Quantos títulos brasileiros tem o Flamengo, parte 2

Vamos continuar a discutir quem são os verdadeiros campeões brasileiros? Claro que, se tomarmos apenas o caso de 1987, já temos muito pano pra manga (a ponto de dividirmos o debate em duas partes), mas é possível ir além. Existe diferença entre a Copa União e a Taça Alambrado em 2000, o maior campeonato do mundo (tinha 116 clubes!!!) sem o Gama, mas com Fluminense e Bahia no módulo principal? Se bem que o Vasco merece aquela taça só por ter estampado o logo do SBT na camisa…

Quer mais? E se eu disser que o primeiro pentacampeão brasileiro é o Santos? Sim, porque antes da oficialização do campeonato brasileiro, em 1971, disputava-se a Taça Brasil, torneio criado em 1959 reunindo todos os campeões estaduais para indicar o time brazuca na Libertadores. O time de Pelé faturou cinco títulos seguidos, entre 1961 e 1965. Em 1967, veio a taça Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, que durou até o ano do tri. Foi o último ano da Taça Brasil, e o Palmeiras venceu ambos – pois é, dois títulos nacionais no mesmo ano. Os dois podem ser considerados, perfeitamente, campeonatos nacionais – como a Copa União de 1987 e a Copa João Havelange, em 2000. Assim, Santos (61/62/63/64/65/68/02/04) e Palmeiras (60/67/67/69/72/73/93/94) são os maiores campeões do nosso futebol. Além disso, teríamos outros bicampeões: Bahia (59/88), Cruzeiro (66/03), Fluminense (70/84) e Botafogo (68/95).

Se bem que, lançando mão de outra polêmica – o fator Márcio Rezende de Freitas – , o legítimo campeão brasileiro de 1995 é o Santos (nove títulos, hein?). Pelo mesmo motivo, o Internacional é tetra (76/77/79/05).

Mas enfim, são assuntos para outra discussão. Voltando ao assunto Flamengo x Sport: para que cada um possa reforçar (ou mudar) sua opinião sobre o título de 87, convidei quatro amigos para escrever sobre o tema. Na parte 1, você viu os argumentos de dois torcedores pró-Fla. Agora, na parte 2, você vai ler dois comentários pró-Sport.

No fim das contas, talvez você queira compartilhar da opinião de Luiz Fernando Bindi: por que não dividir o título de 1987 entre Sport e Flamengo e partir para outra polêmica?

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Marcos VP, agora também no Nossa Via:

Contra fatos não há argumentos. Por exemplo, alguém contesta que o São Paulo Futebol Clube conquistou, em campo e segundo os regulamentos vigentes, cinco títulos de campeão brasileiro? E o Palmeiras quatro? e o Internacional de Porto Alegre, três? E por que há tanta contestação sobre um dos supostos cinco títulos rubro-negros? é simples. É porque há um entrave jurídico nele. E o Flamengo sabe disso. Tanto sabe que antes mesmo que o São Paulo fosse declarado campeão, os rubro-negros da Gávea já estavam em pânico. Não se falava no embuste do penta porque até então, ninguém tivera cinco títulos reais para contestar essa enganação. Agora, o São Paulo tem. E está coberto de razão ao reivindicar para si, de forma definitiva, a taça das bolinhas.

O fato é que o Flamengo, do capo Márcio Braga, sempre se achou acima de tudo e de todos. Dessa forma, conseguiu, diante da pusilanimidade dos dirigentes da época, atropelar o regulamento da Copa União de 1987 e declarar-se vencedor sem disputar a última partida, contra o Sport Clube do Recife. O Flamengo tinha time para vencer o Sport? sem dúvida. O maior ídolo do time pernambucano, à época, era o boquirroto e descompensado técnico Emerson Leão, que ao final, ainda ganhou o direito de afirmar que o Flamengo teve medo de disputar a final contra o Sport. Então, eu me pergunto: o que era mais um jogo para aquele timaço do Flamengo? Eu imagino que jogadores como Zico e Andrade, dignos que eram, jamais se recusariam a disputar a partida, cumprir o regulamento e levar com honra a taça pra casa. Mas não.

