Marmota indica: Restaurante do Senac

Salvador (BA) – Minha primeira experiência com a comida baiana não foi lá essas coisas… (todos os detalhes ainda neste final de semana). Quando estive aqui pela primeira vez, em maio do ano passado, caí na besteira de experimentar um acarajé de rua um dia antes de voltar – isso depois de ter besuntado os intestinos com dendê em refeições anteriores. Aquele bolinho frito e recheado ao ar livre com vatapá, caruru, saladinha vinagrete e camarões semi-vivos transformaram a minha viagem de volta num martírio.

Mesmo nessa semana venho comendo com moderação. A grande inovação que pedi em restaurantes a la carte foi uma “casquinha de siri gratinada à moda baiana”. Qual a diferença em relação à tradicional? Alguns recheios extras, quatro reais e meia hora de diferença – como qualquer coisa “à moda baiana”, não dá pra exigir pressa.

Enfim, até esses dias, tudo que já conhecia em termos gastronômicos em Salvador era a rede Ki-Mukeca, os restaurantes típicos mais caros como Gibão de Couro e Mistura Fina, além dos arredores movimentados da praça Brigadeiro Faria Rocha, no Rio Vermelho, bem perto dos hotéis mais frequentados (como o Ibis). Aliás, se o seu sistema digestivo pedir algo mais comum, ali tem uma pizzaria bacana (apesar do preço), oferecendo entre outros sabores um bem exótico: carne de bode com queijo de cabra.

De qualquer forma, acredito que você deve conhecer ao menos um bom restaurante em Salvador, capaz de oferecer alguma delícia exclusiva. Mas para quem tem já identificou alguma sensibilidade estomacal, conheci uma opção interessante: o buffet típico do Restaurante-escola do Senac. Foi Narazaki, o japonês mais baiano do terreiro, que me conduziu ao local – indicação que, diga-se, também veio a partir de um colega de trabalho.

Localização: **REGULAR. Sejamos sinceros: você pode até achar o centro histórico de Salvador um pólo cultural e histórico dos mais importantes e ricos do país. Mas é preciso ter coragem e desprendimento para caminhar com alguma tranquilidade no Pelourinho. O prédio, que também sedia o Museu da Gastronomia Baiana, fica exatamente na ladeira que dá nome à região – para quem está de costas para a Fundação Casa de Jorge Amado, é o casarão verde-escuro, à direita. Só tome cuidado para não errar a ladeira e dar de cara com o Boca ou o Zé Pequeno.

Ambiente: ****MUITO BOM. Se você conseguiu chegar ao local sem qualquer percalço, ficará encantado com a fachada colonial preservada, aos moldes de boa parte da arquitetura da região. Com algum tempo extra, é possível visitar o museu e o teatro. Mas se a fome for maior, suba logo os dois lances de escada e vá direto ao salão do buffet típico. Tudo contribui para manter o clima histórico: pé direito alto, lustres grandes e pomposos, piso de madeira e mesas com toalhas de cores vivas. Não é o bar Vesúvio, em Ilhéus, mas fiz de conta que estava no bar do Nacib, num capítulo da novela Gabriela.

Atendimento: ****MUITO BOM. Como é um restaurante-escola, todos os garçons estão ali em treinamento. O que, na prática, é sensacional: tanto os rapazes (devidamente fardados com casaco branco e calça preta) quanto as moças (fantasiadas de baiana do acarajé) estão ali porque querem aprender a servir bem seus clientes e carregar desempenho e experiência prática para conquistar espaço no mercado de trabalho. Ao contrário dos modorrentos que normalmente só pensam no salário ao fim do mês, isso é garantia de atenção e simpatia, além de motivo de orgulho: “eu vou me formar neste mês”, comemorou o garçom que nos atendeu.

Acepipes: *****EXAGERADAMENTE BOM. As primeiras vinte variedades de pratos típicos salgados são temperadas com azeite de dendê: vatapá, caruru, acarajé (mas só o bolinho de feijão fradinho em tamanho pequeno) e moquecas diversas: peixe, camarão, siri catado, arraia, sururu, ostra… Os outros vinte não levam dendê, mas nem por isso são dispensáveis: cozido, pirão, arroz com marisco… Coisas que certamente ninguém pediria isoladamente num restaurante comum – ou você pediria um prato de xinxim de galinha? Enfim, depois da gula salgada, caia na mesa de doces. Cocada, bananada, goiabada, cocada, baba de moça, manjar branco (ah, sim: a calda de ameixa é separada… Como descobri depois tive que comer duas vezes).

Preço: ****MUITO BOM. Para os padrões gerais, R$ 28 pelo buffet livre pode parecer exagero. Mas tente circular nos restaurantes mais tradicionais do Pelourinho e surpreenda-se com moquecas de cem reais, entre outras aberrações nos cardápios. E dependendo da sua fome, esse valor fica até barato.

Avaliação geral: ****BEM BACANA. Nem mesmo o fato das bebidas não entrarem no clima típico (nada que uma passada no Suco 24 horas, no Largo da Mariquita, não resolva) tirou o brilho do lugar. E não estou falando apenas no “didatismo” ou na “alquimia” dos pratos: ao chegar tarde da noite, o segurança informou que o jantar era servido apenas até as dez… Mas numa conversa mole, baseado em uma pretensa viagem de volta no dia seguinte, abriu nossas portas com direito a cumprimeito. “O pessoal só vai embora as onze. Então não vou fazer você perder a viagem”. Não é sensacional?

André Marmota pode perder um grande amor, um amigo de longa data ou uma oportunidade de trabalho... Mas não perde a piada infame. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Hummmm…

    Eu não indicaria o restaurante do Senac.
    Algumas dicas (se ainda existirem):
    Iemanjá – moqueca de camarão

    Há Tampa (no bairro de Peranmbués) – tudo

    Barraca da Jajá (praia de Jaguaribe) Salada de polvo

    Bar Buxixo (Armação) – carangueijo e arrumadinho.

    Bom apetite!

  2. Off topic – te indiquei pra responder um meme no meu blog. [http://pensoblogoeinsisto.blogspot.com/2008/04/meme-do-orkut.html] Vê lá se te interessa.

    Bjim. MM.

  3. Puxa… “novela” Gabriela? Romance Grabriela, André, por favor! :P Antes de novela, é um livro!
    Falando em livro, não vai ter post sobre a Casa de Jorge Amado, não?

  4. Gostei das informações.Quem quiser se hospedar em um hotel simples, mas muito familiar fale com o pessoal do Hotel Granada, lá na Av Sete de Setembro, 512.Já hospedo lá há + ou -10 anos. Como eu gosto de Salvador!

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