Que tal um livro reunindo entrevistas com blogueiros?

O texto que segue logo após os asteriscos foi publicado aqui em 3 de abril de 2007, e vem a calhar no instante em que a editora Digerati lançou a versão em português (castiço, segundo as críticas) do livro “Blogging Heroes”, de Michael Banks. Basicamente uma conversa com 30 blogueiros angloparlantes considerados influentes, sobre técnicas, filosofias e motivações.

Independente dos tropeços na tradução, Tiago Doria revela boas razões não apenas para dar uma folheada, mas especialmente recuperar a proposta de uma versão brasileira. Segundo ele, o livro “foge das cansativas conversas de fórmulas prontas sobre como ganhar dinheiro com blogs, rankings, SEO e outras coisas do tipo. São conversas com autores de blogs que estão trabalhando no dia-a-dia, tem um trabalho consistente, estão mais preocupados com conteúdo, publicam um post já pensando em escrever o próximo, não vivem apenas de uma suposta fama adquirida com rankings ou auto-premiações”.

Esse parágrafo me fez pensar em algo que escrevi aqui, há dois anos: “minha lista de potenciais entrevistados deve ser bem parecida com a da maioria”. Isso porque nem sempre aqueles blogs que a maioria lembra revelam boas histórias (ou mesmo alguma que não tenha sido contada no Blogumentário). Nesse sentido, faz mais sentido uma proposta como a do Adilson: longe de ser um catadão de respostas às mesmas perguntas (como em “Blogging Heroes” ou no português “Blogs”, de 2003), as entrevistas se transformariam em perfis.

Uma das referências lembradas pelo Pedrox é o documentário paraense “Invisíveis Prazeres Cotidianos” tente imaginar uma versão nacional e por escrito deste. Bom, partindo da premissa de que “blog com sucesso” não é necessariamente aquele que reúne mais buscas por “Ana Carolina na Playboy”, é possível alternar personagens empreendedores com amantes do “blog-moleque” e definir alguns nomes brazucas para uma pré-seleção, não acham?

Se bem que… Como já falaram por aí em “fim dos blogs”, de repente essa idéia deveria ter sido executada em 2006…

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Não quero ser injusto, muito menos posar como “pai da idéia”. Já ouvi algumas vezes, de diversas vozes, a seguinte proposta: por que não selecionamos alguns bons blogs, de variados ramos de atividade e objetivos, fazemos uma boa entrevista com cada um de seus autores e reunimos esse material num livro? Visões plurais de gente acostumada a essa ferramenta culminaria com um retrato interessante do momento atual dessa tal “blogosfera”, além de algumas boas razões para motivar pessoas interessantes, com algo a dizer, a fazer um.

Não é a invenção da roda, é claro. Certamente você conhece um ou outro blog bacaninha que utiliza o recurso da “entrevistinha rápida”, seja com aquele cara bacana que é leitura de todo dia, seja com um desconhecido que bolou alguma nova ferramenta. Todo dia tem uma entrevistinha em algum blog nacional, demonstrando a eficiência desse formato consagradíssimo.

Mas apesar disso, nenhum livro sobre blogs publicado no Brasil explora essa diversidade de mentes. A maioria explica o que é, traz um guia de como se dar bem com ele no mundo dos negócios, republica os melhores posts… Entre os que conheço, talvez o que mais valorize essa diversidade é o da tese da Denise Schittine, que vale a leitura. O expediente da entrevista é similar ao de muitos mestrandos e doutorandos. E no caso dela, as fontes embasaram a análise de um tema específico: blogs como diários íntimos e pessoais.

Fora do Brasil, a proposta de contextualizar o momento da blogosfera a partir de blogueiros já foi realizada. Paulo Querido, jornalista e criador da rede portuguesa TubarãoEsquilo, escreveu em 2003, ao lado do advogado Luis Ene, o livro Blogs. As entrevistas pingue-pongue, com seis expoentes da blogosfera portuguesa na época, complementavam as explicações de praxe sobre como se faz um blog.

Talvez o livro que mais se aproxime da proposta “conheça os caras e entenda o fenomeno” seja Blog!: How the Newest Media Revolution is Changing Politics, Business, and Culture, de David Kline e Dan Burstein. Um catatau de 320 páginas com a pretensão de explicar como essa “nova mídia” está revolucionando o país. Está dividido em três partes: política, negócios e cultura. Em cada uma delas, uma completa introdução e longas entrevistas com o que os autores chamam de “A-list bloggers”. Entre as dezenas de personalidades, Adam Curry, pioneiro dos podcasts, Joe Trippi, coordenador da campanha de Howard Dean, e Nick Denton, criador do Gawker Media, estão lá.

Temos que admitir duas coisinhas. Primeira: a realidade socio-politico-economico-cultural do Brasil é bem diferente da portuguesa (e ainda mais distante da norte-americana). Segunda: a dinâmica dos blogs acompanha a velocidade da rede, fazendo com que os dois livros acima envelheçam depressa demais. Mesmo assim, eu teria muito interesse em ler uma publicação reunindo alguns nomes que souberam usar a ferramenta para fazer algum barulho. Inclusive, minha lista de potenciais entrevistados deve ser bem parecida com a da maioria. Não acha?

Se você gostou da idéia, aproveite algum feriado para começar a trabalhar. Lembre-se: alguém pode até ter pensado nisso, mas se ainda não fez, a chance é toda sua.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Grande idéia, Marmota! Ainda há pouquíssima referência bibliográfica sobre blogs – é que as editoras são como estatais russas, precisam de milhões de assinaturas, revisões, autorizações. Enquanto isso, nós seguimos postando diariamente, num ritmo nada fácil de uma estatal russa acompanhar, hehe.

    Aproveito para lançar o convite: estou reunindo boas histórias blogosféricas para uma reportagem que deve sair em breve. Aceito dicas e sugestões!

  2. Um colega aqui do Piauí que hoje mora no interior do Pará defendeu tese sobre blogs, estudando alguns exemplos, como a versão antiga do meu Avante! Quem tiver interesse no trabalho, posso arranjar o contato.

  3. Eu tinha uma idéia mais ou menos assim, lembra? Só que meu livro não era com entrevistas, mas sim com PERFIS. O meu objetivo era identificar a “nova” geração de talentos da literatura que estavam surgindo a partir dos blogs.
    Cheguei até a marcar umas entrevistas, que não vingaram. Arquivei a idéia.

    Vc até me emprestou um livro português para eu dar uma olhada – Eu li tudo, mas o livro é péssimo.
    O autor mandou um formulário com as mesmas perguntas para os blogueiros amigos dele, recebeu as respostas, e publicou tudo sem editar. Ficou uma merda!

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