Só que a sabedoria popular diz que mentira tem perna curta. E não a tôa, essa mentira persegue o clube desde então, feito um fantasma. Não fosse assim, essa turma não apregoava de vez em quando que o Vasco da Gama, tetracampeão brasileiro, também não tem direito a esse epíteto, já que em 2000, o campeonato brasileiro não ocorreu, sendo disputada a copa João Havelange. É patético. Em 1987, aconteceu exatamente a mesma coisa com a Copa União. Se nenhum desses torneios valesse como campeonato brasileiro, o Flamengo seria tetra e o Vasco tri. Apesar disso, o Vasco venceu a copa João Havelange em campo, segundo o regulamento, até o fim, ao contrário do que fez o rubro-negro que, em um dos momentos de maior arrogância de sua história, não quis “se misturar”. Preferiu colocar em sua sala de troféus uma réplica da taça e espalhar a mentira de que era campeão.

Quem faz isso não merece a glória do título. O Flamengo apelou. Hoje ele está perdendo, finalmente.

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Evilasio Tenorio, mestre-blogueiro e torcedor do Sport:

Pois é, meu irmão. O Brasil, país tão desorganizado como é, não foge à regra no que diz respeito à administração do seu futebol. Em 1987, após uma briga de ‘caciques’, a CBF deixou o Clube dos 13 organizar uma liga paralela com seus integrantes, enquanto ela organizaria outra com o ‘resto’ dos times do país.

A regra que foi aceita por todos antes do início do campeonato era de que os campeões dos módulos deveriam se enfrentar para decidir qual seria o campeão (vale salientar que não houve imposição ou posterior alteração da regra pela CBF, já que leis da FIFA proíbem alterações de regras de campeonatos quando eles estão em andamento, e tais normas são anteriores a 1987). O Flamengo, apoiado pela Rede Globo, que comprou o módulo do C13, mais o próprio C13, foi declarado campeão brasileiro sem disputar com o Sport, campeão do módulo da CBF, a final que deveria ocorrer.

O Flamengo, a partir de uma reunião com os dirigentes do C13 (coincidentemente, o presidente do C13 na época era um ex-presidente são-paulino), decidiu que não iria disputar tais finais, já que o módulo que disputara continha os principais times de futebol do país. A CBF não aceitou e marcou dois jogos, um no Maracanã e outro na Ilha do Retiro. O time do Sport foi para ambos os jogos e entrou em campo, mas o Flamengo não apareceu, perdendo por W.O.

A partir daqui houve um processo na justiça esportiva onde o Sport e o Guarani (vice-campeão) ganharam, e o Flamengo foi pra Justiça Comum. Perdeu novamente, onde foi dada uma autorização para a CBF fazer uma nova final, para que Sport e Guarani disputaram o título. O Sport empatou o primeiro e ganhou o segundo jogo, isso já em 1988 (depois das brigas judiciais), e foi homologado campeão pela CBF e pela própria FIFA, tendo sido o representante brasileiro na Libertadores daquele ano. Inclusive o troféu está na sede do Sport, na Ilha do Retiro.

Questionar o título do Sport é questionar a existência da própria CBF, órgão máximo do futebol brasileiro. Este é a única instituição capaz de organizar e intitular campeão brasileiro de futebol uma equipe, e não uma rede de televisão.

Eu, como torcedor fanático do Sport, não abro mão deste título. Acredito que talvez o Sport nem fosse campeão mesmo se viesse a enfrentar o Flamengo de Zico e cia. (um verdadeiro timaço), mas a verdade é que ‘regra é regra’, e deve ser respeitada sob todas as hipóteses. Não houve imposição de novas normas, apenas deveria ter sido cumprido o rito acertado anteriormente. Tanto que o Flamengo perdeu em todas as instâncias cabíveis, e na sede do glorioso da Ilha tem o troféu de campeão brasileiro de 87. E esse ninguém nos tira (embora a Globo tente dizer que não).

