O primeiro beijo que eu não dei

(Antes de começar, preciso pedir desculpas sinceras ao Marcos Vasconcelos e ao Ian Black. O primeiro me convidou para continuar a corrente criada pelo segundo. Mas eu tive que deturpar um pouco a idéia original.)

No começo do Século XX, a cidade de Pelotas crescia num ritmo frenético, os prósperos fazendeiros da época acumulavam riquezas. Assim, eles possuiam recursos suficientes para mandar seus filhos para a Europa, principalmente na França, onde poderiam estudar e retornar ao Brasil preparados para administrar os negócios. O fato é que os jovens voltavam de lá com outra aparência: um ar nobre e garboso, completamente diferente dos modos típicos da grossa gauchada.

Ou seja, uma viadagem.

Desde aquela época, a “lenda” segue inabalável, inclusive com brincadeiras como a clássica placa “venham comer noz em Pelotas” na entrada da cidade, um trocadalho do carilho envolvendo o tradicional fruto seco natalino a uma conotação que dispensa maiores explicações. Evidentemente, essa placa não existe. Posso garantir.

Mais do que uma fama sem graça, Pelotas representou para mim, durante muito tempo, uma espécie de refúgio. A cidade onde os meus pais nasceram virou uma espécie de tradição anual para a minha família. O sagrado Natal e o não menos sagrado reveillon num lugar onde apelava para resolver todos os problemas do meu dia-a-dia.

Entre eles, meus quase-relacionamentos – e isso nada tem a ver com a influência de Pelotas na minha vida. Eu sempre fui muito ruim de paquera. Nunca me aproximava das meninas que me interessava. Timidez, falta de coragem, sei lá. E quando achava que gostava de alguém, guardava isso para mim. Dificilmente externava isso, e quando isso acontecia, era sempre desastroso. Não dava sequer para imaginar como seria segurar a mão dela, abraçá-la, beijá-la.

Isso talvez seja suficiente para confessar uma coisa inadmissível nos dias de hoje: meu primeiro beijo foi aos dezoito anos.

***

Um ano antes desse momento especial na vida da maior parte dos seres humanos, em dezembro de 1994, a tradicional “temporada” em Pelotas seria perfeita para acumular muita energia. Em 95, iria buscar um estágio na área de eletrotécnica e assegurar o meu diploma. No dia 27 de dezembro, já instalado no cantinho da Cohab Fragata, recebi o tradicional convite da Verônica:

– Tu sabes que hoje tem festa, né?

Claro que sabia. O aniversário da Verônica fazia parte do calendário anual de eventos da minha vida desde 1990, quando aquela turma de vizinhos chegou à Cohab, vinda de Canguçu. Fui ao centro da cidade comprar um presente e, já no fim da noite, estava ao lado dos meus primos na festa. Cumprimentei a dona Cileide com o meu gesto habitual, como se esmagasse um copo descartável – ela detestava jogar fora os copos plásticos nas festas das filhas. Foi só entregar o presente da Verônica para ter a primeira surpresa.

– Oi Dé, quero que tu conheça o Rodrigo, o meu namorado!

Era um rapaz estranho, roupa preta e gel no cabelo. Estendi minha mão, disse “muito prazer”. O rapaz olhou para a minha cara, pegou minha mão de leve e disse:

– O prazer é todo meeeeu…

Por um instante esqueci aquele papo dos rapazes indo à França no começo do século passado e tive que admitir: esse aí deve ser um nativo pelotense! (Ok, piada fraca).

Começou a chegar mais gente para a festa. Meus primos, primas, o pessoal da rua. Conversava animadamente com alguns deles quando fui subitamente interrompido.

– Oi Dé! Lembra de mim?

