?

Tomara que você tenha ido bem naquela prova de ética.

Conta comigo, um beijo...

Enquanto lia, ela chorava muito. Tinha certeza que eu iria trocá-la pela minha amiga despachada. Terminei, dobrei o bilhete, guardei na agenda e respirei fundo. Disse tudo que pensava naquele minuto: sabia que éramos diferentes, que teríamos obstáculos, que seria difícil… Mas é a vida, oras! E o que seria dela se não fossem alguns desafios? Quer saber, ignore solenemente esse bilhete e vamos seguir em frente. Com o tempo, a gente corrige o rumo. O máximo que pode acontecer é dar errado, mas ao menos saberemos as razões e, antes de acertar na próxima, já teremos aproveitado bem. E emendei com um beijo. Não foi no rosto, claro.

Eu tenho total convicção que fiz a melhor escolha. Mas enfim, como costuma acontecer comigo, nossa relação durou apenas mais uns dois meses. E eu estava certo: hoje ela vive feliz com um sujeito que não comete os mesmos erros que eu. Ah, soube semana passada que minha amiga despachada foi morar na Inglaterra com um “amigo despachado” e não tem data para voltar.

Eu não mudei muito: escolho a coisa errada muitas vezes, inclusive a ponto de me decepcionar profundamente com pessoas que me fizeram mal. Mesmo assim, sigo me guiando em função daquilo que posso tocar ou sentir de verdade, ao invés de acreditar em crenças vazias de perfeição. Sem medo de sofrer. Afinal, todo grande amor só é bem grande se for triste, não?

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