SimGov Brasil e a questão da escala

Atenção desenvolvedores de jogos para computador: vocês estão perdendo uma grande oportunidade em razão do atual (e conturbado) momento político do país. Vocês são craques em bolar toda sorte de algoritmos baseados em teorias emergentes, resultando em programas que nós mortais chamamos apenas de “simuladores”. Desde o clássico SimCity, que gerava cidades. Vieram as colônias de formigas, prédios, parques de diversões, campeonatos de futebol (quem nunca jogou Elifoot?), civilizações inteiras, o próprio globo terrestre…

Por que não criar um simulador de democracia legitimamente brasileiro – o SimGov Brasil?

A proposta é simples: o jogador seria responsável por variáveis de controle geral do sistema democrático – e aqui a grande ressalva: não é como ser presidente, e sim uma “mão invisível” que cria condições deste ou daquele ser eleito. O jogo começaria em 1985, ao final do regime militar – e poderia contar com diferentes níveis de dificuldade: com ou sem Tancredo, número de cadeiras na Câmara ou Senado, quantidades variadas de partidos e limite (ou não) para troca, etc.

Com o motor da brincadeira rodando, o jogador teria total condição de alterar características básicas em um ou mais parlamentares: habilidade retórica, comprometimento com questões sociais, tempo de permanência na Capital Federal – e talvez a variável mais importante: preço (segundo a premissa básica do SimGov Brasil, todos eles poderiam se vender). Feitas as alterações, o simulador trataria de “definir” os blocos em cada pedaço do Legislativo: quantos homenzinhos ficam em cada partido e quais deles se associam entre si.

Em outra tela – a do Poder Executivo, temos a figura do Presidente – que mudaria a cada quatro ou oito anos, de acordo com a “vontade popular”, uma variável definida de acordo com o desempenho do sistema. Nessa área do jogo, é possível definir cargos de primeiro nível (ministérios e presidências gerais), apenas entre alguns nomes possíveis, de acordo com quem estiver ocupando a presidência. Obviamente, todos tomariam decisões sozinhos, de acordo com a tendência coletiva: prioridades governamentais, salários, conchavos e outras esculhambações.

Toda essa turma seria “escalada” entre milhares de figuras pré-cadastradas num imenso banco de dados, fazendo com que alguns personagens sumissem a cada ciclo de quatro anos – ou permanecessem eternamente aprontando. Com o sucesso inevitável do SimGov Brasil, pacotes de expansão venderiam como água: sistema mensalão petista, sistema privatizante tucano, sistema oligarquias intermináveis, sistema parlamentarista italiano, sistema iminência de golpe… Programadores deste país e pensadores políticos em geral, uni-vos!

***

Fiz uma extrapolação deste artigo da vereadora Soninha e juntei com a idéia do SimGov Brasil para chegar a uma conclusão evidente, mas que funciona como um consolo: nossa nova democracia lembra uma turma de segunda série primária: começou a estudar esses dias e só apronta barbaridades. Tanto os representantes quanto aqueles que votam neles ainda estão em ponto de cru, muitos deles com lembranças do internato – o nosso regime militar.

Seria bem mais simples fazer como nos jogos de computador: aumentar a velocidade do simulador e ver a coisa passar sozinha, se ajustando com o tempo e com a habilidade do jogador. Como não dá pra mexer na aceleração da vida política nacional, podemos simplesmente imaginar que o problema da corrupção no poder é uma questão de escala: estamos no meio do SimGov Brasil, vendo o jogo correr normalmente. Tudo seria diferente se víssemos tudo de fora pulando um ano em poucos segundos.

Resumidamente: o futuro promete ser melhor.

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. “o futuro promete ser melhor.” Até porque achar que piorar significa uma desgraça muito grande né, André?

    Mas eu acho que tem jeito. Esses caras vão acabar se explodindo lá em cima, um jogando o outro aos leões e no fim, vai ter uma limpa. Eu não sei porque, mas eu tenho fé nisso. O problema é, depois que eles saírem, quem entra?

    No meu prédio, a gente não consegue nem arrumar síndico. Ninguém quer ser. E se ninguém quer ser síndico, quem vai querer ser presidente do Brasil?

    Ah, o Dimenstein escreve melhor que eu sobre isso. Bjos, gurizinho.

  2. Muito boa a idéia! Eu certamente iria comprar esse jogo e brincar de eleger presidentes diferentes ao longo dos anos, só pra ver como poderia ter sido. :)

    Só não gostei do nome, SimGov parece nome de remédio!

  3. PUTZ! Acabei de ver que vc colocou o Claquette ali junto com os “quase diários”! Pô cara, ‘brigadão! :D

    Será que isso quer dizer que eu posso esperar comentários seus por lá, de vez em quando? ^_^

    Abraço!

  4. Também acho. É nessas horas de caos que acontecem as “limpas” – e a sujeira, aos pouquinhos, vai sendo varrida.

    Eu tô até achando que, com a saída da dupla Dirceu-Genoino da cúpula, o PT até voltará a ser um partido decente…

    Abração!

    ps) 3 dias pro Tri!!!

  5. Mestre,

    Eu acho que não rola. Se for pra refletir a real situação brasileira, o jogo vai fazer o computador travar de tão lento, e da necessidade de utilizar muitos outros programas para poder rodar; vai falhar o tempo todo (dar o famoso tilt); vão criar um imposto por hora de utilização do jogo; os deputados vão se rebelar e protestar pedindo um aumento de memória RAM; além das inúmeras pragas que vão se espalhar e corromper todos os arquivos do computador.

    É bom pensar bem antes de tentar usar algo deste tipo em nosso computador. Corre-se o sério risco de REALMENTE cair na realidade.

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