Dei um sorriso enorme diante da Rosa, irmã mais velha do Eduardo, da casa 62. Claro que lembrava dela. Não tinha como esquecê-la. Acho que eu não a encontrava há uns dois anos. Lembro que a última vez tinha sido na Páscoa de 1992, meses antes do meu avô falecer. Naquele ano, os garotos da Cohab inventaram um “clubinho”, coisa de criança tirada da cabeça de três grandes amigas: Verônica, Rosa e Gláucia. Essa última brigou feio com a Verônica meses depois. O clubinho acabou, e nunca mais tive notícias dela.

– Incrível, Dé, mas você não mudou nada! Continua o mesmo engraçadinho de sempre!

– Puxa, obrigado! Bom, eu já não posso dizer o mesmo… Você está ainda mais linda!

Era uma declaração idiota, sem nenhuma pretensão. Mas eu confesso que não sou nada discreto e, da mesma forma, já desempenhei com maestria o papel de idiota por várias vezes. De repente, aparece o tal Rodrigo.

– Quer comer do salsichão?

Em tempo, a tradicional linguiça do churrasco recebe essa nomenclatura no sul do país. Mas mesmo conhecendo a terminologia, não aceitei.

***

Em 20 de janeiro de 1995 eu já estava em São Paulo, pronto para cumprir uma série de objetivos. Passei alguns dias gastando sola de sapato – e molhando-os nas enchentes que normalmente tomam conta de Sampa em janeiro. Fiz dezenas de entrevistas de estágio, sem nenhum sucesso. Mas não demorou para que surgisse um remédio para o desânimo: uma carta (era assim que as pessoas conversavam sem e-mail, lembra disso?). Chegou exatamente no dia 14 de fevereiro.

Era da Rosa! Começava pedindo desculpas pelo fato de ter “roubado” o meu endereço com uma das minhas primas. Seguia cheia de elogios e frases inspirando saudades… Em menos de 24 horas, a resposta já estava a caminho do Rio Grande do Sul.

Finalmente em maio, pouco antes do meu aniversário, consegui minha tão sonhada vaga de estágio. Nesse meio tempo, já havia recebido – e enviado – umas seis ou sete cartas para a Rosa. Em cada uma delas, inventava alguma coisa: desde o tamanho do envelope até o conteúdo: fotos, cópias de revistas, poesias… Sempre com uma expectativa cada vez maior pela carta seguinte.

No dia 14 de julho, aniversário dela, resolvi dar um telefonema. Fiquei horas no gancho, ignorando o preço da ligação interurbana (era essa a preocupação antes do msn ou o skype). Foi só desligar o telefone para tomar uma decisão louca: aproveitar o final das férias de inverno e viajar por uma semana.

E cumpri a minha louca promessa: cheguei em Pelotas no dia 23 de julho, mesmo dia que o Brasil perdia a Copa América para o Uruguai nos pênaltis há poucos quilômetros dali, em Montevidéu. Assim como a do Túlio, minha estada no sul virou uma bola fora. Valeu apenas para rever o pessoal da Cohab e passar frio.

A minha única tentativa de ficar com a Rosa foi no Bailão Estrela Gaúcha, na Duque de Caxias. Fomos eu, a Verônica e uma prima minha. Dancei muito, nos dois sentidos: a Rosa acabou nos braços de outro rapaz. Naquela noite, sabia que nunca mais colocaria os pés naquele lugar. Mais do que isso, não havia clima para qualquer história com aquela louca irmã do Eduardo.

***

Acho que já disse isso antes, mas não custa repetir: qualquer assunto da minha vida relacionado ao Rio Grande do Sul não pode ser contado em horas ou dias. São meses, anos. E em 1995, esses assuntos eram temperados com dezenas de cartas. Em fevereiro, elas vinham apenas com o meu nome no campo “destinatário” dos envelopes. Dias depois, era “para o amigo”. No final de junho, recebi um “para o meu grande amigo”. E para a minha surpresa, a primeira carta do segundo semestre apareceu com um “para o gato”. Em setembro, chegou um “para o gostosão”. Sem falar no conteúdo, cada vez mais apaixonado. Ora, se eu havia voltado das férias confuso, passei o segundo semestre ainda mais.

