Os riscos da exposição excessiva na web

Salvador (BA) – Quem entra aqui pela primeira vez, além de encontrar uma infindável quantidade de texto, dá de cara com uma espécie de “pseudônimo”. Apelido antigo, mas que funciona bem para criar uma dúvida no visitante. Obviamente, se o sujeito não for nenhum preguiçoso e conhecer minimamente a Internet, consegue saber meu nome, o que eu faço, onde eu trabalho, meu time do coração, a cidade no sul do Brasil de onde vieram meus familiares… Tudo em alguns cliques, comentários, e-mails e afins.

Pessoalmente, nunca me preocupei com isso. Acho inclusive que todo mundo devia tentar montar um blog, mesmo que seja para constatar que não dá. Vou mais longe: até onde sei, nunca publiquei nada que pudesse comprometer minha família, meu emprego… Minha vida, acredito. E sempre tive esse cuidado.

Ou ao menos pensei que tivesse: em janeiro de 2005, um dos textos do falecido “calhau” de férias (série curtinha onde eu reproduzia textos descompromissados de amigos ou sob a licença Creative Commons) era polêmico até demais. Virou frisson no Google: atraiu centenas de acéfalos, que infestaram os comentários com agressões – não apenas a mim, mas principalmente à gramática. Os idiotas sequer entenderam que o texto era de outra pessoa.

“Eu sabia que estava mexendo num vespeiro, só lamento que tenhas tomado alguns xingamentos em péssimo português de tabela…”, comentou o autor do texto em questão, ao saber de toda a repercussão. Como eu tenho mais o que fazer, tirei a polêmica do ar e escrevi aquele textinho sobre o planeta Foston.

“Gente besta, pequena e sem o menor respeito. Eles podem não concordar, mas não tem o direito de falarem assim. Eu sempre esqueço quantas pessoas ignorantes e sem educação existem nesse mundo”, indignou-se uma amiga. Realmente, o povo acha que qualquer campo de comentário é palco pra todo tipo de coisa. Na verdade, é como se estivessem atirando pedras na sua vidraça.

“Fico impressionado com isso”, confessou outro amigo, contando um caso recente ocorrido num blog de uma personalidade: “Publicou um texto, alguém leu e adorou. Botou um comentário no blog, elogiando e pedindo para usar o texto em sala de aula. Mas um babaca foi lá e escreveu: pode usar, desde que pague direitos autorais. E assinou como o dono do blog! O professor ficou magoado e os internautas começaram a xingar à toa…”.

Eu acredito que a maioria dos cidadãos plugados à Internet ainda não tem cultura (entenda “educação”) suficiente para aproveitá-la como deveria. Mesmo quem supostamente deveria ter pode se confundir, por exemplo, diante de conteúdo disponível em licença aberta – a reprodução mesmo citando a fonte se transforma em “apropriação” nos olhos de quem ainda não entendeu o que está acontecendo – não confundir com plágio, tema que aliás merece horas de conversa.

Por hora, talvez o melhor a fazer talvez seja simplesmente não questionar ninguém. Tá todo mundo certo, e ponto final. O tempo é sábio, e daqui uma ou duas gerações, todos esses cabeças-duras vão dar a vez para uma geração bem mais antenada e disposta a conviver com os outros de maneira pacífica e com um verdadeiro bom senso.

Enquanto isso não acontece, não custa nada conhecer as sugestões publicadas no Caderno Link: evite exposição exagerada. Isso não quer dizer anonimato total, mas sim evitar rastros, disponibilizar dados que podem ser usados por pessoas mal intencionadas. Como os cururus da polêmica acima: não sei se foi a melhor saída, mas tirar o texto do ar arrefece ânimos, não piora a brincadeira e mantém por aqui apenas os poucos visitantes que realmente interessam.

Histórias assim resumem o “lado negro” dos blogs. Provavelmente quem já levou pedradas parou pra pensar se valia mesmo a pena continuar. Minha resposta é simples: o negócio é absorver a lição e aprender a conviver com todas as formas de vida inteligente (ou que se julgam assim).

E mais: A matéria sobre privacidade em blogs é uma das inúmeras retrancas sobre o tema, que rechearam o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo naquela ocasião. Apesar dos pesares, a manchete sugere: liberte o autor que existe em você!

Mas tem mais: Aquela história de “perder emprego” por causa do blog pode ficar mais palpável: relatório de uma empresa de segurança conclui que blog é uma ameaça para empresas: “podem comprometer a produtividade dos funcionários, trazer danos à reputação da companhia e divulgar na web informações confidenciais da organização”. Eu, hein…

(Postado em 09/03/2005)

André Marmota fala, lê e escreve razoavelmente em português castiço, engrish macarrônico e portunhol com legendas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (11)

  1. Quando tentei expressar algum tipo de reflexão política, levei algumas pedradas que chegaram a quebrar as vidraças de meu blog. Acho que por conta dessas poucas e boas cacetadas eu desisti de publicar idéias um pouco mais concatenadas. Sei lá, talvez eu seja parcial, ou talvez meu leitor seja parcial… mas o fato é que eu decidi não esquentar a cabeça com este fato. O povo quer diversão, quer alienação, inclusive lendo blogs. E não serei eu quem irá tentar mudar esta situação, principalmente porque eu tenho muita coisa pra me preocupar além de um pobre e inocente blog.

