Relacionamentos e suas teorias de consumo rápido

Esta segunda-feira, de acordo com a minha agenda, marca a comemoração do Dia do Solteiro, espécie de celebração internacional do “e eu uma pedra”. Engraçado que, ao contrário da data antítese, ninguém ganha presente. Mas enfim.

Percebo que a cada dia eu me especializo em garantir essa comemoração, ano após ano. Tudo por conta de um dos inícios de parágrafo que mais aprecio: “eu tenho uma teoria…”. E teorias sobre as razões (ou a falta delas) dos relacionamentos de sucesso são muitas – experiência de quem acumula portas fechadas ou, pior, costuma fechar portas inconscientemente. Aliás, devo dizer que pensei muito antes de prosseguir com estas linhas, justamente para não desapontar quem ainda vê salvação em mim. Tudo bem. Se ela existir, virá com ou sem teorias.

Todas elas, coincidentemente, podem ser sintetizadas em elementos materiais comestíveis. Como já aconteceu em uma das minhas preferidas: a teoria do suco de repolho. Segundo ela, todas as pessoas abertas a novas possibilidades, e que estão sempre de bem com a vida e acompanhadas, são como suco de laranja: se adaptam facilmente ao gosto da sociedade. Eu e muitos outros somos suco de repolho.

Mas tem mais, o suficiente para encher a mesa do almoço. Vamos a elas.

Teoria do Copo de Refrigerante – Popularmente divulgada num velho ditado popular: “nunca julgue um livro pela capa”. Funciona também com aquele copo de papel da lanchonete fast-food, servido em sua bandeja após seu pedido: guaraná light. Você observa aquela aparência turva e pensa: “já vi guaraná light antes, tem exatamente esse aspecto. Deve estar certo”. No primeiro gole, a surpresa: era Fanta Uva normal.

Mesmo se você não tivesse pedido nada, certamente acionaria seu cérebro para dar um valor imediato aquele conteúdo. Por uma razão bem simples: temos medo de tudo que não conhecemos bem. Fatalmente usamos nossas referências para designar o que é, e como determinada coisa pode afetar em nossa vida. Tão natural que são comuns as surpresas após o primeiro gole: puxa, não era nada daquilo que eu imaginava.

Esse é um dos maiores desafios da nossa existência: não usar as nossas referências e experiências pessoais para adivinhar o conteúdo de outra pessoa – prática inconsciente, graças ao nosso temor pelo desconhecido. Só podemos mesmo emitir uma opinião mais próxima da realidade quando percebemos o óbvio: olhar por cima do copo, examinar seu conteúdo de verdade. Dar o primeiro gole antes de ter a primeira impressão.

Teoria da Picanha na Chapa – Essa é baseada em fatos reais. Não sabíamos o que pedir, por isso sugeri: já que estamos sem fome, vamos dividir um prato de picanha na chapa. Proposta recusada, pela falta de vontade da minha companhia em comer carne. “Tudo bem, vamos escolher outra coisa”, disse, naturalmente.

Seguiu-se um sermão da montanha por parte da pessoa convidada: ora, pra quê deixar de pedir o que gostaria só porque não vamos dividir? Peça aquilo que quer, satisfaça os seus desejos, não vá se sacrificar por minha causa. E mais: se você não pedir, vai passar vontade, e vai ser por minha culpa, já que eu não quis dividir o prato com você.

– Mas é grande, e eu só pediria se você quisesse dividir comigo…

Mas como você é teimoso! Já te falei que isso pode te fazer mal. Então você vem até aqui, e sem olhar o cardápio, fala na picanha na chapa. E eu não estou afim! E pronto! Mas você quer, não quer? Então pede, pelo amor de Deus.

E eu pedi a picanha. Muito boa, por sinal. Veio com arroz, salada, batata frita… Sobrou a metade.

– Puxa, se soubesse que era assim, teria dividido…

A vida é cheia de pequenos prazeres, e nem todos se resumem a um pedaço de carne. Não custa nada dialogar com calma e paciência para conquistar algo comum – ainda mais quando uma das partes propõe flexibilidade. Na prática: toda vez em que você tiver que optar entre brigar pelo que pensa ou abrir mão para acalmar as coisas, coloque o assunto na balança e, do outro lado, uma picanha na chapa.

Teoria da Margherita do Speranza – Quando estiver em São Paulo e convidarem você para comer uma pizza, pense seriamente na possibilidade de ir ao Speranza, considerada por muitos como a melhor da cidade. Diz a lenda que foram eles que trouxeram a tradicional Margherita – queijo muzzarella e manjericão – para o Brasil.

A Margherita do Speranza é uma verdadeira instituição da cidade. O aviso está nas primeiras linhas do cardápio: “não fazemos meio a meio”. E não adianta ter dúvidas, ou tentar subornar o garçom: não tem como misturar outro sabor à pizza. Ou pede uma inteira ou não pede. Simples assim.

Muitas vezes a possibilidade de um novo relacionamento aparece em sua vida como uma Margherita. Mas nem sempre você está com vontade de comer queijo com manjericão. Tem plena convicção de que vai sobrar pizza no prato. Pra compensar, você tenta a proposta impossível: “tem como servir meia-namoro meia-amizade?”. O garçom sequer responde.

O mundo é uma cruel pizzaria, onde muitas vezes não se pode ter dúvidas. Nem aquilo que deseja naquele momento.

Teoria do Cachorro Quente Sem Salsicha – Não sei quanto a você, mas eu nunca fui chegado a histórias superficiais, daquelas que duram uma noite e nada mais. Também desconfio de possibilidades “maravilhosas demais”, onde só o sentimento que existe entre duas pessoas pode fazer com que algo seja lindo e maravilhoso para todo sempre…

Por essa razão, algumas neo-categorias de relacionamento, desde ficar na balada até namorar pela Internet, são como cachorro quente sem salsicha. Não ligar no dia seguinte ou não dar chance para uma convivência real soa como se o seu acompanhante oferecesse a você pão com molho. Claro que dá pra compensar. Muitos colocam “aquele algo mais pra ficar gostoso”. Purê, batata palha, vinagrete, salada, queijo cheddar…

Mas ainda é cachorro quente sem salsicha. Tem gente que come e acha bom, se diverte, dá pro gasto, enfim. Eu não.

Teoria do Yakisoba da Calçada – Sejamos francos: não é fácil sustentar um relacionamento. Não dá para separar as coisas boas das ruins: elas estão sempre juntas, a ponto de você se perguntar todo santo dia: vale a pena fazer tudo isso?

Qualquer relação com alguém pode ser comparada aquele yakisoba servido na rua por um chinês habilidoso. Normalmente você não sabe de onde aquele cidadão tirou os ingredientes, quanto tempo ele ficou no sol, se a chapa foi limpa recentemente ou lavada com detergente há alguns segundos…

Dependendo da sua fome, talvez você nem ligue se aquela gororoba vai cair bem ou provocar uma imensa dor de barriga. Enquanto uns relutam, comem uma vez para nunca mais… Outros deixam o organismo se adaptar e vão em frente. Viram freguês. Ficam descolados. Pedem mais molho.

Uma coisa é certa: só existe um jeito de saber se vai te fazer bem ou mal. E não adianta se arrepender depois, seja por passar mal ou de arrependimento por ter deixado a chance escapar.

Mais alguma ou fecha a conta?