Finalmente, outro final do ano. Eu já era um técnico diplomado, meu estágio havia terminado, já tinha rodado no vestibular da Fuvest e preocupado com as outras provas em janeiro. Mas nada disso abalaria a minha estada de verão em Pelotas. E desta vez, nem esperei os meus pais: fui com o meu irmão já no dia 16 de dezembro – acho que nunca mais terei a mesma chance de antecipar as minhas férias dessa forma.

Fiquei alguns dias em Porto Alegre e, na tarde do dia 21, já estava na Cohab Fragata. Em uma única tarde, deu tempo de reencontrar toda a turma da rua, além da ansiosa dupla Verônica e Rosa, que não desgrudaram de mim um minuto sequer. Estavam loucas para me contar a novidade:

– Esse ano tu não vais no meu aniversário, viu? – comentou Verônica, com um ar enigmático.

– Ué, não? Claro que vou! É sagrado: todo ano tem festa!

– Ah, guri… Eu não disse que não vai ter festa… Só que vou comemorar o meu… Noivado!

Noivado?!? Vejam só, a Verônica mandou o Rodrigo procurar o salsichão da vida dele meses depois. Então encontrou Periquito, um jovem motorista de táxi. Paixão à primeira vista: começaram a namorar em setembro e marcaram uma grande festa de noivado para o histórico dia 27 de dezembro.

– Eu e a Rosa estamos preparando a decoração da festa. Amanhã vamos cuidar das lembrancinhas. Você ajuda a gente? – Óbvio que eu não recusei.

***

Chovia muito em Pelotas no dia seguinte. Passei a tarde toda na casa da Verônica confeccionando lembrancinhas e jogando conversa fora. Lembrei de todos os acontecimentos do passado, desde o dia em que a conheci, naquela distante festa de 1990. Em cinco anos, a mesma festa seria um pré-casório. Incrível.

Num momento qualquer daquela tarde, a Verônica deixou a cozinha. Não lembro o motivo, mas deve ter sido obra do roteirista: pude ficar sozinho ao lado da Rosa. Fitei seus olhos castanhos durante alguns segundos sem pronunciar nenhuma palavra, contemplativo. Ela retribuiu com o seu belo olhar e, como se quisesse dizer alguma coisa, pegou na minha mão.

De repente, tudo que me fazia lembrar da Rosa passou pela minha cabeça. O nosso reencontro, as cartas, a horrenda viagem de julho… Aquela sensação estranha de que eu estava ao lado da pessoa certa foi tomada por um receio muito grande. Não tinha mais certeza do que eu queria.

– Tá tudo bem, Dé? – perguntou, notando a súbita mudança no meu semblante. Fiquei mais alguns segundos em silêncio, levantei da cadeira e saí de cena.

– Mas tu já vai, guri? Tu não vais jantar com a gente? – gritou Verônica, ao me ouvir saindo de sua casa.

Nossa, já era hora do jantar… E ainda chovia bastante. Corri em direção ao meu quartel general, a casa da vó, no número 92. Não me dei conta que a Rosa estava bem atrás de mim. Só notei a presença dela quando ia fechar o portão: lá estava, na calçada, embaixo da chuva, com um sorriso sapeca estampado no rosto.

– Rosa, vai pra casa. Assim você vai ficar doente – gritei. Resposta errada, como sempre.

– Tudo bem… Eu vou… Mas queria te convidar pra ir no centro amanhã depois do almoço. Vamos?

Aceitei o convite e finalmente me despedi. Saí na chuva por alguns instantes e dei os tradicionais três beijinhos na face, como se faz por lá.

– Dé, posso te dar mais um?

– Ah, pode, vai… – declarei, despretensiosamente.

Foi despretensiosamente, de verdade!

