Joost e a misteriosa venda de convites

Muitos fatores explicam a expressão “sociedade de consumo”, e eu me enquadro em todos eles. Faço parte de um sistema onde o dinheiro não é tudo, mas é 100%. Ao mesmo tempo, à medida em que eu compro algum produto ou serviço que gosto, estou afirmando minha identidade perante meus semelhantes, além de contribuir para a feliz ciranda do crescimento econômico. Mesmo assim, alguns exageros ainda me surpreendem.

Vou usar como exemplo o telefone celular. Quando o negócio começou a funcionar no Brasil, em 1990, o antigo sistema Telebrás suportava um contingente de 10 mil usuários. Seja por necessidade ou por simples vontade de entrar na onda, era preciso gastar uma fortuna para comprar um – e por muito tempo foi assim. Então veio a privatização e a licitação das bandas de frequência disponíveis, até a popularização do brinquedinho. Hoje qualquer cururu pode comprar um aparelhinho – já existem 100 milhões de celulares habilitados no país.

Mesmo nos dias de hoje, ainda existem aqueles que carregam um telefone móvel por necessidade, além dos cidadãos que não vêem a hora de comprar o último lançamento – aquele que, entre tantas funções e possibilidades, pode até ser útil para falar com outra pessoa. Não importam as razões: o sujeito vai lá e gasta, mesmo sabendo que amanhã ou depois esse mesmo modelo (ou um semelhante) vai custar muito, mas muito menos.

Vou mais longe. Até onde nossa visão alcança, a tecnologia GSM é a mais moderna e mais bacana – tanto que a Vivo, que opera com CDMA, está migrando para o GSM. Mudança não apenas para conquistar mais clientes, mas especialmente para preparar o terreno para a tecnologia WCDMA, que pode aproveitar a mesma estrutura da rede GSM e ser implantada pelas operadoras a custos mais baixos.

Traduzindo: esse é o caminho mais curto para que o Brasil possa ver funcionando os celulares de terceira geração (3G), que promete altíssimas taxas de transmissão de dados e, consequentemente, uma pequena revolução nos atuais serviços. Pessoalmente, ainda não consigo imaginar quanto essa brincadeira vai custar quando for lançada. Tenho certeza de que, se eu não tiver necessidade alguma, posso esperar alguns anos antes de aposentar o meu aparelhinho velho de guerra. Mas garanto que vai ter muita gente gritando aos quatro ventos, bem antes de você: “meu celular é 3G!”.

Toda essa lenga-lenga para chegarmos à web. Não é preciso se esforçar muito para lembrar um ou outro serviço interessante, cuja “versão beta” de seu lançamento era para poucos eleitos, e que em pouco tempo, se popularizou entre os usuários. Evidentemente, é sempre muito legal ser um dos primeiros a experimentar a novidade, e especialmente acompanhar a evolução.

Foi assim com o Orkut, por exemplo. O que hoje virou aquele balaio de gatos já foi visto como uma febre do momento, praticamente uma “maçonaria online”. Hoje um convite para a brincadeira não vale uma pataca, mas em 2004 chegou a custar um dólar no eBay, ou dois reais no Mercado Livre. Fico imaginando a expressão de arrependimento de algum desses felizes compradores ao olhar pro Orkut hoje. Outro exemplo do gênero “até que ponto pagar para surfar no hype” foi o GMail (esse sim indispensável até hoje).

Agora anote aí a sensação da vez: Joost. Resumidamente: Niklas Zennstrom e Janus Friis, os mesmos criadores do Kazaa (que ao lado do Napster acabou com o modelo de negócio das gravadores) e do Skype (serviço que virou sinônimo de telefonia pela Internet), começaram a trabalhar num novo produto: o “Venice Project”. Isso foi no ano passado. Em janeiro deste ano, o negócio foi lançado oficialmente, com um novo nome.

E que josta é essa? É um programinha baseado em peer-to-peer (a mesma que sustenta redes de troca de arquivos) com um objetivo audacioso: transmitir sinal de TV gratuitamente via Internet, para toda a massa conectada. Enquanto eu ou qualquer outro usuário decide qual streaming assistir (não tem download de vídeo, é quase como ver TV “normalmente”), o serviço se mantém com material fornecido por canais tradicionais ou produtoras independentes, além dos anunciantes. Parece sensacional, mas para experimentar, por enquanto, só tendo convite.

Como pouca gente conhece o Joost, os bastidores da web tupiniquim ainda parecem tranquilos. Pedidos de convites em listas de discussão aumentam, mas ainda são cordiais – e gratuitos. No máximo, iniciativas bacanas como a do Fábio Seixas, que ofereceu uma camiseta a quem lhe desse um convite. Como não há qualquer previsão para o serviço ser aberto oficialmente ao público, pode apostar que algum espertinho vai repetir o que já foi feito lá fora, e você já sabe o que é: começa com M e termina com Ercado Livre.

Sabe o que vai ser curioso? Não vai adiantar avisar que, logo logo, o Joost vai ser liberado. Mais do que isso, a evolução das aplicações em vídeo na rede estão desenhando a IPTV, um negócio que ninguém sabe muito bem como vai ser – eu já imagino grandes centros cobertos com redes sem fio, transmitindo programas produzidos por pessoas como eu e você, diretamente para receptores similares a um PDA. Ou, porque não, um celular 3G – o que tornaria empresas de telecomunicações definitivamente em conglomerados de mídia, muito mais do que já acontece hoje. E vai ser uma delícia acompanhar e participar de tantas evoluções.

Não vai adiantar nada. Vão chover idiotas via Google perguntando se eu tenho convite do Joost pra vender. Mistério…

Para saber mais:

– Como funciona o Joost? Alexandre Fugita responde direitinho.

– Mais sobre IPTV: o Neto pergunta “quando é que vamos assistir TV pelo computador?”. Já o Marcelo Nóbrega tem certeza de que o impacto da TV via Internet será bem maior do que a TV Digital.

– Leituras talebãs: sobre telecomunicações e IPTV (em inglês)

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