Dois anos sem Telê Santana

Em 1994, vivia apaixonado por uma menina que, além de me desdenhar, era são-paulina fanática. Desde aquele tempo era troux… quer dizer, era capaz de qualquer coisa pra ficar perto dela. Até mesmo acompanhá-la, junto com outros amigos ao então badalado centro de treinamento do São Paulo, na Barra Funda.

Aquilo vivia lotado de gente atrás de autógrafos e fotos do Cafu, Zetti, Caio, Pavão, Axel, Válber, Júnior Baiano… Elas têm gosto pra tudo. E eu, uma pedra.

Mas enfim, há males que vem para o bem. Não fosse meu jeito loser de ser, jamais teria a chance de tirar esta foto.

Ao lado do garoto de franjinha, um sujeito ainda mais teimoso, mas inegavelmente um dos melhores técnicos de futebol que este país já viu. Sujeito linha dura, impunha respeito e disciplina a seus comandados. Os mais tarimbados juram que o “controle” era parecido entre os colegas de imprensa.

Não importa: ele era exigente, mas não à toa – mesmo se chegarmos a linha que divide o fato e lenda. Bastava um de seus jogadores reclamar que “é impossível chutar e mandar a bola exatamente onde você quer”, Telê voltava aos tempos de ponta-direita e fazia, exatatamente o que pediu. “Agora faz você”, completava ao boquiaberto boca-aberta.

Defensor ferrenho do “futebol-arte”, foi pego de jeito pela injustiça em Sarriá, em 82, e pelo cansaço de seu escrete em Guadalajara, quatro anos mais tarde. Para sorte dos são-paulinos, Telê era teimoso: em 92 e 93, não deixou escapar os títulos mundiais que lhe faltavam.

No dia 5 de dezembro de 2003, mesmo debilitado pela isquemia cerebral, Telê Santana voltou ao Morumbi, e foi merecidamente homenageado pelo clube que lhe deve os melhores anos de sua existência. Num país que só costuma celebrar o feito de seus ídolos quando estes já não estão mais entre nós, podemos dizer que até nisso Telê foi imbatível.

Lembro que estava no plantão da redação na manhã daquele 21 de abril de 2006, e apesar da internação por um mês e da iminente tragédia, o baque foi forte. O momento são-paulino era especial (até a final contra o Inter, lógico): tanto antes quanto depois de sua morte, a torcida tricolor, embalada com o desempenho de sua equipe tricampeã na Libertadores, ecoava “olê olê Telê Telê”.

Se eu lançar uma rápida enquete por aqui, questionando qual foi o melhor treinador do Brasil, certamente vão lembrar que Telê jamais conseguiu um título mundial com a seleção brasileira, ao contrário de Zagallo, Parreira e Felipão, nem mesmo alguma unanimidade pelas equipes que passou, como Ênio Andrade ou Luxemburgo. Não importa: mesmo não sendo Tricolor, só o fato do escrete de 1982 ter existido já é suficiente para dizer, outra vez: obrigado, Telê.

Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. Pois é.
    Sobre a fotinha: coisa linda da mamãe… o Telê! :P
    Quanto ao Telê: infelizmente, hoje em dia, o “grande ídolo” do futebol no São Paulo, atende pelo nome de Rogério Ceni. Saudade dos tempos de Telê.
    Quanto a 82, vão me linchar, mas vou dizer mesmo assim: Ah, André, eu prefiro quando a seleção traz a copa, sabe? :P

  2. Eu estava na redação contigo naquele sábado, André. Pô, já faz dois anos???

    Telê é eterno. Mestre. Estará sempre em nossos corações tricolores.

    Saudade.

  3. Eu não tenho foto, mas tinha uma camiseta autografada pelo Telê. Hoje meu pai usa a camiseta para jogar bola na fazenda e eu tento repetir o mantra “desapegue e liberte sua alma”. Bons tempos de passar as férias no CT.

    Saudades do meu time em 92/93. Saudades de Telê. Saudades da minha paixão adolescente pelo tricolor.

    E eu também prefiro quando a seleção traz a copa.

    (Um comentário não tão off-topic: como morre gente no 21 de abril, né? Tiradentes, Tancredo, Telê, minha avó…)

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