Essa porcaria chamada blog

Esses dias reencontrei meu irmão gêmeo Adilson, em mais uma empolgante etapa do nosso torneio interno de boliche. Mais magro e disposto, o rapaz que um dia criou o saudoso Final do Fuzo estava como sempre: acostumado a observar o mundo e estabelecer pontos de vista de forma estritamente emocional, transformando seus conhecimentos e julgamentos em conselhos. Num impulso natural, transmite todos eles com muito afinco, deixando sua marca pessoal por todo lugar onde passa. E foi assim nesse rápido diálogo que tivemos:

– Cara, você precisa parar de imaginar coisas e ficar perdendo seu tempo com coisinhas.
– Como assim?
– Quero dizer que você precisa aproveitar melhor o seu tempo livre e parar de inventar bobagem.
– Peraí, Adil. Eu aproveito muito bem o meu tempo livre!
– Sei… Percebo isso… Pelo seu blog! (emendando com um sorriso irônico)
– Pô, Adil, você sabe perfeitamente que eu não perco tempo com ele! Praticamente tudo que eu coloco lá é feito com antecedência, num fim de semana…
– Tá vendo? Devia aproveitar melhor o seu dia de descanso! Cara, você trata as imagens, faz desenhinhos… Para de pensar naquilo! Todo dia você fica com a obrigação de escrever alguma coisa…
– Não é bem assim… Já fiquei alguns dias sem escrever nada.
– Claro… Uns dois dias! Hahahahaha!

Poderia ficar horas argumentando com o Adilson, salientando a importância que eu dou para este espaço e fazer questão de lembrar que existe vida fora dele. Felizmente, conheço bem o meu amigo. Tanto que costumo ouvi-lo, não apenas por saber da sua capacidade: sei o quanto ele se esforça para ter seu talento e dedicação reconhecidos e, com isso, manter sua auto-estima lá em cima.

Agradeço ao fato do Adilson ser um sujeito compenetrado e, ao mesmo tempo, não ter lido este artigo de Luís Antônio Giron, que define blogs como sendo insetos, elementos sem cérebro que se espalham pela grande rede. Se ele estivesse de mau humor e com vontade de usar alguns trechos do ensaio, publicado na Revista Bravo em 2002 e agora no Digestivo Cultural, talvez o nosso diálogo ficasse um tanto quanto ríspido:

– Cara, você ainda perde seu tempo com aquela porcaria?
– Como assim?
– Quero dizer que o seu blog, assim como todos os outros, são como baratas internet adentro, inclusive com cérebro de inseto! (emendando com uma cara amarrada)
– Peraí, Adil. Sei que não sou nenhum Luís Fernando Veríssimo, mas não se esqueça da liberdade de expressão…
– Sei… Percebo isso… Tanto você quanto outros manés que ficam blogando o dia todo, morando na rede, transmitindo notícias e boatos, exaltando o palavrão e a gíria, embaralhando expressão com opinião e diálogo, correndo o risco de degenerar em monólogos lunáticos!
– Pô, Adil…
– Pô o cacete! Você se esconde atrás de um apelido, como as garotas ousadas dos anos 90… Igual aqueles que usam essa máscara para enxovalhar a vizinhança. E quer saber? Estes se tornam os mais visitados. Acho ruim quando alguns faltam com a ética. Mas talvez o que mais falte a esse bando é talento!
– Minha nossa…
– Relaxe, não é o seu caso. Aquilo não passa de um blog feito por um jornalista responsável, que aliás, percebeu que se daria bem ao olhar a concorrência nerd…
– Tá bom, Adil. Já entendi. Mas você sabe que eu sou teimoso e…
– Sabe também que a internet jogou os meios de informação na vala comum, o livre pensar trouxe fatos cada vez mais bizarros e a realidade perdeu o pé no universo virtual. Vai chegar a hora em que talvez tenhamos de nos converter em gonzos e nos aturarmos uns aos outros…

Pode ser que o Adilson nunca atinja esse grau de mau humor… Mas antes que ele (ou qualquer um) venha discutir a utilidade deste espaço, é bom lembrar que estamos todos descobrindo como isso funciona, aos poucos. Sem falar que, não fosse por ele, talvez jamais pudesse conhecer amigos, entre outras pessoas maravilhosas. Ou ainda em relações profissionais, que ajudam a pagar as contas da casa. Culpa dessa “porcaria”…

(Postado em 25/08/2003. Felizmente, essa imagem parece ter mudado um pouco. Atulizado: o Julio Daio Borges avisa: o Giron hoje tem um blog. Sinal que a imagem realmente deve ter mudado mesmo.)

