Diga sempre tudo o que precisa dizer

Pedrão acordou cedo para mais um dia de trabalho. Estava se readaptando a empresa mantida por seu pai e seus irmãos: enquanto a maioria põe a mão na massa no plantio de arroz, ele cuida da manutenção dos veículos e equipamentos agrícolas. Motivação não falta a Pedrão, especialmente após seu insucesso político: tentou por duas vezes se eleger vereador na cidade.

No final da tarde, entusiasmado com sua nova fase, deixou o irmão mais velho em sua casa. Aproveitou para cumprimentar a vizinhança, todos velhos conhecidos. Pedrão é um daqueles sujeitos que não precisam se esforçar para marcar presença: além de corpulento, é muito carismáico e brincalhão.

Chegou em casa, deu um beijo na esposa e tentou ligar para o filho mais velho, que está servindo no quartel. Sem sucesso: o celular deve estar longe dele. Também tem saudades da mãe, com quem morou boa parte do tempo – inclusive depois de casado. Decidiu telefonar para ela após deixar a filha, mais nova, em uma festa. Prometeu buscá-la as dez da noite.

Conseguiu falar com a mãe antes de buscá-la. Garantiu que estaria na casa dela, ao lado de toda a família, no final de semana. Antes de desligar, reiterou o “eu te amo” dito a ela nos últimos 46 anos. Aproveitou para discar novamente para o filho. Caixa postal, por três vezes. Saiu para pegar a menina logo depois do jantar – uma saladinha, faz parte do regime.

Voltou, desejou boa noite para a família e foi se deitar. Durante a madrugada, porém, sentiu-se mal. Uma estranha ardência, parecia vindo do estômago. Nunca sentiu algo assim. Preocupação suficiente para acordar seu médico – o mesmo que o acompanhou nos diversos exames feitos recentemente. Pegou o carro novamente e seguiu direto para o consultório.

Chegou tranquilo, questionando o mal-estar. Minutos depois, a fisionomia do médico havia mudado: detectou uma mudança forte nos batimentos cardíacos. Correu com Pedrão para o pronto-socorro. Sabia que cada minuto era importante para impedir um infarto agudo do miocárdio.

As estatísticas revelam que, a cada 100 vítimas de infarto, apenas 60 chegam ao hospital com vida.

No início da manhã, o filho mais velho de Pedrão foi acordado por um sargento mal-humorado. Vamos, rapaz. Acorda e levanta, porque o teu pai morreu. Arregalado, pediu para não brincar com uma coisa dessas. E ouviu um “não estou brincando”, antes de verificar uma dezena de chamadas não atendidas no celular.

Chegou ao cemitério após o meio-dia. Ele, a família e milhares de pessoas, admiradores, eleitores – jamais tinham visto aquele lugar tão cheio. Todos perplexos. Incrédulos. Assim como eu, quando soube. Uma pedra.

Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados. Por que tudo que é vivo morre. – Ariano Suassuna

Esse pode ser o último dia de nossas vidas
Última chance de fazer tudo ter valido a pena
Diga sempre tudo o que precisa dizer
Arrisque mais pra não se arrepender
Nós não temos todo o tempo do mundo
E esse mundo já faz muito tempo
O futuro é o presente, e o presente já passou

Não deixe nada pra depois
Não deixe o tempo passar
Não deixe nada pra semana que vem
Porque semana que vem pode nem chegar
– Pitty

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (3)

  1. Grande Pedrão. Mais forte que ele, só o negão daqui do bairro que levou dois tiros no peito e ainda saiu correndo furioso atrás de seu quase-assassino.

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