Ouro de tolo

Acordo às cinco da manhã pensando nos aborrecimentos que me aguardam nas horas seguintes. No caminho, trânsito de duas horas pensando na mocinha que você está afim e não te dá bola. O dia é curto para pensar em tudo que se deve e receber algumas boas notícias, mas são longos o suficientes para se tornarem insuportáveis. Como se não bastasse, estou prestes a confirmar minha não-viagem ao Sul no final de ano, pela primeira vez em alguns anos.

É como diria o Dinho, do Mamonas Assassinas: se dá uma chuva de Xuxa, no meu colo cai Pelé. Aliás, feliz eu era no tempo em que eles e seus contemporâneos DJ Bobo, Andru Donalds, Mike & the mechanics, Haddaway, entre outras bombas, entupiam seus sucessos nas FMs. Tudo isso acabou.

Os tempos são outros, mas outros versos permanecem vivos eternamente. Viva Raul e seu Ouro de Tolo, a canção que ilustra o meu período pós-férias européias.

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

E devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque
Porque consegui comprar um Corcel 73

E devia estar alegre, satisfeito
Por morar em Ipanema depois de ter passado fome
Por dois anos, aqui, na cidade maravilhosa

Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente por ter conseguido
Tudo o que eu quis, mas confesso,
Abestalhado, que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto, e daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido
Um domingo pra ir com a família no jardim zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah, mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho
Se sentir um grandissíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita que é um doutor
Padre ou policial que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social

Eu que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Tenha um final de semana repleto de boas notícias.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (8)

  1. Difícil mesmo é estar satisfeito com nós mesmos, com o que nos cerca. Talvez seja essa inquietude constante – com a preocupação de não nos tornarmos “malas” – o segredo pra se alcançar a tal felicidade. Busquemos sempre, oras! Abraço e bom fim de semana.

  2. Podia ser pior. Seguindo com Raul, a trilha sonora poderia ser a de Medo da Chuva: “como as pedras imóveis na praia eu fico ao seu lado / sem saber dos amores que a vida me trouze e eu não pude viver”.
    Abs!

  3. Seguindo com Raul, prefiro cantar:

    Pense num dia com gosto de infância
    Sem muita importância procure lembrar
    Você por certo vai sentir saudades
    Fechando os olhos verá
    Doces meninas dançando ao luar
    Outras canções de amor
    Mil violinos e um cheiro de flores no ar

    Você ainda pode sonhar
    Você ainda pode sonhar
    Você ainda pode sonhar

    Feche seus olhos bem profundamente
    Não queira acordar procure dormir
    Faça uma força você não está velho demais
    Prá voltar a sorrir
    Passe voando por cima do mar
    Para a ilha rever
    Vá saltitando sorrindo a todos que vê

    Você ainda pode sonhar
    Você ainda pode sonhar
    Você ainda pode sonhar

  4. André,

    Concordo que os dias podem não estar sendo muito bons. Mas você está se entregando muito fácil… Se você não vai ao Sul, o Sul vem até você: tem fandango dos Monarcas em 04 de dezembro. Vamos?? Se quiser, me escreve: judfp@uol.com.br. Abração e bom fim de semana, Ju

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