André Marmota pode perder um grande amor, um amigo de longa data ou uma oportunidade de trabalho... Mas não perde a piada infame. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (14)

  1. Não subestime o meu poder de ser mal-humorado, rapaz!Aliás, se eu fosse você, eu aproveitaria melhor o tempo livre lendo a Bíblia Sagrada, que é muito mais construtiva!

  2. Marmota, o meu irmão que era contra blogues (daqueles jornalistas clássicos – ehehe) já foi corrompido pela força :-)Agora ele tá numa média de 1.3 posts por dia. Nada mal :-)

  3. Aee, moço! Defendendo a “catigoria”! Muito bem! Além disso, como é que tanto jornalista desempregado vai desopilar o fígado? Escrevendo blog, oras! Beijos! :)

  4. Eu nem falo nada, tenho trocentos blogs. É complicado dar conta de todos eles.Garanto uma coisa, não troco nenhum programa legal para ficar escrevendo em blog. Afirmo que quando a gente quer, há tempo para tudo. Como vc citou, as amizades que fiz e estou fazendo já vale por qqer. crítica que façam. Bjocasss…

  5. Será que o Adil curte calhau? :P
    Como cantaria o Lello… “Que legal, é calhau, pega no meu pé…”

  6. Buenas, como eu só li em 2007, vai um comentário de 2007. :p

    A imagem mudou, sim. Um pouco. Ainda conheço muita gente que acha graça quando digo ter um blog. E ainda por cima falam gracinhas quando digo que leio blogs. O pessoal, na maioria, ainda não descobriu o que é isso. E o que é pior, esses ae são aqueles que usam internet para MSN, Orkut e nada más. Ou seja, não têm a mínima noção do que é internet e do que é possível fazer com ela (ou através dela).

    Abração!

  7. Putz, eu sou viciada no meu blog (tanto é que já tive 3!). Muitas vezes imagino que eu não tenha foco definido para criar um conteúdo diferenciado, e assim gerar mais visitas (rs). Entretanto eu cresço a cada dia com meu blog, refletindo, conhecendo pessoas, descobrindo que eu posso ser uma pessoa melhor. Enfim, se há algum benefício para quem faz o blog, por que não continuar? Inclusive achei até bem underground o termo ”baratas da internet”… rsrsrs… soa meio rebelde, né?

  8. Aproveito e muito bem meu tempo livre… e o que eu faço no meu tempo livre posto no tempo que sobra no meu blog… faço dele uma espécie de diário… e fica até legal, pra discutir com amigos e tals.. sobre os comentários que deixaram, sobre o que aconteceu…

  9. Marmota, é um pôbrema ser blogueiro!
    cada qual com seu cada qual…rsss
    a gente vai fazendo grandes amigos, que se tornam presentes e passam a fazer parte do nosso dia a dia, mesmo aqui, com muita gente que chama isso de porcaria!!!
    Já escutei cada uma, que vc nem imagina…
    – vc,na sua idade ?//ficou doida desta vez… como se expõe…
    coitada das filhas…
    Mas, não abro mão do meu espaço, de vc, e de ninguem ….
    bjos

  10. Posts sobre blogs costumam suscitar bons comentários, como disse a Marília, é cada qual com seu cada qual…rs.

    Mas e não é que muita coisa mudou de 2003 para cá em relação aos blogs? Comecei a blogar em 2004, mas até hoje não me assumo blogueira na rua, não sei, devo ter meus motivos ;)

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