Virei o meu rosto, esperando mais um beijinho na bochecha. Mas ao invés dos lábios, senti na minha face as mãos molhadas da Rosa. O que veio depois, naquela noite chuvosa de verão, não dá para descrever.

Mentira. Dá sim. Analisando friamente, a sensação maior nem foi a do beijo em si, mas do baque provocado pela impetuosidade da Rosa. Como se não bastasse, a minha falta de experiência no assunto, aliado ao fato de estar momentaneamente perdido no tempo e no espaço, fez com que eu soltasse a frase mais adequada para encerrar aquele 22 de dezembro de 1995.

– Rosa, como é que se faz isso?

Ela parou, sorriu e foi embora. Eu, molhado e embasbacado, fiquei aproveitando as gotas da chuva para acordar e, quem sabe, entender o que foi que eu não fiz.

***

No dia seguinte, fomos ao centro. Passeamos pelo calçadão da Andrade Neves de mãos dadas. Fui ao Mercado Municipal e comprei para ela uma correntinha com o seu nome. Voltamos para a Cohab e ela me convidou para entrar. Fiquei mais algumas horas no quarto dela, ouvindo CDs e trocando histórias passadas. Quase choramos juntos… Foi uma tarde inesquecível. Até porque, ela ainda me ensinou, pacientemente, “como é que se faz isso”. Presente de Natal.

No dia 27, fui com a Rosa ao noivado da Verônica. Foi no Colégio Mariana Eufrásia, na esquina da Pinheiro Machado com a Duque de Caxias. O lugar deixou de ser uma escola de ensino fundamental para dar lugar a uma grande festa. Tinha votos de parabéns pelo aniversário e buquê arremessado pela noiva. A propósito, adivinhem quem pegou.

– Aê Rosa!!! Parabéns!!!

– Olha aí André!!! Você é o próximo!!!

Se eu era o próximo ou não, sinceramente, não me importava. Queria mesmo era aproveitar aquele momento. Pela primeira vez neste conto de fadas, eu era o príncipe encantado. Tratei de sair com a princesa praticamente todos os dias. Recebemos o ano de 1996 de mãos dadas, projetando um futuro maravilhoso. No dia três, fomos à praia do Laranjal a bordo do Maverick do pai da Verônica, onde fizemos muita bagunça – além de protagonizarmos vários momentos românticos.

A história tinha dia certo para acabar: cinco de janeiro. Eu precisava estar em São Paulo na semana seguinte: havia sido contratado (outro presentão de Natal) e precisava encarar o vestibular da Cásper Líbero, mesmo sem ter estudado nada além de anatomia. Na hora da despedida, uma choradeira como eu nunca vi. Segundo ela, lágrimas não pararam de correr em seu rosto desde o dia anterior. Contei piadas, falei bobagens, mas nada adiantou. Sabia que era a despedida mais dolorosa entre todas que já estava acostumado a fazer ali. Terminei a minha estadia com um longo abraço e um beijo que valeria até o final de ano seguinte.

A saudade ainda ocupava um espaço maior que a esperança dentro do coração da Rosa. Mas a situação começaria a mudar a partir da primeira carta que recebi em 1996. Veio num envelope vermelho e dizia basicamente o seguinte:

Pelotas, 13 de janeiro de 1996

Oi, minha vida! Como tens passado sem mim?

Eu estou suportando, na medida do possível... Afinal, este mesmo pedaço que parece ter sido arrancado de ti foi tirado de mim também... É como se um vazio tomasse conta e eu não pudesse fazer nada. Então coloco aquela nossa música pra tocar e aí a dor aumenta...

Sinto falta das nossas conversas, dos nossos abraços e dos nossos beijos que, fazendo um exame de consciência, foram até poucos... Fazia tempo que ninguém me chamava de querida... Fazia tempo que eu não me sentia tão bem. E aquele teu telefonema ao chegar em São Paulo serviu como um anestesiante para a minha saudade!

