Muitas perguntas sobre a cratera do metrô

Quem nesse país não ouviu falar no desabamento nas obras da Linha Amarela do metrô paulistano? Como é que a Veja conseguiu sair, se o buraco foi do lado da Abril? Quem não viu aquele guindaste de cinquenta toneladas cair na Marginal? E se o buraco chegasse aqui? E quem não ficou com medo e, ainda que por alguns instantes, decidiu olhar aonde pisa? Quem consegue chegar perto da estação Pinheiros de trem e não sentir nada? E a Marginal, vai ser interditada em algum momento? Vai ter rodízio?

Qual a chance de uma pessoa ser engolida pelo chão no exato instante em que ele se abre? É a mesma de ganhar sozinho na mega-sena apostando só R$ 1,50? Ou de dois aviões se chocarem na Amazônia? E se fosse comigo, ou algum conhecido meu? E se fosse na minha rua? O que eu tiraria de casa? Quem vai ter coragem de andar no metrô? Ou entrar num túnel perto de um rio? E quanto tempo as pessoas que viram suas conquistas buraco abaixo, como vai ser? Quanto tempo vai levar para receberem alguma indenização? E de quem? E que dinheiro consegue pagar uma coisa dessas?

E aquela centena de jornalistas, reinventando as mesmas pautas o tempo todo? Pra quê quatro ou cinco repórteres, de uma mesma emissora, em cada ponta do buraco? Quantas vezes se ouviu a defesa civil, o amigo do caminhoneiro, o filho da vítima, aquele morador que sempre passava por ali? E a Record, que parou até o Fala Que Eu Te Escuto para mostrar o buraco? Será mesmo que eles querem prestar serviço, mostrar preocupação com as vítimas? Ou todos eles lembraram dos clássicos filmes “A Montanha dos Sete Abutres” ou “O Quarto Poder”? E se o buraco fosse em Parelheiros? Ou em Guaianazes?

Quem não fez nenhum trocadilho infame sobre “são paulo indo pro buraco”, o “buraco do Serra”, o “buraco do Alckmin”, “o prefeito nun-Kassab de nada”? E se fosse com o Maluf? Ou se fosse a Marta, seria culpa do PT? Porque ninguém detonou o Serra? Seria por causa do azar dele, afinal de contas não faz nem duas semanas que assumiu o cargo? Alguém lembra de um acidentes desses numa obra como esta?

Mas afinal de contas, como é que um buraco de 40m se transforma num de 80m num estalar de dedos? Como ninguém imaginou que ali era o leito de um rio, onde o solo é mais fraco? E os outros milhões de buracos ocultos de São Paulo? E os piscinões? Os túneis? Aquele da Rebouças, que também quase caiu? Será que eles aguentam? E se foi uma mensagem apocalíptica? Será o fim dos tempos, ou só incompetência humana mesmo? E se for, quem falhou? De quem é a responsabilidade? Das mega-construtoras? Do governo? Do metrô? Do engenheiro responsável? Do geólogo? Dos materiais usados? Da pressa? Da corrupção? Da chuva? Da Mãe Natureza? De ninguém?

Enfim, quando alguém vai dizer “já deu o que tinha que dar”, como fizeram com aquela modelo que fez isso na praia? Quem se importa de verdade? E quem vai se lembrar daquelas pessoas que passaram ali, na hora errada e no lugar errado, quando taparem o buraco, o metrô funcionar e as eleições chegarem?

(Postado em 16/01/2007. Um ano depois, praticamente nenhuma pergunta relevante foi respondida.)

Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. Também não tenho respostas…mas mudei-me para um prédio bem na esquina do buraco (uma das ruas ainda está fechada!), quem sabe eu consiga descobrir algo agora :-)

  2. O feed está chegando cedão. Conheci teu blog exatamente quando houve o acidente do buraco do metrô. Alegro-me de ver que você não usou a palavra “culpa” que foi o cerne do meu comentário pernóstico.
    Ontem à noite estava contando para o meu filho e marido casos de falhas de construção civil devido a erros dos operários. Um embuchou o ocncreto que saía do outro lado com jornal. Este pedaço de uma ponte caiu. São estórias de escolas de arquitetura.
    Em um país onde os operários de obra vêm de lugares completamente rústicos, é um milagre que as obras se mantenham de pé.

  3. E pensar que, meses antes, fomos obrigados a aturar Geraldo Alckmin vendendo na campanha eleitoral uma imagem de “bom administrador”, de “bom gerente”, de que daria o tal “choque de gestão”. Afe!

    Mas culpar o Serra é sacanagem mesmo… Pô, o cara assumiu em 1º de janeiro de 2007 e a tragédia ocorreu no dia 12! Aí não dá mesmo, né?

  4. Só quem está diretamente envolvido com a situação e quem não é alienado ainda se lembra e/ou se importa, né?
    Garanto que muita gente ou deve ter esquecido, ou nem se importa mais (porque pimenta nos olhos dos outros é refresco…).

    Muito bom os questionamentos!

Vai comentar ou ficar apenas olhando?

Campos com * são obrigatórios. Relaxe: não vou montar um mailing com seus dados para vender na Praça da República.


*