  2. Isso acontece com todos. No meu já apareceu stalker, xingamento, tudo. O que acontece é que o blog é meu e, enquanto esse for um país livre e eu não estiver infringindo nenhuma lei, publico o que eu quiser, nem que tenha que tirar os comentários. :) O negócio é que todos aqui ainda são muito filhos da ditadura: Tu pode falar o que tu quiser, desde que, não discordes mim. :P

    :) Mas nem te estressa que isso faz parte.

  3. Essa história de blog ser uma “ameaça” para as empresas me deixa indignado.
    Se um blogueiro escreve algo do tipo: “Porra, esse meu emprego é uma merda mesmo! Vocês não têm idéia do que eles inventam para engabelar os clientes”, está na cara que a empresa tem culpa no cartório.

  4. Antônio, gostei de tuas dicas. É muito bom ver um marceneiro gostar tanto de escrever. Só não gostei muito desse teu apelido de Tatu, mas ao menos vamos ver o nosso time comum, o Cianorte, ser mais citado. Abraço.

  5. Bom, blog NÃO é local democrático, é propriedade privada. Eu sempre me reservei o direito de deletar comentários que não gosto – seja por quais motivos que me der na telha – e sempre me reservei o direito de espinafrar quem se atrever a postar cretinices na caixa de comentário do meu chá. É, assim mesmo, bem ditadura-do-dono-do-blog. Nunca tive grandes problemas. O maior problema que eu já tive não aconteceu no meu blog, mas no blog de um amigo: um idiota andou postando cretinices assinando com meu nome. Mas aí, deletados os comentários, fim do problema.

  6. Essa questão dos bróguis (escrito errado de propósito, antes que questionem) é um tanto delicada. Se a pessoa que escreve dá uma de antipático, e apaga todo e qualquer comentário que vai contra o que ele escreveu, passa uma imagem (negativa) de autoritarismo. Se deixa a coisa correr solta, o brógui vira uma bagunça. E agora?

    Particularmente, acho que o ideal é, com o passar do tempo, e os posts publicados, ir moldando um público-alvo. Sempre haverá os chupetas que só postam pra receberem visitas (cumplicidade, coisa idiota), ou então que só querem avacalhar. Com esses, não pode dar moleza, não: apaga o comentário e tchau!

    Questão delicada essa dos bróguis…

  7. Ah, eu já vi bastante gente fazendo mau uso da internet…
    Graças a Deus desde o início eu compreendi que a web é um espaço público…

    Outra coisa que acho engraçado são os bisbilhoteiros de orkuts. Como são bisbilhoteiros, se tudo que está ali é pra ser visto mesmo?!? Não entendo…

  8. Eu tive que matar um blog por medo de exposição excessiva. Estava desempregada e participando de alguns processos seletivos. Senti medo que fuçassem meu orkut e saí de todas as comunidades de bebuns que participava (vai que pensavam que eu era alcoolatra???). Enfim, expor-se tem seu preço e eu matei o ”arte de viver” assim… num clique… nunca mais lerei o que escrevi (não sei se ficou alguma coisa no google em cache, nunca pesquisei). Pensei em criar um apelido, mas não era eu, simplesmente não consigo me desvincular da minha vida e dos meus sentimentos. Conluindo: meu blog é a minha mais nova vida, meu psicólogo, meu analista. E não consigo escrever em outro lugar que não seja a web. Sou viciada em textos bonitinhos e bem digitados. E nesse novo blog, apenas os amigos tem conhecimento… não existe meu sobrenome, nem tenho por objetivo me expor demais. São apenas amenidades… Amenidades que me fazem muito bem…. que me fazem mais feliz, mais humana, mais reflexiva. Grande abraço e desconsidere os comentários desses idiotas… não vale a pena…

  9. Por falar em apelido, Marmota, vê aí a sua sombra. Falta muito pra acabar este frio de inverno? :P

    Olha, é realmente ruim quando vc recebe essas críticas irracionais. Mas eu não sou o mais indicado pra falar sobre isso, porque já andei batendo de frente com certos blogstars por aí, pelo simples prazer de mexer com os brios deles, hehehe! É tão legal!

    Abraço, André!

  10. Até agora, nesse meu tímido um ano de blog, não tive problema algum. Sempre procurei ter cuidado, mas ponho meu nome lá, porque assumo o que faço, o que falo e o que escrevo. Não comprometo ninguém, a não ser eu mesma. Não minto. Não uso imagem sem autorização. Um pouco porque minha profissão me educou assim. Por outro lado, já encontrei textos meus citados em outros blogs que eu nem sei de quem são. Se mantêm a fonte do texto, o link ou identificam meu nome como autora, sem estresse, porque, se eu publiquei meu texto na Internet, seria muita ingenuidade minha achar que eles ficariam restritos ao meu mundinho, correto? Você, que é mais escolado que eu, tem muito bom senso! ;-)

  11. Pois é… rsrs… O caso é quando vc está numa boa, não imaginando que psicóticos estão tentando achar mensagens subliminares nas coisas que vc escreve e faz um blog só pra denegrir a sua imagem… Complicado isso, né, guri??? =/

    Mas vou ler com calma cada um dos links desse post…

    Bjus…

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