Recomeçando, de onde paramos

Antes de mais nada, um breve comentário. Dias atrás recebi um e-mail. Era de um desses novos profetas do maravilhoso universo moldado com a esfarelenta massinha de modelar da mídia social. Começava com um safado “olá” impessoal, seguido de “como você sabe, eu sou aquele cara que todo mundo conhece e estou cuidando de um negócio…”. Juro que, antes de escrever as linhas que seguem, veio uma vontade enorme de não provocar em você a mesma sensação rarefeita que senti diante da minha caixa postal.

Por isso, vou partir da premissa de que você, amigo navegante, ao clicar de repente em algum lugar abriu um texto de blog escrito em 2012 (já dá pra chamar isso de “vintage”?), não sabe nada sobre mim, menos ainda sobre uma pagininha de nome “marmota maia dos mesmos”, assim mesmo, no plural.

Marmota sou eu. Encantado em vê-lo aqui. Não é nome, evidentemente. Este é André, como devo ser lembrado por boa parte dos meus interlocutores. Meus pais, meu irmão e minha cunhada vez ou outra falam Dé. Algo similar ao que algumas das minhas ex-namoradas faziam – uma delas grafava “Deh” em nossas trocas de cartões. Outra grande mulher que conheço gosta de dizer meu nome e sobrenome, numa linda e marcante formalidade íntima: André Rosa. Nem sempre o achei belo. Muito antes da garotada banalizar o termo bullying, meus coleguinhas do primário cantavam a musiquinha de um comeercial alusivo ao lançamento dos bonecos da Turma da Mônica. Dizia “Chiiico Beeento e Rosiiinha…”. E Rosinha era eu.

De uns tempos pra cá, também me chamam bastante de “professor”. Foi o que decidi fazer da minha vida, depois de me divertir uns dez anos com jornalismo esportivo. Tenho amigos que perguntam se, além de dar aulas, também trabalho. Alguns destes, sem brincadeira. Eu mesmo sinto uma saudade danada da redação, dos incêndios, da correria, das pizzas às quartas-feiras durante a rodada. Então me dou conta que posso me dar ao luxo de programar uma vida a partir de finais de semana e feriados. Também olho por uma fresta na porta do mundo caótico que habitava: muitas das coisas que gostava não estão mais lá, enquanto raízes daninhas se fixaram no tronco. Aí a saudade passa.

Foi durante uma tarde rotineira de labuta, em 4 de setembro de 2002, que lembrei do papo com uma colega sobre algum site bacana mantido por um sujeito qualquer. Figura que talvez a gente nunca teria chance de saber o que gosta, o que pensa, o que faz. Não entendia exatamente por que um amontoado de cotidianidades interessaria outra pessoa. Mas achei aquele sisteminha de publicação simples, robusto e fascinante. Em poucos cliques, tinha um blog. Este aqui, pra ser exato.

Naquele ano, muita gente plugada na rede teve a mesma idéia. Compartilhavam sua presença por meio de uma interface baseada em teias compostas por zeros e uns. Até por isso, imaginava que o meu cantinho surgiu para ser mais um entre os muitos. Quer dizer, os mesmos. Aquela grande mulher que me referia há pouco me disse certa vez: a primeira impressão a meu respeito não foi das melhores. “Vou escrever pra esse idiota pra dizer que o correto é mais do mesmo”. Mal saberia que nossa convivência, bem como o nome deste espaço, também teria um bocado de licença poética.

Enfim. Contrariando o nome, este blog já mudou de sistema, de URL, de companhia. Começou no promissor “marmota.blogger.com.br”, e em poucas semanas, foi catapultado aos píncaros da fugaz popularidade virtual pelas constantes menções dos editores do serviço mantido pela Globo.com. Ganhou domínio próprio e experimentou o Movable Type, uma demonstração perfeita de tecnologia incapaz de se mostrar pertinente no decorrer do tempo. Namorou um tempinho com o WordPress antes de se casar com um projeto que sintetizou um período de efervescência: blogs organizados em condomínios, planos de negócio, monetização, manchetes que saltavam dos cadernos de informática para as revistas semanais. Era divertido, ainda que blogueiro famoso seja igual a Miss Cangaíba.

Por fim, influenciado por uma grande mulher (se não são elas em nossas vidas, hein…), meus textos organizados em ordem descrescente de data atracaram num portalzinho familiar, como se fosse aquela pracinha onde pessoas bacanas viessem bater papo ao redor do coreto. Um lugar tão legal que, se procurar por algum beco escuro, o incauto dá de cara com um poeminha.

