Revista Wave e meu trauma com networking

Houve um tempo em que cabeças pensantes interconectadas via rede marcavam encontros presenciais simplesmente por conta da trivial necessidade de apertar mãos, olhar nos olhos, sorrir, conversar… Essas coisas que sempre motivaram minhas escapadas desde os tempos de BBS. De repente, fiquei com a sensação de que algo mudou nas relações humanas.

Faz tempo que não vou a um encontro desses, e é uma pena sentir que falta vontade de ir (talvez eu me entusiasme a participar do Barcamp Bauru, idéia do Paulo Milreu). Nas últimas participações, voltei exausto e decepcionado, “impregnado de networking”. Claro que é sempre bom rever velhos conhecidos, mas alguns cumprimentma você dizendo “muito prazer”, enquanto eu respondo “como assim, se nos vimos esses dias e passamos a noite trocando idéias?”. Outros encaram, tentando lembrar “de onde eu conheço aquele sujeito”… Para aproveitar o tempo, preferem se aproximar das pessoas mais populares. Afinal, quem sabe assim consigam algo relevante em troca?

Não sou contra a maré do mercado corporativo, entendo até a necessidade de quem navega por ela. Admito que pode ser uma impressão equivocada, mas é a minha visão. E é gente demais acreditando que é realmente muito legal ser destaque na mídia social, cavar parcerias, faturar uns trocados… Pode parecer exagero, mas confesso que essa visão me deixou com o que pode se revelar um mal dos tempos modernos: “trauma de networking”.

Identifiquei os sintomas pouco tempo depois de um gentil convite feito pelo Vitor Gomes, editor da novíssima Revista Wave. O objetivo deles é atingir os jovens universitários identificando suas diferenças (e aproximando-as, claro) através de uma revista de alto padrão, distribuída gratuitamente em algumas faculdades de São Paulo. Para a primeira edição, lançada em fevereiro, o Vitor convidou alguns artistas da palavra, como a Kandy e o Gravata.

Sabe-se lá o que o Vitor tomou antes de escrever, mas o fato é que ele também convidou a mim. Fiquei lisonjeado, mas no fim das contas tive problemas com o prazo, com o tema, com o limite de caracteres… Detalhes que me complicam em todas as outras nuances da vida. Já nos acréscimos, enviei minha participaçao, além de um pedido de sinceras desculpas – com a certeza de que o pessoal da revista já teria motivos para me ignorar para todo sempre.

Pois mesmo deixando o Vitor de cabelo em pé, veio um novo convite gentil: o do lançamento da revista, em dez de fevereiro. Era num fim de tarde de terça-feira, num bar bacana da (nem tão bacana) Vila Olímpia, a poucos metros de onde trabalho. Não havia razão alguma para faltar a esta celebração, e realmente estive lá!

Quer dizer, optei por assistir aos minutos finais de Brasil x Itália numa padaria dos arredores. E até chegar ao local do festerê, os sintomas do trauma chegaram. “O que eu vou ficar fazendo lá? Não conheço quase ninguém, vão achar que estou ali por algum interesse, alguém vai me chamar de famosão da Internet…”. Nesse clima, fiz uma criancice: entrei no bar semi-vazio, mal observei as dez pessoas que estavam por ali, peguei uma edição da revista e, sem pedir sequer uma água, fui embora.

Talvez tivesse sido diferente se perguntasse pelo Vitor, cumprimentasse-o pessoalmente, agradecendo e elogiando o trabalho, querendo saber mais sobre as liberdades juvenis na Dinamarca ou sobre como acompanhar o próximo papo de boteco (baixe a primeira edição aqui para saber), entre outras coisas enriquecedoras.

Maldito networking. Preciso de tratamento. Ou, de repente, simplesmente sair com as pessoas certas.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. grande marmota!

    cara, sinceramente, acho que te entendo… não sei se fui contagiado exatamente por esse trauma, mas te entendo.

    e o tempo em que encontros só valiam realmente pela possibilidade de um aperto de mãos e de uma conversa mais real e não filtrada pelos bits e bytes da internet? ah meu caro, eu ainda valorizo isso e é sempre nisso que penso quando vou encontrar – de verdade – as pessoas.

    esse é o ganho que espero ter: novas experiências, novas discussões e novos pontos de vista. (e tudo isso só para começar, hehe)

    aliás, lembrei de um dia em que marquei de tomar um chopp com o inagaki e vc acabou aparecendo… nossa, há quanto tempo foi aquilo?

    abs,
    muta

  2. Eu gosto de bate-papos, encontros, conversas.

    Não gosto do que o termo networking acabou virando sinônimo. Um encontro de pessoas se esforçando para passar impressões, geralmente falsas, sempre minando algum benefício posterior.

    É gostoso conhecer gente, sem pretensão maior que a de ver novas idéias e opiniões ou mesmo ter um papinho curto, mas agradável e verdadeiro.

  3. Porra meu, que mancada!
    Veja bem, muita gente realmente encara o networking como uma maneira de obter vantagens futuras. Tudo bem para as pessoas que pensam assim, mas você pode enxergar as coisas de maneira diferente.
    Imagine que sempre é proveitoso conhecer gente interessante, inteligente, com conteúdo. Era o lançamento de uma revista, e não de uma coleção de moda, poxa vida! É o seu universo.
    Vê se pára com essa frescura.

  4. Cara, tenho essa mesma sensação. Vou em eventos web e acho que seria melhor acompanhar de casa. O networking que se faz na web, parece não funcionar no real world…

  5. Ah, André! Eu fui ao lançamento e você me conhece. Podíamos ter conversado e dado umas risadas… fiquei lá boiando… :o)

  6. Esse é o Marmota que conheço. “Odeia” elogios por mais que eles sejam verdadeiros…Será que isso é coisa de taurino? risos. Acho que pode até ser a busca pela turma certa, mas uma terapiazinha vai bem…hem!
    bjkas uma de suas fãs de sempre!

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