Nova carta (ecológica) do Papai Noel

Eu sou um ativista de sofá típico. Sei que nosso planeta está sendo assolapado pelo homem, mas continuo tomando banho quente e guiando um veículo poluente por longos quilômetros diariamente. Poderia dedicar parte do meu tempo estimulando pessoas a praticar uma boa ação, só que continuo sedentário e barrigudo. E se num passado remoto eu perdia um dia inteiro escrevendo cartões de Natal personalizados – sim, aqueles de papel, envelope e selo – e despachando-os pelo correio, agora me envergonho daqueles que, em dois ou três cliques, juntam imagens pescadas no Google com um texto de “autor desconhecido” e enviam pra todos de sua lista. É uma vergonha idiota, já que não costumo dar bom dia aos vizinhos e, ultimamente, ando longe de atividades sociais por total inércia doméstica. Difícil dizer, mas é como se tanta conectividade fosse inversamente proporcional ao espírito natalino.

Mas deve ser só falta de costume. Mesmo na ressaca da festinha de aniversário do filho da Dona Maria com o Seu Zé, aquele tio gordo do menino, que passa o ano coçando e enchendo o saco vermelho no meio do Ártico, ainda tem tempo de escrever alguma historinha edificante. Obrigado mais uma vez, velho batuta.

— original message —
From: Papai Noel <santa@laponia.gov>
Date: 25/12/2009 22:45:27
To: André Marmota <uma@igualaquinzequilos.com>
Subject: Feliz Natal, e que não seja o último!

Ho ho ho, meu desajeitado amigo de mechas brancas e ainda com espírito de criança! Adivinhe quem lhe escreve novamente nessa data feliz?

Antes mesmo de começar, preciso lhe advertir, bom rapaz: minha fábrica não possui tecnologia para desenvolver artefatos metafísicos, portanto não consegui lhe entregar seu pedido: um relógio capaz de espichar as horas. Mas vou lhe dizer: ainda que fosse possível, não lhe daria. Você precisa aprender a viver cada minuto de sua vida com intensidade e responsabilidade, ao invés de perder lindas alvoradas só porque prefere ficar mais tempo rolando na cama. Que coisinha mais feia, hein?

Mas não precisa ficar apavorado. Como sei que existe uma boa alma neste seu corpo adiposo, fiz com que chegasse em suas mãos uma marmota de pelúcia. Aliás, veja que curioso: enquanto na Mongólia não é mais saboreada pelo homem há séculos, em outras áreas, como no Canadá, a quantidade de habitantes da espécie local foi reduzida pela metade em um período de vinte anos. Triste, não acha?

Felizmente, existem pessoas engajadas para salvar marmotas. Também temos outras organizações pelo planeta, preocupados com outras minorias. Sei que não é o teu caso, mas veja: mesmo neste Natal ignorei uma porção de cartinhas, enviadas por crianças que se comportaram muito mal. Pedem os melhores presentes em troca de suas boas notas, mas que parecem solidários apenas na última semana do ano. Em todas as outras, adotam como palavra de ordem um sonoro “que se dane a Natureza”.

Parece engraçado, não? De fato, é possível enxergar este bordão num cenário onde animaizinhos em extinção significam a sobrevivência alimentar de uma espécie. Alguma coisa como “não existem alternativas pra quem não tem nada”. Também entendo o quanto parece comum e banal dar às costas pra questões ambientais quando se tem mais o que fazer da vida, como cuidar da casa, do trabalho, das pessoas ao redor… Há uma linha tênue entre tantas normalidades da vida ao que poderia ser visto, de uma forma extrema, como “egoísmo”, não acha?

Ah, meu bom rapaz… Tanto as palavras “egoísmo” como “sobrevivência” recebem conotações tão cinzentas diante do desenvolvimento da espécie humana, não é verdade? Tenho certeza de que muita gente já está consciente da situação do planeta, mas como normalmente acontece, há um abismo entre o pensar e o fazer. Eu mesmo estou pensando em abrir mão de alguns tipos de matéria-prima em minha fábrica – mesmo mágica e não-poluente, ela favorece o consumismo dentro desta estranha lógica que vivemos. É uma pena, mas há muita gente inteligente que considera estas preocupações como “rabugices”. Como se o descarte de materiais quimicamente complexos resultassem no fim do Natal!

