Marmota Indica: Pita Kebab Bar

Marmota IndicaMinha amiga e especialista em comilanças Luciana Mastrorosa me disse esses dias que, para fazer uma boa crítica gastronômica (odeio cacófatos), é preciso visitar o mesmo lugar ao menos umas três vezes, para só depois analisar os prós e os contras.

Como não sou nenhum gourmet, a série Marmota Indica está longe de ser uma referência entre os bons guias da cidade. Trata-se de um apanhado de experiências e observações, muitas vezes resultado de uma primeira impressão. Ao contrário de qualquer avaliação especializada, nada impede que a expressão “nunca mais ponho os pés nesta espelunca” seja dita logo de cara.

Mas relaxem. Apesar das primeiras impressões estranhas, eu pretendo voltar ao Pita Kebab Bar.

Quebábe? – A palavra “kebab” é persa, e quer dizer simplesmente churrasco. Apesar das muitas variações que a iguaria recebe em todo o mundo, entre elas o churrasquinho grego com suco de laranja grátis no Centrão, a que mais me traz lembranças bacanas é o doner kebab (tradução: churrasco rodando), muito popular na Europa.

Os turcos são os especialistas em doner kebab, e na Alemanha, especialmente em Berlim, que qualquer dia desses vai acordar com mais descendentes turcos que alemães, o sanduichinho já faz parte da cultura local. Assim, não tem como ignorar a minha mais deliciosa referência ao termo kebab: um stand bem simpático na entrada de um supermercado da Dircksenstrasse, na frente do Starbucks, em Hackescher Markt, Berlim.

O dono do estabelecimento, um turco com a cara do deputado Frank Aguiar, corta pedaços de carne de cordeiro assado, num espetão que deixa qualquer churrasquinho grego parecendo tira-gosto. As lascas vão parar num pão sírio (também chamado pita – ops, agora tudo se encaixa), que é pré-tostado para ficar bem crocante. Também vai salada e molho à escolha (eu apontei para um branco). Também servido na versão “mit kase” (com queijo) a alguns eurinhos a mais. Uma saborosíssima refeição típica.

Horário ingrato – A pior coisa é chegar a qualquer lugar bacana carregando alguma expectativa – e a minha era elevadíssima. Como todo castigo pra pobre é pouco, decidi experimentar a casa, ao lado do meu companheiro de aventuras Narazaki, em uma terça-feira, quase meia-noite. Obviamente, nossa tradicional avaliação ficaria comprometida.

Ainda assim, vamos a ela. Quesitos.

Localização: ***BOM. Se eu morasse em Pinheiros, como a Lu Mastrorosa (que pode ir lá caminhando de pantufa), daria ótimo. Mas a rua Francisco Leitão, (número 282, quase na esquina da Artur de Azevedo), é um ponto acessível e muito tranquilo.

Ambiente: ****MUITO BOM. Nisso a turma realmente caprichou. De fora, o lugar parece um cantinho apertado, mas o clima é bem aconchegante. O bar e a cozinha ficam bem visíveis ali, e aos fundos, um jardim com pinta de quintal deixa a casa muito agradável. Mesmo tarde da noite, tinha gente (muito simpática, diga-se) no barzinho.

Atendimento: *****ÓTIMO! Esse fez toda a diferença. Um casal (certamente donos ou gerentes) fez a corte, com um sorriso, um “boa noite” e um “sejam bem-vindos”. Fomos servidos por um rapaz muito atencioso, que fez questão de explicar direitinho o que era o kebab chancliche (com queijo e tomate) e o falafel (massa de grão de bico). Aplausos.

Comes e bebes: **REGULAR. Ok, vamos dar um desconto, vai: que tipo de gente inventa de comer kebab na madrugada de terça-feira? É óbvio que os caras não estavam preparados. Eu estava doido para comer um lanche de carne, mas descobri que o cordeiro só é servido às quintas e sábados. Nos outros dias, o recheio é de frango, mas já tinha acabado. Restou o chancliche – pedido do Narazaki – e um outro sabor bacana, de abobrinha com coalhada seca. E abobrinha é comigo mesmo. O quitute é bem light, servido num pão folha (lembra um crepe à moda carioca, dobradinho como um envelope), e acompanha um molhinho de ervas. Tava bom, mas seria melhor com carne.

O cardápio também traz especialidades árabes, e para os amantes da cerveja, algumas marcas importadas como a uruguaia Norteña… Mas nós, babacas não-alcoólicos, estávamos falando em kebab, certo?

Sobremesas: ****MUITO BOM. Aqui temos uma virada espetacular. Meu pedido original era coalhada com frutas e mel, mas ouvi um “não tem coalhada”. Como também não tinha carne, fiquei injuriado. Optei pelo mesmo doce do Narazaki, a Torta Zebra. E me dei bem! A torta tem esse nome por ser “rajada”: camadas de biscoito doce (era maizena ou maria) alternavam a um delicioso creme de chocolate (o mesmo que vai na trufa, é chocolate derretido com creme de leite). E a cobertura, com esse mesmo creme, é caprichada. Nem senti falta da coalhada.

Preço: ***BOM. Na hora de pagar, ainda no calor da emoção, estava prestes a tascar um “regular” aqui. Onde já se viu pagar R$ 9,50 num crepe de abobrinha??? Mas o refrigerante a R$ 2,50 e a torta divina a R$ 5,50 tornaram a conta justa. Sem falar no serviço, no ambiente e na apresentação toda: até o meu café veio em uma xicrinha colorida!

Avaliação geral: ***BOM. Mas é um “bom” para dar estímulo, não para denegrir as coisas boas do lugar. Se tudo correr bem, ainda hoje vou ter a chance de dar um pulinho lá – e com a Lu! Quem sabe para comer o kebab com carne. Aí, das duas, uma: ou as muitas referências ao Pita Kebab Bar nos guias paulistanos transformam o lugar nesses points da moda, com filas chatas, e a nota cai (espero que não), ou eu como o sanduíche seguido de torta e a nota sobe.

E você, que tal sugerir algum cantinho batuta para a equipe não-especializada do Marmota Indica conferir? Aceitamos qualquer convite ou sugestão, desde que não seja Chico Hamburger.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Hmmm…

    Será que kebab aí é o que chamamos chawarma aqui? Igual vocês chamando arguille de narguilé?

    Se for, eu quero ir nesse lugar aí, comer kebab. Pode botar na minha lista. (Ah, abusada…)

    Beijão, boa semana.

  2. André, em 10 anos de amizade trabalhando nessa indústria vital, eu desconhecia essa sua paixão por abobrinha.

    Isso explica muita coisa…

    PS: Esse programa-gerador-de-pau-no-acento que você usa para escrever essas “Rapidinhas” já deu no saco. Dá até desânimo de ler! Eu até preferiria que vc escrevesse tudo sem acento mesmo até resolver o problema.

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