Aqui as coisas continuam as mesmas. A Verônica e o Periquito continuam brigando sem parar, ainda ontem eles jogaram as alianças no chão. Mas não demorou muito para fazerem as pazes de novo. Ah, a vizinhança da Cohab passa por mim e pergunta: "como é que fica o namoro? Via correio? Por telefone? Ou ele vai vir pra cá em seguidinha?" Ah, e tem gente (tu sabes bem quem) que faz todo tipo de pergunta... "Tu tá namorando ou só ficou? E os pais deles te aceitaram? Vais ficar esperando até o final do ano?" Mas eu não ligo pra isso. Nós sabemos o que aconteceu, sabemos que foi muito bonito e, infelizmente, muito rápido.

Esses dias eu li uma coisa que me chamou bastante a atenção: "... para um adulto o amor é tão biologicamente necessário quanto o leite materno para um rescém-nascido". Vamos levar isso ao pé da letra: é necessário, é preciso amar. Sem amor continuaremos a existir, mas teremos deixado de viver. Por isso, ame e ame muito, pois essa é a melhor coisa do mundo.

Por aqui, eu continuo rezando pelo teu sucesso no vestibular e no teu serviço. Eu acho que tudo que eu tenho pra te dizer tu já disseste pra mim aqui: basta você existir para que eu sinta a tua falta, você se fez especial e é difícil esquecer o que passamos juntos. Eu ainda não me recuperei do melhor princípio de ano que eu já tive, com certeza se tu tivesse aqui do meu lado agora os meus dias seriam mais felizes, pois tu enches o meu coração de alegria.

Ainda sinto a tua falta, e essa nossa "paranóia" ainda vai durar alguns dias. Mas nós somos jovens, e a gente se recupera. Eu aqui vou tentar achar o meu novo príncipe sem deixar de ter um carinho muito especial por ti, e eu espero que tu encontres aquela que te dará muito valor: é só você procurar que, em algum cantinho desta cidade grande, ela deve estar te esperando.

Esperemos pelo destino, só ele dirá o que será de nós.

Beijos da gaúcha que te adora.

Rosa.

***

Fui inteligente o suficiente para ser aprovado na Cásper Líbero (tudo bem, foi na segunda chamada), mas não era esperto o bastante para perceber que eu não tinha uma namorada. Ela tinha deixado muito claro: ela iria seguir sua vida e guardar aquele final de ano como uma eterna lembrança de algo que não voltaria mais.

Na minha cabeça oca, que até hoje não aprende a escapar das armadilhas do coração, só havia uma forma de constatar o que ainda existia entre nós. Pedi uma folga na quarta que antecede o feriado da Semana Santa. Na terça eu já estava no ônibus Rio de Janeiro – Rio Grande, da Penha. Foi a pior viagem da minha vida. O ônibus atrasou a partida e quebrou duas vezes no caminho. Levei 26 horas entre São Paulo e Pelotas. Pouco antes das oito da noite da quarta, um táxi saído da rodoviária chegava à Cohab Fragata, trazendo um sujeito semi-careca (coisas da faculdade), mas louco para rever a Rosa.

Ela estava na porta de casa. Parecia até que estava me esperando… Quando finalmente reconheceu quem estava saindo do táxi, ela levou um susto.

– Não acredito!

Não tive a recepção que eu esperava: ganhei um abraço e os tradicionais três beijinhos na face. Ainda segurando a mala quando começamos a conversar.

– Mas o que é que tu estás fazendo aqui?

– Eu vim te ver! Gostou da surpresa?

– É… Realmente foi uma surpresa… – respondeu, num tom de voz sério, evitando olhar diretamente para mim.

Sentamos ali mesmo na frente do portão, nosso cantinho, onde tudo havia começado e terminado. Falamos um bocado até que ela finalmente contou o que a mantinha tão angustiada.

