O ostracismo do pobre Amarelinho

Esses dias o UOL lançou mais uma de suas matérias especiais sobre pautas diversas e criativas, recuperando alguns dos mais conhecidos versos criados durante os Mundiais. Faz justiça a corrente pra frente dos “90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção!”, que é sem sombra de dúvida, a mais lembrada entre as cantigas de copa. O texto resgata ainda pérolas como o “Voa, canarinho, voa” (que voltou numa propaganda estúpida da Red Bull) ou o Araken dançando a primeira grande musiquinha da Globo: o meximeximexicoração de 86 (tema de Sullivan e Massadas).

Hino do Amarelinho
O Brasil é bom de bola
E no campo deita e rola
Faz do jogo uma emoção

E a torcida se levanta
Com um grito na garganta
O Brasil é campeão

Nessa não tem erro não
O Brasil vai ser campeão
E volta com a Copa na mão

Ô ô Brasil!
Ô ô Brasil!

(Tinha segunda parte?)

O texto passa batido no entanto pela Copa de 90 (ok, essa todo mundo faz questão de esquecer mesmo). Ano em que o tema oficial da Fifa era Un’estate Italiana (cujo solinho de guitarra introduzia todas as transmissões de jogos) e a Globo lançou mão de Papa essa Brasil / Pode vir quente / Se der sopa a gente toma. Mas a novidade espetacular daquela malfadada competição saiu dos estúdios da Vila Guilherme, antiga sede do SBT.

Eram tempos de muitas experiências inesquecíveis saídas da cabeça do seu Sílvio. Nos anos 90, Roberto Cabrini, ainda comedido, comandava o natimorto SBT Esporte na mesma época em que a emissora convocou Carlos Valadares, Osmar de Oliveira e Orlando Duarte para acompanhar os jogos do Mundial, além de lançar um personagem que caiu nas graças do torcedor brasileiro, com saudades do Naranjito de 1982 e pasmo diante do Ciao, um mascote torpe formado por cubos e uma cabeça de bola em 1990.

Estamos falando do Amarelinho, personagem engraçadinho que aparecia em todos os jogos do Brasil naquele ano. Luiz Alfredo era o narrador, e o saudoso Telê Santana, então técnico do Palmeiras, atacava de comentarista. Mas ninguém queria saber deles. O negócio era a interação que havia entre o bonequinho redondo e o ex-locutor da Globo, que toda hora interrompia os lances para conversar com a mascote do SBT. Que, por sua vez, reagia saltitante. Comemorava, ficava nervoso, chorava, enfim.

Definitivamente foi uma Copa atípica. Dentro de campo, o treinador inventou o líbero, que devia funcionar como nas modernas equipes européias. Mas Mauro Galvão estava longe de ser um, e a equipe foi recebida no aeroporto do Rio de Janeiro com uma faixa alusiva a grande sensação daquele mundial: “quem tem merda na cabeça, Camarões ou Lazaroni?”.

Fora dele, o presidente inventou um plano estranho, que confiscava poupança e aplicações financeiras, acabava com a mamata do over e deixou meio mundo sem grana no banco. As emissoras mandaram equipes reduzidas (a Globo foi com 30 pessoas, ao contrário das ´160 desse ano). A solução foi um “pool” entre as TVs. Globo tinha Galvão e Pelé; Bandeirantes tinha Luciano do Valle e Zico; Manchete tinha Paulo Stein e Falcão; e o SBT, que no ano seguinte inventou o “modelo Datena” com Luiz Lopes Correa, Ivo Morganti, Enéas e Maguila contracenando juntos no Aqui Agora, tinha o Amarelinho.

Não tenho saudades do Collor nem do Lazaroni. Mas lembro com saudades do Amarelinho, que durou só mais uma copa.

Mais Copa de 90 – Lembro pouca coisa daquela que foi a pior copa da minha vida – alguém lembra do Totó Schillaci? Mas teve um lance magistral, talvez o mais bacana daquele Mundial. Camarões e Colômbia se enfrentaram nas oitavas-de-final, e nada de gols no tempo normal. Até que o sensacional Roger Milla abriu o placar no segundo tempo da prorrogação. Mesmo perdendo, os colombianos deixaram o folclórico René Higuita sair do gol, com a bola nos pés, até quase o meio do campo. Milla tirou a bola do afetado e chutou para o gol vazio, ampliando a vantagem. Os amigos do galã Valderrama ainda fizeram 2 a 1, mas a performance do goleiro colombiano falou mais alto.

Mais mascotes – Em 2004, fiz um texto a respeito dos mascotes olímpicos. Virou um dos campeões de busca: todos alunos limitados querendo trabalhos prontos para a professora. Dessa vez, para fazer a turma trabalhar um pouco mais na escola, vai só um lembrete: além do Naranjito e do Ciao, já citados aqui, tivemos o leão Willie em 66, o mexicaninho Juanito em 70, os gêmeos Tip e Tap em 74, o argentininho Gauchito em 78, o bigodudo chapeludo Pique em 86, o cão bobo Strike em 94, o galo estúpido Footix em 98 e as criaturas estranhas Spheriks, em 2002. Dessa vez o mascote é o leão Goleo, que apesar da simpatia, levou a empresa que o criou à falência.