E a CBF, carioca por natureza, não tiraria o título de campeão brasileiro do time do Rio de Janeiro com maior torcida em todo o país pra dar a um time do Nordeste (terra longínqua e ‘atrasada’, segundo muitos sulistas), cuja expressão nacional não se assemelha ao rubro-negro carioca, se não estivesse respaldada por lei.

Mas este é o tipo de discussão que nunca vai acabar. Afinal, leis no Brasil servem para enfeite nos livros jurídicos, poucos são os que respeitam. Não dá pra esperar muito mesmo, num país com o histórico como este nosso.

No mais, Salve o Tricolor Paulista, único penta-campeão brasileiro.

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Convém lembrar que esta é a parte 2 do debate. Não deixe de ler ainda a parte 1.

(Postado em 12/11/2007)

Comentários em blogs: ainda existem? (20)

  1. O Flamengo é um fanfarrão. Ele é o Curíntia (sim, eu sempre escrevo Curíntia) do Rio de Janeiro. Ganhou essa copinha aí que nem oficial era, e se acha penta campeão.

    Que nem o Curíntia: ganhou aquela copinha Toyota lá e diz que é campeão mundial. Pra conquistar o mundo, tem que conquistar a América primeiro, e isso eles não fizeram.

    E parabéns ao Tricolor Paulista, que apesar de ser o “vice-penta” (como diz os flamenguistas), teve garra de chegar à final dez vezes e ganhar cinco delas. Quem mais fez esta proeza?

    PS: sim, eu sou são-paulina. :-)

  2. Sigo suas crônicas sobre os pentas fascinada. Sempre pensei que bi-campeão fosse um time com dois campeonatos consecutivos, Botafogo carioca 61-62 e 67-68. O Brasil foi bi na Jules Rimet, 58-62 mas o tri foi apelação Médici. Sempre me disseram isso.

    E te digo, sem saber qual é o teu time, que para mim o que importa e tem graça é o campeonato carioca e o campeonato estadual. O nacional é Botafogo contra tantos times de que nunca ouvi falar… Com todo o respeito, André Marmota, que tuas crônicas de futebol são muito boas.

  3. “A CBF passou a apoiar o planejamento do campeonato pelo Clube dos 13, desde que Goiás, Santa Cruz e Coritiba fossem incluídos no torneio.”

    Reparem que no texto do Raphael, há indícios claros da influência da CBF na elaboração da Copa União, não havendo assim, a necessidade de realização de um outro módulo.

    Por causa da pressão dos outros clubes, a entidade-mor do futebol brasileiro resolveu meter o dedo na história.

    O Flamengo não disputou o último jogo porque havia vencido a “Série A” do futebol brasileiro. Não tinha de provar nada a ninguém.

    E é sempre bom deixar claro que o rubro-negro tinha o apoio de Vasco, São Paulo, Palmeiras….

  4. O fim do imbróglio[…]Flamenguista que se preza deve andar sempre com uma garrafinha de água na bolsa para molhar a garganta. É só sentar em uma mesa com amigos, parar em uma rodinha de fanáticos por futebol e o tão questionado título[…]

  5. 1987 foi uma vergonha para o futebol brasileiro. Depois de muito ler sobre tal assunto, considero o Flamengo campeão nacional daquele ano.

    Mas você tem razão em seu argumento: o primeiro penta, de fato, é o Santos.

  6. Amigo, concordo que o Santos deveria ser declarado octa campeão. É um absurdo pensar que o campeonato brasileiro só começou em 1971 enquanto competições nacionais ao redor do globo são disputadas desde o início do século passado.
    O São Paulo é penta, não se discute.
    O Flamengo é penta, também não se discute. Assim como todos os títulos anteriores a 71 deveriam ser reconhecidos como nacionais.
    Abraço.

