Do jeito que o “uruguaio” imaginou, de novo

Tudo bem, você já leu ou ouviu essa história algumas mil vezes. Mas não custa nada repassá-la rapidamente. E se você nunca ouviu falar, ou jamais teve a curiosidade de perguntar, saiba que nem sempre a seleção brasileira jogou de camisa amarela, esse verdadeiro símbolo encrustado na nossa identidade nacional. Até 1953, o Brasil entrava em campo de branco. Bom, a derrota para o Uruguai em pleno Maracanã, em 1950, colocou o pobre goleiro Barbosa e a cor do uniforme como grandes culpados pelo fracasso (já posso ouvir alguns “hahaha” ao fundo).

Em 1953, o jornal carioca Correio da Manhã lançou um concurso, com o apoio da Confederação Brasileira de Desportos, para a escolha de um novo traje para o escrete nacional. Uma única exigência: as cores deviam ser as mesmas da bandeira brasileira. A notícia chegou aos ouvidos de um jovem e talentoso chargista, de 18 anos, que morava em Pelotas, Rio Grande do Sul.

Seu nome: Aldyr Garcia Schlee. Nasceu em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai. Como ainda não havia BR 116 nos anos 30, Porto Alegre era um outro mundo se comparado ao país vizinho. Assim, conheceu o futebol através dos periódicos do país vizinho, transformando-o, ironicamente, num torcedor da Celeste Olímpica! Enfim, Aldyr Schlee mudou-se para Pelotas, onde fazia charges para o bom e velho Diário Popular e, anos mais tarde, se tornaria escritor, jornalista e professor.

Enfim. Durante três dias, testou várias combinações com as quatro cores possíveis. Achou a maioria delas um exagero, mas enfim. Um dos três desenhos que Aldyr Schlee enviou ao jornal carioca era de uma exuberante e agradável simplicidade: um atleta durante um jogo vestindo camisa amarela lisa, com alguns detalhes verdes na gola e nas mangas, calção azul com detalhes brancos, e meias brancas.

Aqui, um adendo histórico. Por pura coincidência, o uniforme bolado por Aldyr Schlee lembrava o de um dos três times da cidade: o Esporte Clube Pelotas, cujas cores são justamente o amarelo e o azul, usados respectivamente na camisa e no calção. Por isso, o Pelotas é chamado por sua torcida de áureo-cerúleo – eu, e certamente muitos aficcionados do Lobão, só conseguimos falar “celúreo”. (Sei que você não perguntou, mas os outros dois são o Brasil e o Farroupilha).

Mas voltando. O desenho foi publicado no dia 15 de dezembro de 1953 no Correio da Manhã, com o texto “Este é o novo uniforme da Seleção Brasileira”. Aldyr Schlee faturou uma graninha e um estágio no jornal carioca. Ao mesmo tempo, criou um ícone facilmente identificado em qualquer canto do planeta, graças ao caminho de conquistas que a seleção brasileira seguiu a partir dali. E nesta semana, num lampejo de bom senso do fabricante, tivemos a feliz notícia de que a camisa do Brasil na Copa será um resgate às suas origens.

Pena que vai custar 170 dinheiros.

Antes e depois da Nike – De lá pra cá, a camisa passou incólume até os anos 80, quando a Topper fez a primeira grande mudança na camisa: tascou o novo brasão azul da CBF com a tacinha Jules Rimet e um raminho de café. Foi assim até o ano do tetra, em 1994, quando a Umbro seguiu o tom carnavalesco das camisas daquela Copa: em alusão ao tricampeonato, meteu três brasões dourados sobrepostos. Eu confesso: talvez por causa da conquista do título, aquela camisa era ficou até jeitosinha.

A imagem de cima é da ZDL. A de baixo, da Reuters.
Acima, as cinco criações da Nike: falta a bola de bilhar na última. Abaixo, jogadores das oito seleções da Nike que estarão na Copa desfilam seus novos modelitos no Estádio Olímpico de Berlim. E o rosinha da Coréia continua.

Em 97, a nova parceira da seleção brasileira lançou seu primeiro uniforme, bem parecido com a versão lançada essa semana. Para o Mundial de 98, a camisa ganhou frisos verdes nos ombros e nas mangas – era bonita, também. Já os modelos que saíram a partir de 2002 deixaram até o Aldyr Schlee envergonhado. Numa atitude desleixada da Nike, todas as suas seleções foram “pasteurizadas”, com os mesmos estilos e cores alternativas – quem não torceu o nariz para o amarelo-ovo-pouchet do Brasil, o vermelho-água-no-guache da Bélgica ou o verde-de-papel-crepon da Nigéria? O cúmulo veio em 2004, quando o distintivo foi para o meio e o número, na barriga, lembrava sinalização de trânsito.