Mas olhe, a essa altura espero realmente que você não esteja me abominando, como muitos defensores de causas acabam se tornando. Prefiro o fato de ninguém acreditar na minha existência do que demonizá-la. Sabe, não existem culpados individuais. Nem mesmo aqueles sujeitos importantes, que estiveram perto de casa esses dias, na Dinamarca. Veja que coisa: desde os anos 70 estes líderes da raça humana se encontram, tentam conciliar a tal sobrevivência com o tal desenvolvimento… E o que acontece? Eu, que devia ficar triste, acabo gargalhando mais! Ho, ho, ho!

E aqui, um aparte curioso: imagine se este evento fosse realizado num Natal… Já pensou? Seria lindo se os gerentes todos, sentados à mesa diante da ceia, estivessem sensibilizados – mesmo com o volume de peças publicitárias, destas mensagens capazes de influenciar gente sem personalidade – e pudessem realçar o “espírito de amor e solidariedade”. Mas, se levarmos em conta o que estamos fazendo com nossas vidas, atirando pedras uns nos outros, é provável que um debate climático nessa época representasse, definitivamente, o último Natal da humanidade…

Talvez estes debates infrutíferos não levem a lugar algum. Desprezar quem defenda marmotas ou compre presentes também só dissipa energia. Sei que poucos acreditam em mim, mas sabe esse discurso “a natureza que se dane”? Isso inclui todas as espécies, inclusive os seres inanimados, que ainda moram nos bons corações do mundo. Antes mesmo do Pólo Norte derreter e levar minha morada, outras vítimas de furacões, secas, enchentes e ondas de calor virão.

Bem, meu caro, lembra-se do que dizia Einstein – e que Parreira, em 2006, ignorou solenemente durante a Copa do Mundo? É uma insanidade fazer sempre a mesma coisa, inúmeras vezes, esperando resultados diferentes. O problema está na inércia. É lamentar os efeitos que já sentimos e, ao mesmo tempo, continuar enxergando o próximo como alguém longe da família. Certamente a mudança virá apenas quando ocorrer um significativo abalo coletivo. Igual ao desses blockbusters do gênero catástrofe, sabe? E é uma pena, porque aí talvez seja tarde, e os danos e as perdas já terão sido causados.

Sabe estes gestos que, vez ou outra encontramos no Natal e que, surpreendentemente, viram notícia de jornal? Deveriam ser constantes, normais. Só teremos um feliz Natal e um ano novo realmente próspero se muita gente, mas muitos mesmos, acreditarem em uma maneira diferente de agir. Como te escrevi lá no comecinho, não tenho condições de preparar presentes com ingredientes imateriais. Mas se pudesse, trataria de embutir uma nova forma de amar. Tanto a nós mesmos quanto tudo o que possamos definir como vida.

Seria ótimo, não? Mas enfim, este é o presente que só o homem poderá embrulhar e entregar. Não eu.

Pense nisso. Se puder, publique esta carta em seu blog, como você sempre faz. Pode ser que ajude alguém. E, para não perder meu costume de sempre, feliz fim de Natal. Mas que não seja o fim das nossas esperaças! Ho ho ho!

Papai Noel
www.correionatalino.com.br

Ah sim, a marmota de pelúcia é real – obrigado de coração, Lúcia!

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André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. Oi guri :)

    Obrigada por aumentar oi meu natural sentimento de culpa desta época ¬¬
    Mas, … quero ver a próxima carta no meio do mestrado :))
    Feliz 2010!

    bjsssss

  2. MEU NOME E LUCAS oi querido papae noel pesso rompas PODE SE USADAS EU NAO LIGO PORQUE EU SOU POBRE. EU TENHO12 ANOS SOMOS 5 PESSOA AQUI EM CASA minha duas irma uma de 11 anos e a outra de 3 aninho SE VC NAO PODE MIDA AS roupas eu vou ficar TRISTE SE VC NAO PUDE MIM DA ROUPA MADA PELOMESNOS MATERIAIS DE ESCOLA PARA MINHA IRMA E EU TE AGRADESO DE CORAÇAO moro no fundo de uma casa ENDEREÇO AVENIDA DUQUES DE CAIXIAS. QUADRA 138,LOTE 27 SETOR GARAVELO CEP 74930490 APARECIDA DE GOIÂNIA ESTOU ESCREVEDO NO PC DA MINHA TIA MAIS NA VERACIDADE ELA NAO E MINHA TIA EU QUE CHAMO ELA ASSIM COFINHO NO SENHOR

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