Quer saber mais sobre mascotes? Use o Google e boa sorte.

E tem mais – Procure pela edição 29 do podcast do Alexandre Sena e ouça este pobre coitado que vos escreve balbuciando em uma entrevista gravada durante o expediente. Diz o meu amigo que ficou bem legal. Enfim, ouça e tire suas conclusões!

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (11)

  1. “Mexe Coração” foi, na minha opinião, o melhor e mais criativo hino criado para copas. Até hoje me pego cantarolando essa musiquinha. Pena que a Copa 86 tenha sido um fiasco para o Brasil. Quanto à Copa 90, embora tenha sido a pior Copa de todos os tempos, curiosamente foi a que teve as transmissões mais criativas. As quatro emissoras – Globo, SBT, Bandeirantes e Manchete – estavam sem caixa por causa do caldo que levaram do Plano Collor e tiveram que apelar pra criatividade para conseguir levar uma cobertura decente. O “Amarelinho” do SBT era legal, me lembro dele, mas não supera o saudoso Naranjito da Copa 82, que tinha até desenho animado exibido no programa “Globinho”, com a Paula Saldanha.

  2. André, eu lembro do Amarelinho em 98! Acho que ele durou três Copas, não? E o Araken (ou o Super-Bingo? hahaha) era tio-avô (acho que era esse o grau de parentesco) de um cara que jogava bola comigo no clube quando moleque.

    Abraço!

  3. Da copa de 90 eu lembro pouco. Mas lembro que num bolão na manicure da minha mãe (???) eu falei pra ela por 1×0 pra argentina. Ganhei um sorvete depois do jogo…

    Um abraço!

  4. O Cabrini apresenta um jornal na Banda a meia noite todos os dias se nao me engano.

    Poxa, lembrar do mascotinho redondo e amarelo que conversava com o narrador do SBT era fantastico! hahaha
    Meu pai odiava a narracao mas eu fazia ele assistir no SBT soh pra eu ver o mascotinho agitando bandeira quando era gol e chorando quando chutava a bola pra fora! ahahah

    oooooooooo saudades! [:D]

  5. Eu devo ser muito mau humorado, porque na copa de 90 eu só tinha dez anos e achava o amarelinho uma merda. O que me lembro é que as outras emissoras também tinham música, uma pior que a outra “O Brasil é bom de bola e no campo deita e rola, faz do jogo uma emoção…”

  6. Pô, cara, foi mal, só depois que eu escrevi, vi que tinha o hino do amarelinho lá no alto. Vou tentar lembrar a música da band (na época ainda era eirantes) ou da Manchete!

  7. A Copa de 90 foi bem triste mesmo. A única coisa bacana foi a seleção de Camarões mesmo, que “quase” ganhou da Inglaterra nas quartas de final, num jogo disputadíssimo, com os africanos jogando bem abusados pra cima do discípulos da rainha, um gol atrás do outro (3×2, eu acho, pros ingleses, humpf). Mas uma Copa onde o jogo feio da Alemanha sagra-se campeão, numa final patética, com uma Argentina igualmente feia e com um Maradona já meio decadente, merece cair no esquecimento mesmo, virando uma notinha qualquer de rodapé.

  8. Pontos a esclarecer:
    1) Luiz Alfredo narro a copa de 94 pelo SBT e não a de 90
    2)Assim como Osmar de Oliveira, que em 90 estava na Rede Manchete

  9. Melhor Copa que vi.
    Minha primeira Copa. Tinha oito anos. Ainda hoje fico muito emocionado de ver os lances e jogadas daquela época. Tudo ali ainda agora me parece melhor: a narração da TV, o estilo de jogo, os dribles, os passes (vejam que pintura o gol do Brasil contra a França), sem falar nas vinhetinhas “Ginga prá lá, gol!/Ginga prá cá, Brasil!”.
    Trocaria, sem pestenejar, os títulos de 1994 e 2002 por aquele de 1986, batendo a Argentina na final… Nunca me reconciliei com Zico, por causa daquele pênalti perdido. Este foi o meu primeiro grande trauma, ao menos não tenho lembrança de outro anterior.
    Careca foi o melhor centroavante que vi jogar, mais completo e habilidoso que Romário e Ronaldo.
    E ainda tinha o Araken, o “Showman” ou “Gol Man”. Muito engraçado, sempre tripudiando dos adversários do Brasil. Até o jogo contra França… Aliás, passaram-se anos até que a Globo colocasse no ar, acho que no Vídeo Show, a brincadeira que seria feita com a França caso o Brasil ganhasse… Araken, fantasiado de Bonaparte e numa pose comprometedora, dizia “foi assim que Napoleão perdeu a guerra!”
    Copa inesquecível.

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