Onde você estava na noite de 11 de março de 1999?

“Nunca havia acontecido isso”. A declaração de Jorge Samek, diretor de Itaipu, diz respeito ao fato dos 18 geradores da usina terem sido desligados completamente na noite deste dia 10 de novembro. Outra evolução nos últimos anos diz respeito ao complexo sistema elétrico, praticamente todo interligado – funciona assim: quando um gerador deixa de funcionar, a energia produzida por outras fontes é “redirecionada”, tentando cobrir as falhas. Ao menos na zona leste de São Paulo, a luz havia voltado duas horas depois, graças ao funcionamento ininterrupto de usinas como Henry Borden, em Cubatão.

O ineditismo acaba aí. A luz apagou às 22h13 desta terça, decretando debandada geral para quem estava fora de casa, somado a gritos histéricos e manifestações caóticas. Minutos depois, graças ao infalível AM, já era possível saber que o problema não era apenas do prédio, da rua, do bairro… Veio na minha lembrança a memória do dia 11 de março de 1999: “isso tem jeito de pane no sistema de transmissão a partir de Itaipu, como há dez anos”. Então o ministro das Minas e Energia anunciou “dez estados afetados”, lançando mão das “interpéries meteorológicas”. Meu revival tornou-se completo.

O texto a seguir, publicado em 10 de março de 2008, me ajudou a rever outros detalhes, em busca de comparações. Naquela ocasião, consegui usar o celular tranquilamente; nesta madrugada, foram apenas dois telefonemas entre inúmeros erros de conexão e longas ausências de serviço. Naquela noite, alguns semáforos a caminho de casa permaneciam no amarelo piscante; desta vez, predominava o breu. O impacto foi semelhante, mas fiquei com a impressão que os transtornos foram maiores desta vez. Seguem minhas lembranças não apenas pela evidente referência, mas também pelas últimas linhas: será que, quem devia lembrar daquele apagão de 1999, fez isso mesmo?

***

Avenida Paulista, 900. No quinto andar, as aulas prosseguiam normalmente na Faculdade Cásper Líbero. Em uma das salas, alunos do 4º JO D acompanhavam as imperdíveis aulas do professor Carlos Guardado. Em nosso antigo currículo, aquelas últimas aulas de quinta-feira correspondiam à disciplina ” videotexto e informática em jornalismo”. Convém lembrar que, em 99, a Internet já tinha pelo menos quatro anos, e ninguém lembrava (se é que sabiam) o que era “videotexto”.

Ainda estávamos no início do bimestre, com aulas muito interessantes e produtivas. Essa não era diferente: Guardado usou de todos os seus conhecimentos para explicar aos impacientes quartanistas como funciona o hardware de um computador. Passavam das dez da noite quando o assunto chegou à memória RAM – ainda me soa estranho imaginar as razões para um aluno de jornalismo precisar ouvir isso em sala de aula.

– Pessoal, essa memória tem esse nome por ser de acesso aleatório. Os dados não são armazenados nela, apenas enquanto estão sendo usados. Ou seja, é uma memória volátil. Se você estiver trabalhando em seu computador sem salvar os dados, e de repente faltar energia…

Eram 22h16 quando as luzes da sala apagaram. “Puxa vida, eu não dava nada pela aula do Guardado e vejam só o efeito bacana que ele conseguiu…”, pensei. Apenas as luzes de emergência do quinto andar continuaram acesas nos minutos seguintes. Em uma sala próxima, Lello Lopes, então no terceiro ano, tinha aula com Claudio Arantes, professor de política famoso por lembrar o nome de todos os seus alunos (se bem que ele sempre me chamou de César). Enquanto todas as salas estavam sendo esvaziadas, lá estava ele, em pé, diante da lousa.

– Gente, a aula ainda não acabou! Não vão embora! Ainda não terminei o tema da aula de hoje! Podemos continuar, mesmo no escuro!

Logo uma multidão de alunos tomou o saguão e a área dos elevadores. Mesmo sem orientação, todos desceram as escadas até o térreo alto, na saída para a Paulista pelo famoso escadão. Muitos gritos, assobios e piadinhas envolvendo o “fim do mundo” ecoavam pelo prédio. Muitos deles saídos da minha boca e na do meu amigo Marcus Tadeu.

O papo de “fim do mundo” era ingênuo. Até porque, naquele instante, o que se pensava era num problema elétrico no prédio da Gazeta, que seria consertado naquela madrugada para tudo voltar ao normal no dia seguinte. Mas a imagem da avenida era caótica: carros parados, pouca iluminação e muita gente perdida. A extensão da falta de luz era bem maior que os nossos olhos pudessem alcançar.

Decidi ficar sentado no escadão, observando aquele movimento anormal. Alguns amigos também sentaram, esperando por caronas que só viriam uma hora depois. Eram muitos na mesma situação: esperando, fazendo companhia, temendo assaltos ou simplesmente contemplando a multidão insana. Só por volta da meia-noite, quando liguei o rádio do carro, comecei a entender o que se passava.

