Etiquetas e convenções sagradas nas relações humanas

Há algum tempo, participei de uma experiência antropológica muito curiosa. Pessoas em uma sala formaram um círculo, sentadas em cadeiras. Um professor escreveu adjetivos diversos em etiquetas adesivas e colou-as na testa de cada indivíduo, sem que o “rotulado” soubesse qual era. Feito isso, pediu para que todos conversassem, mas levando em conta o que estava na cabeça do interlocutor. Coisas como “preguiçoso”, “teimoso”, “tímido”, “pavio curto”, “surdo”… Em poucos minutos, o pau quebrou, sem que ninguém percebesse.

Sem querer, a gente acaba fazendo exatamente isso o tempo todo, mas sem o caráter antropológico. Muitas destas qualidades são facilmente perceptíveis. Outras, nebulosas, acabam surgindo graças a nossa experiência de vida limitada, nossas impressões vagabundas ou simplesmente a necessidade de preencher lacunas o quanto antes, livrando-nos daquilo que desconhecemos. Na prática, é como se eu colasse etiquetas na testa de cada cururu mentalmente. E no meu insano jeito de pensar, vez ou outra estas marcações determinam a forma como eu converso com as pessoas.

Sei que é errado, que isso não se faz, etc. Mas convenhamos: é humanamente divertido. Pessoalmente, eu adoro fazer isso…

É óbvio que os adjetivos ficam guardados apenas em minha mente. Vez ou outra até compartilho alguns desses com pessoas mais próximas, mas normalmente é com o simples intuito de fazer futriquinha barata e instantânea. Porque no fundo, tenho certeza de que não passam de etiquetas que só eu vejo. É perfeitamente possível rotular alguém como “maluco”, mas logo depois aparecer alguém e chamá-lo de “legal pra caramba”.

Na prática, o que isso significa? Você tem total direito de colar etiquetas em quem desejar, e se quiser manifestar qualquer reação pública (positiva ou negativa), informe o “rotulado”, direta ou indiretamente – pense que, dependendo da intensidade, isso pode atingir a liberdade de alguém ou configurar algum crime previsto em lei, mas essa é uma decisão bem pessoal.

Só existe uma contra-indicação no uso indiscriminado de etiquetas: acreditar nelas com tanta força a ponto de transformá-las em uma convenção sagrada. Quando você menos espera, alguém que até ontem era seu amigo, virou um plagiador, um interesseiro, um insano, um capitalista, um monstro, um pilantra, etc.

Num estágio avançado, suas novas convenções sagradas norteiam qualquer bate-papo de boteco. “Mas você não está vendo? Aquele monstro pilantra é um um plagiador interesseiro, um insano capitalista!”. Provavelmente, uns e outros vão até dizer que enxergam a mesma etiqueta que você – seja por pura amizade ou por falta de postura própria.

Enfim, da mesma forma, saiba que, neste exato momento, estão rotulando você! E provavelmente vão incomodá-los, especialmente se tentarem provar com todas as forças que se tratam de convenções sagradas. Se você adora uma discussão gratuita, tem tempo de sobra, disposição e muito sangue frio, continue o debate até o fim.

Agora, caso você queira viver um bocado, afaste-se e ignore todas elas. Vai te fazer um bem danado. E quem sabe, num futuro, essas mesmas figuras reapareçam com alguma etiqueta positiva. Coisas da vida.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. Muito obrigada pelo post. Coube tal uma luva. Quero comentar sobre o título da série — E eu, uma pedra. Este título me incomoda muito. É que, quando desesperada, tenho ideações de ser uma pedra imune às intempéries, parada, imutável. Não é um pensamento bom. Tenho muita força, aquela força estranha que Caetano escreveu para o Rei RC gravar. Esta me leva em frente, nos meus sonhos e ambições modestos.

  2. André,

    para mim, você vai ser sempre a pessoa que:

    1. não sabe soletrar “cerumano”; e

    2. provou que o importante para catar mulher é conseguir fazê-las rir. (ou era o contrário? Não lembro, mas o que quer que fosse, ficou provado)

  3. André:

    A Lu do blog Dia de Folga, indicou você e lá fui eu exprimentar fazer uma placa. Não ficou bonita que nem a sua.Rs!
    Gostei do seu texto. Infelizmente fazemos isto e temos a opção de mudar quando conscientes.
    Rótulos parecem próprios dos “sereshumanos”.

  4. Não é questão de gostar, ser contra ou achar que é certo ou errado. É algo inevitável.

    O ser humano simplifica para conseguir compreender e lidar com a complexidade. Quer algo mais complexo que uma pessoa? É difícil aceitar e conviver com a ambigüidade. A gente sabe que ninguém é bonzinho o tempo todo, mas é bem mais fácil classificar as pessoas com umas poucas “tags”, assim sabemos como devemos nos relacionar – ou não – com elas.

    Eu uma vez sugeri a um amigo um projeto de software de tags para pessoas em blogs, orkut, etc. Aberto, para que os outros construíssem “tag clouds” sobre você. Acho que seria um projeto audacioso e polêmico, no final das contas ninguém ia querer usar e descobrir o que os outros realmente pensam…

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