  7. O Campeão Brasileiro de 87Esse texto eu enviei pro mestre Marmota, que publicou em seu blog numa série de posts relativos à tal polêmica de 1987, sobre quem é o campeão brasileiro de fato e de direito. Todos sabem que o Sport é tido como o campeão oficial, embora parte d…

  8. Na minha opinião, que o Santos pode até ser epta ou octa campeão no Brasil, mas eu acho que em outros campeonatos, tipo copa união ou Copa Brasil, não tinha tantos times representados como eh o Campaonato Brasileiro, com 40 times de todos os estados brasileiros devidamente classificados. Antigamente nesses campeonatos (acho eu) não havia tanta representação do territorio nacional quanto o Campeonato Brasileiro (1971) e por isso acho sem duvida nenhuma que o meu Glorioso São Paulo é o Legítimo PENTA CAMPEÃO DO CAMPEONATO BRASILEIRO (Primeiro e Único) até então,

    Saudações Tricolores 5-3-3

  9. É ridícula essa discussão. O que vale são as regras que foram estabelecidas antes da competição e aceitas por todos. Sendo assim, o Sport é o campeão brasileiro de 1987 e para o Flamengo sobra a vergonha de não ter entrado em campo, por duas vezes, e perdido por W.O. E só.
    Por outro lado, cumpre lembra que os outros títulos do flamengo, desde sua ascensão que coincidiu com a ascensão da Globo no Regime Militar, iniciados em 1980 com aquela vergonhosa partida da final em que roubaram, o termo é esse mesmo, roubaram o título do Atlético Mineiro, até os títulos, também “garfados” do Santos e do Grêmio em 1982 e 1983. Só se salva o de 1992. É isso mesmo, é que o Brasil é a terra do Juiz bandido, ao menos os de futebol. Quer exemplos? Nem precisa né! Todos sabem.
    De resto, é muita ladroagem em um País, e em especial no Estado do Rio de Janeiro, que é dominado pela máfia do jogo do bicho e outras contravenções penais, arregimentadas pela Globo que gostaria que sempre fosse campeão Carioca e Brasileiro o Flamengo e nas Escolas de Samba a Beija-Flor, o resto, para eles, não existe. E dá-lhe Márcio Braga.

  10. Putz… tá td invertido no post do Evilasio Tenório…

    A regra do cruzamento foi imposta pela CBF na 5ª rodada da Copa UNião 87, que Euvirus Miranda assinou a revelia dos os clubes do “C13”. Estes, posteriormente e de comum acordo, decidiram que o vencedor não faria o cruzamento, qualquer q fosse ele. Se fosse o SP, o Vasco, o Cruzeiro… qq um deles tb não entraria em campo para o cruzamento. O Flamengo apenas cumpriu o q o próprio “C13” havia determinado…

  11. Siim, o Flamengo pode não ter ganhado grande coisa neste ano, mas TROFÉU é TROFÉU, e sempre é beem vindo meeus amoores ;D

  12. Só sei que assisti todos os títulos brasileiros do Mengão Hexa Campeão.Sou aqui do interior da Bahia,cidade turística chamada Lençóis,na bela e exuberante Chapada diamantina.Foi um a comemoração para lavar a alma,pois todos os flamenguistas estavam ansiosos por este momento ímpar e que provavelmente vamos engatar uma série de conquistas daqui em diante.

  13. Quantos já não importam, pois ele acaba de ganhar mais um. Mengooo!

    Que o Natal seja de alegria e paz e um 2010 cheio de conquistas e realizações! :)

  14. Quem quiser tirar uma conclusão honesta a respeito da questão, basta analisar os argumentos de cada lado. A ‘argumentação’ dos pró-Sport é pífia, na realidade nem se pode dizer que sejam argumentos de fato; são apenas ataques ressentidos às glórias flamengas, a confissão explícita da superioridade do onze de Zico e cia., a admissão da diferença de qualidade entre os módulos, e uma defesa patética do legalismo de uma entidade que, como cada vez mais fica evidente, é um poço sem fundo de corrupção e lama. Conclua quem quiser, mas com base em argumentos dignos do nome. Abçs,

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