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Desvendando o Internauta-padrão, parte 5: o reacionário

No livro “The Salmon of Doubt”, que traz uma coletânea de textos e pensamentos do genial escritor inglês Douglas Adams (famoso graças a sua “trilogia de cinco livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias), há uma explicação perfeita para a reação humana diante do novo.

Tradução livre: “Qualquer coisa que está no mundo quando você nasce é normal, corriqueiro, apenas uma parte natural de seu princípio de funcionamento. Qualquer coisa inventada entre os seus 15 e 35 anos é algo novo, excitante, revolucionário e que certamente você seguirá carreira. E qualquer coisa inventada após seus 35 anos vai contra a ordem natural das coisas”.

Generalizações à parte, Douglas Adams vislumbrou com exatidão como reagem boa parte dos usuários neste vasto mundo de informações. Pessoas que vieram ao mundo nos últimos doze anos não conhecem um mundo sem Internet, e certamente serão conduzidos por caminhos menos tortuosos em relação aos pioneiros – que mesmo nos dias de hoje ainda encontram obstáculos e conflitos éticos.

Outra leva de gente, acostumada com o antigo padrão de consumo midiático passivo, reagiu como se “tudo que existia em seu tempo era infinitamente melhor”.

Quem é o Internauta-padrão reacionário?

Então a linda mocinha decide fazer estripulias com o namorado na praia, sem saber que um paparazzo serelepe registrava tudo em vídeo. Graças à força da comunidade interligada, as imagens circularam a rede como rastilho de pólvora, de maneira incontrolável. Só que ao invés de comemorar o feito com os amigos, o namorado acionou a Justiça. Resultado: a sentença de Reacionário 2, baseada no pedido do Reacionário 1, mandou fechar o maior site de vídeos da Internet. Gênio.

Do outro lado do mundo, o cantor e compositor britânico Reacionário 3 desabafou. “Essa tecnologia toda é uma desgraça para a música. As pessoas se divertem em suas casas e criam suas composições sem uma visão consistente de futuro. E ainda publicam isso em blogs! Depois as pessoas decidem baixar as músicas ao invés de comprar CDs… Devíamos sair às ruas e marchar, protestar ao invés de ficar na frente do monitor! Vamos acabar com a Internet! Vamos recuperar nossas relações e acabar com a destruição da música! Vamos fechar a Internet por pelo menos cinco anos”. Outro gênio.

Voltando ao nosso país, o Congresso Nacional observa com muita atenção toda movimentação criminosa em todos os cantos, inclusive os virtuais. Pensando nisso, o senador Reacionário 4 teve uma idéia genial: seguir os passos da China, do Irã e de outros países com total liberdade de comunicação, exigindo identificação obrigatória de todo usuário da rede, além de armazenar todo o registro de acessos para eventuais checagens de ilegalidade.

Nada muito anormal, já que Arthur Virgílio, seu colega de bancada chegou a discutir na mesma época as ameaças de uma empresa contrária aos interesses da nação. Seria pertinente, não fosse apenas uma campanha publicitária disfarçada. O parlamentar caiu graças a uma notícia publicada sem a devida checagem pelo jornalista Reacionário 5. Ao invés de admitir a mancada, escreveu: “Uma brincadeira de mau gosto! Deviam tirar esse negócio do ar e pedir desculpas ao povo!”. Todos gênios.

Características do Internauta-padrão reacionário

– Como a própria palavra define, é contrário a tudo que rompe com a continuidade histórica de nossa sociedade.

– Assim sendo, é contrário a tudo que vai contra a “ordem natural das coisas” (Douglas Adams), isto é, o novo.

– Sendo contrário, reage com pulso firme, defendendo seus pensamentos com toda força possível.

– Entre as formas mais comuns de defesa, está o “você não sabe com quem está falando, tenho longos anos de experiência em…”, referindo-se a alguma função majoritariamente analógica.

– Normalmente, utiliza-se de idéias arcaicas, podendo culminar com extrema carga de preconceitos.

– Em grau máximo, defende a pena de morte, a tortura e a censura prévia. De qualquer coisa.

Eu sou um Internauta-padrão reacionário!!! E agora???

Resumidamente: se não há realmente a menor chance de absorver novas idéias, relaxe: existem pessoas como você por aí. Para encontrá-las, escreva milhares de cartas, envie para uma mala direta e aguarde respostas via correio. Em poucas semanas, você poderá reunir um grupo, elaborar um fanzine ou periódico, rodá-lo em uma máquina linotipo e executar um brilhante e truncado método de distribuição usando caminhonetes.

