O misterioso moedor de amizades

Não importa o nome que você dê a ele: projeto experimental, trabalho de conclusão de curso, monografia, dissertação, tese… A maioria dos universitários enfrentam este desafio estressante em seu último período de curso. Evidentemente, o final do ano corresponde ao apogeu da crise, ou o tão esperado alívio.

Em alguns casos mais graves, os alunos são submetidos a estágios (ou residências) em diversas áreas antes de serem diplomados. Em outras faculdades, no entanto, o trabalho final é bem mais tranquilo. Como na Cásper Líbero.

Sabendo que boa parte dos formandos já estão enrolados até o pescoço em seus locais de trabalho, o projeto experimental é quase uma boiada: os alunos de jornalismo, por exemplo, são livres para escolher o tema e o formato do trabalho – jornal, revista, livro-reportagem, documentários, sites, monografias, programas de TV ou rádio – no final do terceiro ano.

Para os alunos de publicidade, o nível de dificuldade é um pouco maior: é preciso desenvolver um plano completo para determinada empresa. Nesse e em outros casos mais ambiciosos, impossíveis de serem feitos sozinho, a coisa deve ser tocada em grupo, inevitavelmente. A maioria dos projetos atinge níveis de qualidade indiscutíveis, servindo até como trampolim para a carreira. Mas o exercício não é apenas técnico, mas principalmente psicológico: a responsabilidade dividida com quatro, cinco, ou até seis pessoas durante todo o ano, consegue moer amizades, transformando pessoas leais em eternos desafetos.

Felizmente, o grupo do meu projeto permaneceu coeso e feliz o tempo todo. Mas não é o que ocorre normalmente: quando um grupo define o projeto, todos começam animados e confiantes. Com o tempo, a alegria pode virar uma ameaça sem precedentes, capaz de deixar a avaliação final com cara de hora do recreio. Foi exatamente isso que aconteceu durante 2003 com um companheiro de redação, agora um brilhante e futuro publicitário.

No final do ano passado, ele acertou os detalhes do plano ao lado de seus amigos. Com o tempo, dividiram tarefas e assumiram suas responsabilidades. A relação de companheirismo, no entanto, foi dando lugar ao profissionalismo: era como se o grupo fosse uma “empresa”, onde de repente alguém se dá conta que é o “chefe” e sentencia: tal funcionário é incompetente. A partir daí, a coisa tem tudo para desandar.

E quase desandou, como mostram trechos de um e-mail enviado pelo auto-denominado “chefe”, transcritos abaixo. Imagine-se trabalhando no tal projeto, preocupado a tal ponto de esquecer o almoçar ou a hora de dormir, e de repente, faltando alguns dias para a entrega, aparece em sua caixa postal uma mensagem com o assunto “GRUPO MALDITO”:

Para falar a verdade, gostaria de chamar nosso grupo de FP – Filhos da P… Vocês foram sacanas e irresponsáveis. Se prestarem atenção em tudo que fizeram, vão perceber que foram crianças e não tiveram postura.

O pior de tudo é que tínhamos uma relação de amizade, a decepção é muito maior. A sacanagem é em dobro.

Se quiserem discutir o que fizeram, façam uma relação de tudo feito por cada um.

O trabalho está sendo diagramado por um terceiro, que custou R$ 300,00. R$ 100,00 sairá do nosso cofre e R$ 200,00 minha mãe bancou. Para que a pessoa nos entregue na sexta, preciso das peças até quarta de manhã. Vão precisar de mais tempo ou dez meses continuam sendo insuficientes? E os formatos finais, pode ser?

Detalhe importante: a pessoa já foi paga.

… Já saturamos todos os professores com o nosso grupo. E se vocês quiserem brigar eu já consultei um advogado e sei que dá para tirar sim pessoas do grupo. O advogado é especialista no assunto.

Aos estrelas de plantão, já que ficaram de fazer, façam corretamente. Ainda temos informações erradas nas peças.

Tive a oportunidade de assistir a apresentação final do respectivo trabalho. Quem também viu e não sabia da história, até ouviu falar que teve briga durante o ano, mas não deu bola para isso após as trocas de abraços e os inúmeros “parabéns” pela aprovação.