Dessa vez, todas as “seleções Nike” no Mundial terão uniformes que remetem sua história particular. Destaque para o belo vermelho escuro de Portugal – que ganhou segundo uniforme preto, como antigamente – e as curiosas meias azuis da Holanda – cujo uniforme dois, branco com duas faixas, vermelha e azul, certamente será um dos mais cobiçados.

E você, o que achou da camisa da seleção brasileira?

O vermelho alemão – Você já me viu aqui usando a camisa vermelha da Alemanha, adotada como segundo uniforme pelos anfitriões da Copa desde o final de 2004. Na Copa das Confederações, inclusive, os alemães enfrentaram o Brasil nas semifinais de vermelho. Apesar do vermelho existir na bandeira do país, a seleção tradicionalmente entra em campo com camisas brancas e calções pretos – ou, como na final de 1986, com camisas verdes e calções brancos. Em outras ocasiões, o time entrou em campo com camisa preta.

Mas para o técnico Klinsmann, que aposta não apenas em uma base mais jovem como em um estilo mais ofensivo (mesmo em um time com Ballack e mais dez), o vermelho serve para mostrar respeito e apresentar essa postura antes mesmo da bola rolar. Do jeito que seu trabalho vem sendo questionado pela torcida, técnicos e, indiretamente, pelos próprios dirigentes, o campeão do mundo em 90 vai precisar de todo o vermelho que conseguir.

Voltando ao “Canarinho” – O melhor texto que contou a história acima foi publicado em julho de 2004, pela finada Revista 10, da Conrad. A matéria, que contava a história da camisa amarela, foi assinada pelo jornalista inglês Alex Bellos, autor do livro “Futebol – o Brasil em Campo”. Que, inclusive, traz na capa os desenhos de Aldyr Schlee.

Aliás, desde o passamento da Revista 10, temo pela qualidade das revistas relacionadas ao Mundial, especialmente em ano de Copa do Mundo. A maioria delas, infelizmente, virá com o único propósito de aproveitar a ondinha e faturar uns trocados. Conteúdo? Bah.

Craques poliglotas! – Descobri essa no Satélite: o site de serviços e entretenimento da Microsoft MSN lançou recentemente uma área exclusiva sobre o Mundial, onde além de notícias você encontra blogs de jogadores que estarão em campo na Alemanha: o inglês Michael Owen, o holandês Edgar Davids, o francês Claude Makelele, o alemão (nascido no Brasil) Kevin Kuranyi, o espanhol Xabi Alonso, o goleiro italiano Buffon e do melhor jogador do mundo, Ronaldinho Gaúcho. O mais interessante: todos em português!!! Bom, também dá pra ler os comentários do craque brazuca em espanhol, em italiano, em alemão, em inglês, em francês e até em holandês! (puxa, deve ser difícil pra ele escrever o mesmo texto em tantos idiomas, né?) :-D

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (8)

  1. Cara, logo que eu vi a camisa, vibrei. Comentei com todo mundo que vi ontem (a Silvana ficou até sem graça!) como aquela camisa é a mais bela que eu já vi a seleção vestir…

    Eu achei a camisa linda linda linda.

    Quanto à camisa vermelha da Alemanha, eu achei-a muito bonita tb. Mas nenhuma delas é mais loka que a da holanda laranja. É a minha predileta!

    E corrente pra frente contra a recuperação de Cafu pra copa – Queremos Cicinho!

    Um abraço!

  2. Eu gostei muito da camisa nova. Compraria fácil uma pirateada de 30 reau.

    Também me agradou o fato da Nike ter personalizado as camisas de casa seleção. A Adidas manteve o padrão único. Tá bonito mas tá impessoal.

    Eu, como tradicionalista, preferia a segunda camisa alemã verde. Mas a vermelha está bonita. Não custa lembrar que as equipes alemãs nos demais esportes coletivos (vôlei, basquete, hóquei na grama e badminton, por exemplo), sempre usaram uniformes vermelhos.

    Btw, as duas camisas brasileiras mais feias de todos os tempos são, respectivamente, a do tetra e a do penta. Tomara que esta nova seja mesmo a do hexa.

    Por fim, eu preferia as meias holandesas em laranja.

  3. Foi bom salientar “pura coincidência” ao fato da camisa ser parecida com a do timeco de 2° divisão da avenida. Jamais o sr. Aldyr (que eu conheço muito bem) comporia as cores do uniforme baseado nesse timinho nojento e ridículo, essa farsa que chamam de “lobo”.
    Saudações rubro-negras!

  4. MASSA PARA CARANBA BEM ORGANIZADA, E ALEM DO MAIS E O UNICO PAÍS QUE CARREGA NO PEITO CINCO ESTRELAS.É POR ISSO QUE ELE TEM QUE SER MAGINIFICO

  5. Vou ser bem sicero concernente a camisa da seleção brasileira!
    Não gostei, ela tem tudo pra ser mais bonita com mais detalhes na frente, nas mangas e nas costas.
    Sei q vcs tem potencial pra mudar o modelo, desde já deixo meus parabens a vcs.

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