Notificação para o fim do mundo

Às vinte e doze de vinte do doze de vinte doze, encontrando-me no pleno gozo das minhas faculdades mentais, eu, titular deste loteamento de zeros e uns, declaro, para quem interessar possa e em especial para quem estiver aproveitando os minutos finais do planeta, que não consegui realizar todos os meus planos até a presente data. A bem da verdade, talvez não conseguisse mesmo se tivesse todo o tempo do mundo. Aos meus desejos ocultos, gostaria que vocês tivessem aparecido antes. Ao casal Eva e Adão, agradeço pelo cacófato e por terem comido a maçã: não fosse por isso, talvez jamais discutiríamos essa história de calendário maia, aquecimento global, exploração de recursos e consumismo depravado. Ao pessoal da agência de viagens, não precisa devolver o pacote que fiz pro Carnaval: de repente, vamos conseguir embarcar. Aos vendedores da concessionária, nem adianta ligarem mais: só vou conseguir trocar de carro se o IPI seguir o caminho das profecias apocalípticas. Aos meus credores, informo que, como não ia conseguir pagar, está tudo certo. Ao assaltante que me apontou uma arma e levou meu celular: espero que, ao invés de fumá-lo, ele tenha virado alguns pratos de comida. Aos meus familiares no Rio Grande do Sul, esses dias que antecedem as festas são especiais: é incrível fechar os olhos e voltar a um tempo que, infelizmente, não mais voltará. Aliás, devia ter ido mais vezes ao Rio, a Florianópolis, à Europa, a Belém do Pará; também devia ter ido ao Japão, já que é logo ali – como a África do Sul. À mocinha do meu primeiro beijo, saiba que sua família tão linda quanto seu sucesso profissional. Às mulheres que já me deram bola, incluindo uma linda companheira da faculdade, peço desculpas: eu nunca entendi nada dessas coisas, tanto que só namorei pra valer com quem escancarou suas intenções. À Pâmela Domingues, apresentadora da Gazeta, confesso que te acho uma gracinha. Aos meus alunos, foi um prazer ter descoberto, ao lado de vocês, aquilo que escolhi fazer na minha vida. Ao meu orientador no doutorado, ainda não consegui pensar no projeto mas gosto de trabalhar sob pressão… E como nosso prazo está no fim, confie. Aos meus amigos do Facebook, saibam que o Estatuto de Roma instituiu a corte internacional, aquela acionada para crimes de guerra, portanto dificilmente vão se meter a julgar se suas fotos ou textos podem ser úteis para fins comerciais sem a sua anuência. Além disso, nunca existiu uma Convenção Berner: há sim um acordo, assinado em Berna (Suíça) em 1886, um dos primeiros tratados assinados sobre direitos autorais – e que merece algum debate consistente, caso haja amanhã. Aos descrentes, sigam desconfiando: talvez seja este o caminho da salvação. Ao pessoal da rua, avisem que, caso ela ainda exista, vamos estar em casa na festinha de ano novo. Aos que compartilharam sua companhia presencial nos últimos anos, sinto que aproveitamos bem os instantes que tivemos, não? Ao Rodrigo, você não imagina a falta que você faz nesse mundo daqui. Aos três mosqueteiros nerds, sempre lembro do meu pai dizendo o quanto achava impressionante nossa relação durar tantos anos. Ao responsável pelos mais audaciosos e geniais empreendimentos que tive o prazer de trabalhar, penso que talvez nunca consiga correr como você, mas é sempre um prazer tentar alcançar suas ideias. Aos meus pais, é uma alegria saber que estão sempre comigo – se bem que, na hipótese de sobrevivermos, talvez já seja hora de aprender a cozinhar e a procurar um canto para chamar de meu. Ao meu irmão, tenho certeza de que sabe: invejo algumas de suas habilidades, por isso o admiro tanto. À mulher com quem sonho casar um dia, se eu perdi tempo demais preocupado em rotular o que éramos, ao mesmo tempo fico feliz em ter vivido tantas coisas lindas ao seu lado – e é isso que importa.

Em tempo, na Internet tem capital aberto, fechado, misto e até mesmo nenhum. Todos os que aqui estiverem são recomendados a publicar uma nota como esta, se quiserem. Ou se preferir, você pode copiar, colar e editar esta versão. Se você não publicar uma declaração pelo menos uma vez, você estará tacitamente permitindo o tempo passar sem que as suas melhores lembranças povoem sua mente.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (3)

  1. Melhores lembranças…
    Tempos que se vão e não voltam…

    Ai ai viu.

    Mas vou me abster de publicar minha nota…

  2. Vou copiar/colar/publicar o texto acima, porque deus me livre ficar sem minhas melhores lembranças! Mesmo porque vocês fazem parte delas, hahahahaha… Beijos! Feliz Fim do Mundo pra você!!!

  3. Ainda estamos aqui…

    … o tempo que não volta mais foi muito bom…

    suspiro

    quem sabe a gente consegue fazer do presente um “tempo que não volta mais” daqui a alguns anos?

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