E lá se vão, puxa vida, dez anos. Podemos dizer que este intervalo de tempo começa com algum heavy-user da web programando três ou nove postagens por meio de uma arcaica combinação de PHP com MySQL, antecipando a descrição de seu casamento com algumas cores e tons; e termina com este mesmo usuário exibindo em sua timeline do Facebook uma sutil mudança de status para “solteiro”, coisinha que cabe em pouco menos de 140 espaços. No meio destes dois pontos, cabem uns 60 milhões de brasileiros olhando através de janelas amigáveis baseadas em textos, fotos e vídeos, descobrindo as alegrias e decepções humanas de um jeito nada fácil de se entender. Ainda que eu duvide, talvez tenhamos sido mais inteligentes algum dia, como disse aquele outro jornalista.

Mas enfim. Eu mesmo me sentia uma fraude quando comecei a dar aulas de verdade. Foi assim que investi algum tempo (e alguma grana) em um mestrado acadêmico. Qualquer dia desses pretendo escrever mais sobre esse período. Mas já posso adiantar que foi um processo repleto de obstáculos… Dos dois anos que tive para entregar a dissertação, levei um ano e meio só para entender o que estava fazendo! De qualquer forma, gostei bastante do resultado final. Tanto que já penso seriamente em como vai ser meu doutorado – definitivamente, já fui mais inteligente algum dia.

Ah, sim. Nesse meio tempo, como todo castigo pra pobre é pouco, fui levado a outra investigação de cunho acadêmico: levantar hipóteses e aplicações empíricas relacionadas ao desejo das grandes mulheres. É uma arapuca sem fundo, mas já redigi a conclusão. Cabe em cinco palavras: “elas sempre querem outra coisa”.

Olho para frente e vejo ao longe perspectivas interessantes. Mas também gosto muito de olhar para trás, e este blog é uma coleção de fragmentos que, em um clique, emergem do passado e reaparecem. Enquanto passava as últimas semanas brincando de aparar a grama, varrer o quintal, ajustar templates e atualizar wordpress, encontrei comentários perdidos e sem aprovação nos cantos da sala. Como as jovens admiradas com a relação de um taurino com uma aquariana, compartilhando suas experiências similares – e pensar que a moça que inspirou essa trama já é mãe. Ou na legião de pilotos, aeromoças e passageiros divergindo sobre a experiência de voar num ATR-42 da Pantanal. E os mais injuriados, que frequentam o link mais acessado em todo o Dialetica.org: gente frustrada ao esbarrar na minha receita para fazer um carrinho de controle remoto.

Foi assim que percebi duas coisas. A primeira: entre as muitas formas de se aproveitar um blog, agrada-me a possibilidade de escrever despretensiosamente sobre o que der na telha (como agora), criar laços com quem aparece para dar uma lida ou mesmo conversar, reunir cada uma destas palavras num repositório capaz de compor minha identidade e, acima de tudo, não ter pressa para fazer nada disso.

A segunda: estava com saudades disso aqui… É como voltar ao nosso lar depois de um tempo viajando, minhas malas colocar no chão e meu cachorro me sorrir latindo.

André Marmota fala, lê e escreve razoavelmente em português castiço, engrish macarrônico e portunhol com legendas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (10)

  1. Oláááá!!! Que beleza!!! Pra reeditar o clima dos velhos tempos,vou fazer um comentário pertinente:

    PRIMEIRÃO!

    huahuahauhhauhaua…

  2. André Rosa, o último parágrafo lembrou a proposta que te fiz uma vez: assim que vier a aposentadoria vender tudo e sair pelo mundo viajando. E você, sempre ponderado: Nada disso! Melhor do que viajar, é ter para onde voltar. ;)
    Eu adoro ler seus textos.
    Um beijo,

  3. Benvindo (nova ortografia? argh) de volta a sua casa!

    Espero que o e-mail impessoal de mídias sociais não tenha sido meu. Hehehe!

    Abração do pequeno homem.

  4. Fiquei muito feliz ao ver essa novidade ao acordar no outro domingo. A gente pega amizade pelo blogueiro, e quer estar sempre em contato, lendo suas idéias e pensamentos. Não vá sumir novamente, tem muita gente aqui que gosta de te ler hein !!

  5. Adorei ler essa retrospectiva!

    Acho que olhar pra trás é mto válido, pensar sobre as coisas que aconteceram… e sempre com o olhar no futuro, que logo vai bater à porta!!

    :)

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