Um dos professores da casa e responsável pela avaliação chegou a contar uma de suas histórias de vida: trabalhou doze anos com um sujeito muito mal-humorado, que brigava com todo mundo e exigia coisas de maneira até constrangedora. Mas fora dali, tomavam sua cervejinha normalmente. E concluiu: “profissionalmente, brigar pode ser estressante, mas é bom”. Pode até ser, contanto que a amizade permaneça.

A todos que estão passando por situações semelhantes, ou acabaram de sair dela, tenham calma: dezembro já está no fim. Comemore, reaproveite as coisas boas que sobraram da rusga e siga em frente.

Até porque, independente do projeto de vida ou dos nossos desejos, ano que vem tem sempre mais.

(Postado em 18/12/2003)

Comentários em blogs: ainda existem? (9)

  1. Acho que fui muito é sortudo por ter tido muito prazer com o meu TCC. Tá certo que fiz sozinho – logo, não tive problemas de relacionamento com ninguém, a não ser comigo mesmo, hehehe -, mas foi um ano muito bacana, apesar do trabalhão.

    Em tempo: gostei bastante do processo de pesquisa e do resultado final, mas não recomendo a ninguém que faça um TCC sozinho – aos que optarem por isso, como eu, preparem-se para dedicação em tempo integral. Acho que o ideal é uma dupla bem entrosada, não?

  2. Eu fiz meu primeiro TCC sozinha – com a ajuda da minha professora – e foi ótimo.
    Passava meses sem escrever nada e dias escrevendo mil coisas… Era uma coisa bem de inspiração mesmo, já que era relacionado à literatura.
    É provável que faça o próximo sozinha também, apesar do apelo dos professores para que façamos em duplas ou grupos… Mas como tive a idéia de, de uma certa forma, dar continuidade ao meu primeiro trabalho, mas por um outro viés, penso que é melhor que faça sozinha mesmo.
    Quando defendi meu TCC e voltei pra casa bateu um vazio e o pensamento: o que vou fazer agora?
    Pós, trabalho, outra faculdade… ;)

  3. Não tive problema com as pessoas do meu grupo durante o projeto experimental (o problema veio depois, eheheheheh). Foi uma época de trabalho intenso, mas muito bacana. E acho que o resultado foi mais do que satisfatório.
    (P.S.: advogado especializado em TCC? que bomba)

  4. Eu estou no fim do terceiro ano de Design e no dilema: queria fazer teórico, uma professra FDP broxou meu projeto, montei uma dupla, me arrependi, queria fazer teórico de novo, mas seria injusto com o que combinei com minha dupla.

    De qualquer forma, minha profissão não é regulamentada, talvez nem precisasse do meu canudo, cansei dessa porcaria toda…

  5. “O projeto experimental (da Cásper) é quase uma boiada”. André, você deve estar louco! O meu e dos meus amigos de outros grupos pode ser tudo, menos uma boiada. Stress em níveis máximos… estou até preparando um post com as bizarrices que cometi graças ao cansaço!

    Voltando ao assunto do post, eu achava que essa história do processo era uma lenda casperiana….

    Prestes a entregar o livro-reportagem, posso dizer que meu grupo foi bastante tranquilo. Mas que vi muito choro e ranger de dentes, isso eu vi…

  6. Encontrar uma víbora-chefete assim é karma, só pode.Tive sorte na FAU-UFRJ de trabalhar com amigos, que me deixavam à vontade para fazer a parte de monografia sobre os projetos; sempre fui pregiçosa de prancheta. Só uma vez foi questionado meu papel. Nos EUA nem me lembro dos grupos. Prefiro o trabalho indvidual.
    Viva as férias e viva o fim de situações estressantes.

  7. Aqui a gente tem que fazer um projeto experimental E uma monografia. E a monografia tem que ser obrigatoriamente individual :P Fiz o projeto em dupla; não fiquei muito contente com o desempenho da outra pessoa, mas não houve brigas explícitas. Nosso projeto era uma palestra no Second Life (realizada há 3 dias atrás). Agora falta a monografia :P

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