Mas antes, faça uma experiência: converse com seu filho adolescente, seu sobrinho precoce ou qualquer criança portadora de celular ou ipod. Deixe-os falar abertamente sobre seus hábitos de consumo, fontes primárias de conteúdo e interação em redes sociais. De repente, pode surgir uma louca vontade em converter seus CDs de música clássica em um único DVD ou Memory Card com arquivos MP3… Já é um bom começo.

Com um pouco mais de tempo, você pode encontrar alguma empresa engajada com as novas mídias, mas que ainda são obrigadas a executar planos e tarefas semelhantes às “do seu tempo”, em busca de resultados a curto prazo. Esta pode ser uma experiência reveladora: vivenciar um período em que parece possível implementar os mesmos modelos de negócio existentes fora da rede, e de repente, sentir o baque de uma provável quebra de paradigma. Quer melhor tratamento de choque?

Por fim, uma última obviedade: lembre-se de jamais subestimar a força da massa conectada antes de impôr qualquer definição ou regra.

Na parte 6: o scanner.

***

No último final de semana, uma iniciativa muito bacana agitou a rede: o Movimento Blog Voluntário contou com 470 participações: cada um deu sua contribuição aos usuários iniciantes, com dicas e informações preciosas aos marinheiros de primeira viagem. Dê uma passada no Technorati e confira algumas delas.

Ainda que eu tenha perdido o prazo para inscrição, fica o recado: se você conhece alguém que pode vir a ser um potencial Internauta-padrão, recomende este ou mesmo algum dos textos anteriores:

Parte 1: o Internauta-padrão crente

Parte 2: o Internauta-padrão plagiador
Parte 3: o Internauta-padrão estrela
Parte 4: o Internauta-padrão justiceiro

Comentários em blogs: ainda existem? (6)

  1. hehehe, muito legal. O pior é que encontramos várias dessas criaturas rondando pela internet, tentando absorver algo que não vão entender nunca. Elton John é um cara que não consegue entender a nova realidade. Embora eu prefira comprar um cd do que baixar um mp3 e o último disco dele esteja muito bom, se não houver uma adaptação no modelo de negócio da industria musical, a coisa vai para o ralo logo. Isso é complicado, pois de uma maneira ou de outra, precisamos da industria para investimento em novos talentos.

    P.S. eu fiz muito fanzine de xerox em minha juventude, hehehehehe.

  2. Cuidado, Marmota. Porque este texto é subversivo. Nós temos seu IP, seu nome, seu endereço e sabemos onde você está agora. Não pense que você ainda está em 2008, quando qualquer moleque idiota que pensa que sabe tudo podia escrever qualquer coisa, sem ser devidamente julgado e condenado. Agora, SR. André, as coisas são diferentes. Você teve a ousadia de ser irônico contra nobres senadores desta nação, e falou de modo pejorativo contra jornalistas de veículos respeitados e considerados. Acho melhor olhar para o lado, sabemos muito bem quem você é. Nossos atiradores de elite gostam muito de “brincar” … com moleques subversivos que pensam que sabem demais.
    Poderia mandar te prender, filho, mas sou condescendente com pessoas que não tiveram sequer um oitavo do tempo de experiência que eu tive trabalhando com imprensa e comunicação social. Mas acho melhor entrar em contato comigo, porque nem eu nem boa parte das outras pessoas que cuidam dos interesses desta justa e boa pátria estamos mais dispostos a continuar permitindo que pessoas como você continuem em liberdade prejudicando os nossos mui valorosos jovens que venham a ler semelhante porcaria.
    Liberdade de comunicação é coisa do passado, marmota. Se duvidar, é só ler os jornais atuais e conferir como estamos melhor agora que adotamos estas restrições.

    Marlon

  3. Ah, Marmota… mas se o sujeito é reacionário mesmo, daqueles xiitas, muito provavelmente não será internauta. Só de usar a internet pra alguma coisa o moço já mostra que não é tão reacionário assim, né?

  4. Me perguntei um dia desses sobre como estaria o andamento de um novo episódio. Isto é quase um trabalho de pesquisa universitária.

    Mas sério mesmo, esta descrição de perfis, com um pouco de amostras e embasamento teórico, vai se mostrar totalmente verídica.

    Que venha o internauta-scanner.
    =)

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