– Dé, estou namorando…

Eu sou mesmo uma grande besta. Só mesmo um idiota completo imaginava não ouvir essas palavrinhas. O nome do felizardo era Pablo, um rapaz que ela conheceu na Ufpel. Era órfão de pai e mãe, morava com a tia e via na Rosa um porto seguro, alguém que pudesse lhe dar toda a estabilidade emocional possível. Em contrapartida, ele forneceria amor e carinho sempre que necessário, e não apenas uma vez por ano. Como num estalo, já tinha chegado o sábado de Aleluia, data marcada para a triste viagem de volta.

O tempo passou, as cartas da Rosa pararam de chegar, e a cada novo final de ano recebia dos meus primos algumas informações novas: o casamento da Verônica e o primeiro filho dela; o casamento da Rosa com o Pablo, a mudança da Rosa com o marido para o Centro, o casamento do irmão da Rosa, a aparição da Íris, que logo em seguida casou também…

No último final de ano do milênio, mais precisamente em dia 27 de outubro de 2000, a festa da Verônica (alguns quilos a mais, cabelo curto e tingido de ruivo) tinha um tom familiar. Seu filho João Paulo, já com três anos, brincava alegremente com as crianças da rua. Meus outros primos da minha idade levaram seus cônjuges e rebentos. Os mais novos, aqueles do tempo do clubinho da criança, falavam em seus “rolos”.

Diante daquilo tudo, um sujeito que acompanhou todas as mudanças de idades, cores de cabelo e responsabilidades, e que parecia viver apenas das boas lembranças. Talvez se eu fosse mais maduro e despachado, como qualquer cidadão com a minha idade, conseguiria ignorar tantos detalhes e contar inúmeras historinhas como essa usando um ou dois parágrafos. Mas de tanto valorizar um beijo como se fosse o primeiro, ou uma paixão de verão como se fosse uma história épica e inesquecível, continuo cada vez pior no quesito paquera, e ainda mais desiludido nessa coisa que vocês chamam de amor.

Mas sabem de uma coisa? O tempo é sábio.

Comentários em blogs: ainda existem? (14)

  1. Caramba Marmota,
    O texto ficou muito bom cara, não costumo ler posts tão grandes por que estou no meu trabalho. Mais esse foi de matar.
    Você já pensou em escrever um livro?
    Parabéns

  2. Não se envergonhe, caríssimo. O meu primeiro beijo, por exemplo, ocorreu aos 19 anos. E o que é pior: dentro de um cinema onde passava um filme de Patrick Swayze. Isso é que denigre toda uma imagem.

    Minhas vergonhas hoje são pouquíssimas. Até do exame de próstata é algo que eu falo com tranqüilidade. Tudo bem que aquele filho da #@&% do médico nunca mais telefonou. Foda…;-)

  3. Marmota, seu sacana… você me fez chorar.

    Quem mandou sermos “corações moles”?

    Muito… muito bom post!
    Eu bem que devia responder a este seu post contando alguma história minha lá no Caderno do Cluracão (assim como ainda estou devendo ao Ian participar do meme dele), mas já ando manteiga derredita demais estes dias e, err… não dá.

    Parabéns, mesmo assim.

    Abraços do Verde.

  4. *vários suspiros*

    Ai, que lindo, Marmota. Só pra constar, eu transformei um namorinho de congresso estudantil em um namoro que já passou dos dois anos e meio.

    E eu sei decorada a data do meu primeiro beijo, valorizo muito.

    E faço votos pra que você amadureça em tudo, menos na capacidade de resumir histórias bonitas a um parágrafo ou dois. Que você nunca aprenda a ser sucinto no que se trata de sentimentos.

  5. André, na boa. Quando eu crescer e virar um blogueiro de verdade eu quero aprender a escrever que nem vc… Muito bom o texto, meus parabéns… Abraços…

  6. André, não há como ler um texto como este e não relembrar de todas as trapalhadas feitas em nome de uma história de amor mais digna.

