Não chores por mim, Argentina! Epílogo!

Segundo dia. Despertei com a TV sintonizada na Televisa: assisti ao Chaves sem dublagem! Mudei de canal e deparei com Bart Simpson falando “chicanês”. Impagável! Aquela manhã de sábado era destinada ao city tour. Circulamos por toda a cidade, com direito a fotos na famosa Praça de Mayo e compras no tradicional Caminito, no bairro La Boca.

Aliás, o dia pode ser resumido em muitas compras e muitos pedintes. A começar com a própria praça das mães e seus lenços brancos: lá fui abordado por uma velhota amiga dos pombos, que fez questão de pedir uma esmolinha. Tanto no Caminito quanto na Calle Florida, nosso destino da tarde (após o almoço no Burger King), dezenas artistas de rua tentavam chamar a atenção em busca de alguns trocados. Na saída do El Ateneo, uma espécie de “livraria mega-store”, fui abordado por uma menina muito chata – como “lembrança”, dei a ela dois reais. Tadinha.

A Calle Florida, ponto comercial da cidade onde um dólar variava entre $ 2,50 e $ 3,30, nos reservou outras coisas interessantes. Como o aviso num pequeno sebo: “se não for comprar nada, seja breve”! Cansados, os três ainda tiveram fôlego para caminhar pelos corredores das Galerias Pacífico e seus afrescos no teto, com direito a sorvete de pomelo num quiosque chamado La Veneziana. Compartilhamos o final da tarde ao lado dos nossos hermanos sentados na grama da Praça San Martin. Uma beleza!

A noite era uma criança. Mal deu tempo de cochilar duas horas para sairmos em direção a casa de tangos Carlos Gardel. Um lugar onde os espetáculos são formatados especificamente para turistas. “Isso é dança de puteiro”, comentou Narazaki, que aliás pagou a minha entrada. Durante a apresentação, eu e Sakate discutíamos se o músico tocava sanfona ou gaita. No jantar, carinho e fraquinho – até hoje o Narazaki espera pelas “papas fritas”que pediu – conhecemos duas novas amigas, Maria e Sofia, que estiveram conosco no restante da noite!

Assim, os cinco saíram para aproveitar a noite portenha. Primeiro, no cassino flutuante, portentosa instalação em um navio ancorado – a legislação da Capital Federal argentina não permite jogos de azar em seu território, mas não restringe o Rio da Prata… É o nosso jeitinho brasileiro! Tanto no cassino quanto no bairro da Recoleta – point onde estão os bares mais conhecidos e o cemitério da cidade, não ganhamos nada… Terminamos a madrugada ali mesmo, por volta das cinco da manhã. Loucos de sono, num lugar chamado Spell Café, ao som empolgante do Manu Chao…

Claro que perdi o café da manhã do hotel no dia seguinte. Estúpido. Mas ainda deu tempo de pegar o metrô e caminhar até a Feira de San Telmo, uma “praça Benedito Calixto” com shows de tango, muitas quinquilharias e raridades! Foi no caminho da feira que o Narazaki descobriu que precisava ter moedas para pagar os ônibus da cidade… Teve que ser convidado a sair do coletivo!

Em San Telmo encontrei uma banquinha de revistas antigas – entre outras preciosidades, lá estava a edição histórica da El Gráfico da final do Mundial de 1978, sediado e vencido pelos argentinos. Foram 15 pesos bem gastos, para desespero do Sakate, que passou pelo mesmo local instantes depois. Tente imaginar como estava a cara dele após a cena abaixo, horas depois.

– Tive que comprar essa revistinha meia-boca, o vendedor tinha acabado de vender a da final…
– Você tá falando… dessa aqui?

A revista foi o assunto durante a volta, com direito a empanadas num boteco de esquina e almoço. No McDonalds, claro! Onde mais turistas brasileiros iriam pensar em comer? Para o domingo a tarde, o programa era unanimidade: Boca e Vélez em La Bombonera, pela penúltima rodada do Torneio Clausura! Na época, o noticiário esportivo parava constantemente nas páginas policiais, em função das brigas envolvendo torcedores. Ainda assim, corri o risco e levei a máquina fotográfica, para desespero dos meus dois companheiros.

A aventura começou na chegada ao estádio. Policiais perguntaram se “éramos visitantes”. Demorou para a ficha cair: ele se referia a torcida do Vélez… Novamente fizemos a volta no quarteirão, compramos os ingressos, passamos por três revistas até chegar ao segundo andar de arquibancadas, bem atrás do gol. Faltavam duas horas para o início da partida, o estádio ainda estava vazio.

Os minutos passavam e “los xeneizes”, torcedores do Boca, começavam a tomar conta do lugar. Os mais audaciosos subiam nos alambrados para pendurar longas e gastas faixas azuis e amarelas, que além de enfeitar as arquibancadas, serviam de apoio para os torcedores mais afoitos. Minutos antes da partida, parecíamos estar no meio dos barra bravas!

Começa o jogo. Mas ao contrário do que estamos acostumados no Brasil, são poucos que se importam realmente com a partida: o nosso lado da arquibancada não parou de cantar um só minuto durante os 90 minutos de partida. Nem mesmo durante o primeiro gol do Boca, no empate do Vélez ou no gol da vitória do time da casa por 2 a 1: “la hinchada” não deu trégua a ninguém . Foram duas horas em pé, passando frio e cantando em espanhol. Mas como valeu a pena!

Bem, poderia ter sido melhor. Na saída do estádio, um princípio de tumulto fez com que a polícia jogasse bombas de gás para dispersar os torcedores. E nós estávamos bem no meio de tudo aquilo, observando a fumaça e a multidão correndo em nossa direção… Nem deu tempo de gritar “corre”: já estávamos fugindo junto! Como todo castigo pra pobre é pouco, não encontramos o nosso ônibus: fomos obrigados a gastar nossos últimos pesos num táxi.

Nossa última noite em Buenos Aires terminou com uma caminhada na Avenida de Mayo e suas preservadas construções antigas. Encontramos um simpático restaurante de “pizza libre”, o nosso popular rodízio. Além do balanço da viagem, a loirinha que nos atendia também esteve na pauta. Narazaki venceu a aposta, acertando na mosca a idade da garçonete: 22 anos! Sim, perguntamos a idade para a moça antes de sair em direção a um cyber café, onde os dois corintianos nipônicos descobriram que o Corinthians havia vencido a primeira pela final do natimorto Rio-SP.

Não consegui assistir ao filme “Y Donde Estan Las Mujeres”, que estava em cartaz na cidade – pergunta que coincidentemente fiz durante todo o ano. Mas ainda deu tempo de dar uma nova circulada pelos arredores da cidade na segunda-feira pela manhã, antes do nosso embarque para São Paulo. Na bagagem, a minha camisa do River, um CD, alguns jornais e revistas locais, quatro filmes de 36 poses batidos, muitos papéis e algumas lembranças!

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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