Era um blecaute de grandes proporções. Foram dez estados e 60 milhões de pessoas atingidas nas regiões sul, sudeste e centro-oeste. Enquanto os âncoras das emissoras AM tentavam repercutir com bombeiros, defesa civil e outras autoridades, além de identificar as causas e o tamanho do problema, as ruas de São Paulo estavam vazias, mas com algumas luzes acesas apesar dos semáforos embandeirados. Muitos ainda estavam presos em estações do Metrô ou em elevadores. Ao chegar em casa, só o radinho de pilha fazia companhia para a família – a Globo precisou passar dois capítulos de Chiquinha Gonzaga no dia seguinte, pois estava fora do ar.

A situação só seria reestabelecida por volta das quatro e pouco da madrugada. Mas o problema levaria muito mais tempo. Nessa altura, o Governo Federal já tinha dado a causa: um raio na região de Bauru. O blecaute fez com que o Brasil convivesse com o eminente risco de “apagão”, fez com que FHC anunciasse medidas preventivas para a queda no consumo elétrico (claro que pagamos o pato, com as metas domésticas). Anos mais tarde, quando todos já haviam esquecido, as autoridades finalmente admitiram o que todo bauruense já sabia: se a causa foi um raio, ele não caiu em Bauru. Aliás, nem choveu ali naquela noite.

Faz tempo que ninguém ouve mais falar em “economizar energia”. Vez ou outra o Governo Federal é questionado novamente em relação ao aumento de demanda e a falta de investimentos tanto na geração de eletricidade quanto na manutenção do sistema. Já são nove anos desde o instante em que o país chacoalhou com o caos e, a última notícia do gênero foi um novo apagão em São Paulo. As ameaças estão prestes a voltar, pois quem devia lembrar daquela quinta-feira já esqueceu.

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. O único apagãode que me lembro, além dos da Light por causa de temporais nos anos 60, foi do terremoto em 1994, Northridge. Foram muitas horas.

    A eficência nos anos Clinton era impressionante. Em duas semanas a Santa Monica Freeway estava de pé.


  2. Em primeiro lugar, e só pra não perder o costume: vai ter memória boa assim lá nos quintos…
    Em segundo lugar, seu texto me transportou para aquela exótica noite casperiana num piscar de olhos.
    Aliás, até hoje tenho minhas dúvidas se Guardado não teria sido o mentor espiritual e videotextual daquele blecaute. Nunca me esquecerei daquele gesto do tipo “guilhotina descendo” que ele fez no ar, daquele jeito discreto que lhe era peculiar, um segundo antes do barulhão produzido pela queda de centenas de luzes e aparelhos de energia. Parecia o próprio maestro do Coisa-Ruim, verdadeiro Nostradamus do Agreste.

    Beijo,

  3. Oi, Marmota (ai, que chato te chamar assim…)

    Espero que não me confunda com aquela freqüentadora do teu blog que te passou uma cantada (lembra?), mas quero fazer aqui um deslumbrado elogio pelo teu espacinho virtual, um dos que mais tenho gostado (e olha que eu sou bem crítica, é difícil me agradar). Quanto a você, uma das poucas coisas que sei (ou pelo menos me parece) é que tem alguma humildade (o que nem sempre é qualidade, mas às vezes é ) e é franco (pelo menos até onde percebi naquela história da tal “cantadora”).
    Temos algo em comum (mas não se preocupe, não acredito em almas-gêmeas… rsrs…): algum parentesco com os psitaciformes. Às vezes sou bem tímida, mas quando desando a falar… pelamordedeus! Güente! E como catorrita juramentada, não posso deixar de te contar onde eu estava no famigerado 11 de setembro: no cursinho pré-vestibular, na aula de um professor muito gaiato, que contou da explosão, despertando gargalhadas nos inocentes alunos, que pensaram tratar-se de mais uma piada. Custei a cair na real, precisei voltar p/ casa e ver as imagens na TV. (Confesso aqui um certo lado negro meu: apesar de me solidarizar com as vítimas, fiquei a pensar sobre Bin Laden: “Esse é o cara”!

    Beijos (com todo… pero no mucho… respeito…)

    Liane

  4. Bom, eu tinha 15 anos e pra ser bem franca não lembro onde estava.
    Mas a pergunta que não quer calar é: será que a Liane mais acima leu o texto?

  5. Estava naquele mesmo quinto andar, mas na sala do 1º JO C. Aula do Abominável Homem ‘Neves’. Me lembro de sair da sla junto com os demais e ainda ouvir aquele sotaque lusitano ao fundo: ‘Esperem que ainda vou fazer a chamada’. Por um minuto me preocupei com as condições físicas daquele matusalético senhor descendo as Saídas de Emergência sem Saída da Fundação e pensei em resgatá-lo, mas aquela frase decretava que sua sanidade metal já tinha apagado junto com as luzes. Achei mehlor deixá-lo para trás, era menos perigoso para mim.

  6. bom nesse dia eu estava nascendo mais nessa hora eu tinha acabado de sair da barriga da minha mae

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