    Eu sou o cara que, nesse mesmo 1995, se apaixonou por uma garota que tinha a voz rouca, o nariz da Johnette Napolitano e ainda cima era fã do U2. Meu coração foi inflando junto com a minha timidez: Eu passava as noites em claro, escrevendo cartinhas em que confessava o que sentia e sonhava.

    Até que um dia, num sopro de estupidez que naquela época eu confundi com coragem, resolvi presenteá-la com as cartinhas, com o meu disco do U2 e uma rosa. Ela apareceu na esquina, e eu, que nunca havia dado sinal algum do que sentia por ela, apareci com aquilo tudo, e recebendo a velha resposta das garotas de ginásio quando eram pedidas em namoro pelos mais atiradinhos: “posso pensar?”

    Pois bem, ela pensou por alguns dias, até que me respondeu com uma outra cartinha. Nela, ela dizendo que não poderia ficar comigo, porque não sentia a mesma coisa, e blá blá blá. No final, a letra de “With Or Whitout You”, grandes merdas. O foda foi ver que ela ficou com quase metade da escola pelo resto do ano…

    Ainda no mesmo ano, fiquei com uma garota, e não perdi tempo para passear com ela de mãos dadas e levá-la para a minha casa, apresenta-la para a minha mãe antes de sentarmos no sofá para assistirmos à Bela e A Fera. Para uma semana depois ela me dar uma bica linda e eu ficar sem entender, ‘nós não estávamos namorando???’.

    Fora as muitas vezes em que fiquei com a sensação de CONTAS ERRADAS, de achar que não estava recebendo o mesmo amor que eu dava (coisa que foi confirmada por mais de uma garota). Ah, e já falei EU TE AMO nas horas mais impróprias…

    Rosa foi muito honesta contigo, coisa rara. E, na boa, você é um dos reis do XAVECO ARTE.

    Esse post me faz lembrar que precisamos sentar, você, alê e eu para essas conversas…

    abraços.

  7. Se todos tivessem coragem para falar abertamente de suas histórias de amor e tivessem essa maestria para conduzir as palavras não viveriamos mais sem amar, nos intervalos entre nossas paixões nos embebedaríamos das paixões dos outros.

  8. Primeiro beijo, roubado e na chuva!
    Sensacional!

    Definitivamente, essa não vai para a série “E eu, uma pedra”.

  9. Cara, desculpa comentar só agora, mas no trampo é meio complicado escrever algo sem as câmeras de segurança flagrarem (imagina isso em uma escola pública, hehe). Esse texto foi uma viajem ao passado. Ao seu e ao meu. pois me identifico muito com as situações que você descreve. A algumas semanas até disse para um amigo meu que amei muito e fui muito pouco amado. Meu primeiro beijo também foi tardio (20 anos, ganhei de você) e também deixou cicatrizes que de vez em quando ainda doem no inverno. Mas, bola para frente e vamos aproveitar a vida. Porém, podemos chegar à conclusão que todos os caras legais passam pelos mesmos problemas (hehe, incluí nos dois nessa categoria). Um abraço.

  10. Eu adoro essas histórias de mundo intenso. Ainda mais qando são contadas assim, com maestria e vivência pessoal que só quem viveu sabe entender o quão intenso foi.

  11. Maravilhoso esse texto e, mais ainda, todo o sentimento que nele tem. Você é um romântico que, espero, as desilusões não endureçam. Ninguém disse que ser intenso e verdadeiro no quesito sentimento amoroso é algo fácil. Ao contrário: exige uma força interior, uma integridade, uma predisposição a doar-se que nem todo mundo tem. E é por isso que muita gente legal (incluindo eu e você) está sozinha hoje, porque acaba topando com pessoas que não dão o devido valor a gestos assim, tão despretensiosamente ingênuos mas epicamente românticos.
    O tempo é mesmo sábio, mas não deixe de ser como se descreveu no texto. Dentre outras coisas, é isso que te faz especial, original e autêntico como poucos hoje em dia. Bjos!

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