Da minha vontade de ser pai

Ainda tem quem se surpreenda com esses encontros que começam casualmente pela Internet e acabam durando uma vida inteira. Mais distante ainda é lembrar que, antes dos bits trocados por computadores, laços parecidos eram constituídos via ondas eletromagnéticas.

Meg Ryan que o diga. Antes de dar um beijo apaixonado em Tom Hanks em Mensagem pra Você após encontrá-lo na AOL, fez o mesmo anos antes ao ouvi-lo num programa de rádio em Sintonia de Amor.

Longe dos roteiros de Hollywood, temos a impressão de que a vida escreve histórias ainda mais surpreendentes. Quem poderia imaginar que um desses pedidos apaixonados em ondas curtas seria capaz de dar ao velho Alencar Antunes, casado com a “tia” Maria, um final de vida tão triste quanto sua existência, mas ao menos digno?

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O tal “recadinho do coração” foi propagado no início dos anos 90, mas é preciso voltar às primeiras décadas do século passado para entender o contexto. Os caminhos abertos entre Pelotas e cidades próximas como Canguçu, Bagé e Jaguarão mudaram a vida de famílias consolidadas naqueles campos. Houve quem montou armazéns ou entrepostos, mas também casas à beira da faixa que sempre representaram um mistério – especialmente num ambiente em que todos se conheciam e se tratavam pelo nome das famílias. Era o Rui dos Maciel, a Helena dos Peter…

E haviam os “filhos do pequeninho”. Sabia-se que mantinham um paradouro na estrada, mas nunca exatamente o que ofereciam aos viajantes que passavam por lá. Ou vai ver que sabiam, mas evitavam falar para não chocar as famílias.

Pensando bem, talvez comentassem sim, carregando nas tintas e dando corpo a um ambiente ainda mais impróprio para menores do que, de fato, era… Mas enfim, o fato é que uma das “filhas do pequeninho” era também a mãe do Alencar.

A então Mariazinha nem desconfiava, mas provavelmente chegou a acenar para o jovem Alencar uma ou duas vezes, quando era incumbida de tocar as vacas de casa para o arroio do Passo das Pedras – o único lugar onde era possível banhar os animais após tratamento com veneno para carrapatos. E é estranho imaginar que, se a aproximação entre os dois fosse naquela época, o enredo poderia ser bem diferente. Jamais saberemos a razão pela qual Alencar cresceu num ambiente sem amor.

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Alencar não fazia idéia de quem era o seu pai – nem sua mãe, desconfia-se. Entendeu mais ou menos o conceito de “família” quando a enigmática “filha do pequeninho” decidiu casar com o Antunes, dono de um empório bem sucedido, viúvo e com quatro filhos. Generoso, assumiu o enteado, registrando-o em seu nome. Imaginava encontrar gente que poderia acolhê-lo, mas se viu sob o jugo da tresloucada mãe. A casa nova virou sinônimo de masmorra, com direito a toda sorte de maus tratos físicos e verbais.

Não demorou para que abandonasse logo seu lar. Trocou uma vida de sopapos por uma carreira de garçom em diversos bares e bailões das redondezas, uma das poucas diversões daquela juventude rural. Aliás, foi assim que meus pais se conheceram e, lógico, fofocavam com os amigos – entre eles, Maria.

As mesas e balcões se tornaram a sala de aula do Alencar. A clientela faceira e bailarina, seus professores. A bebida e o cigarro, seus melhores amigos. Desenvolveu na boêmia seu estilo, sua prosa, virtude que levou por toda a vida. Também foi ali que o álcool e a fumaça começaram a minar sua força de vontade: não faltavam relatos de companheiros, preocupados Alencar atirado em uma cadeira ao fim da noite. Não à toa, a jovem Maria nunca daria bola para um sujeito desses.

Incrível como situações inesperadas (há quem as definas simplesmente como “Deus”) tentam abrir novos caminhos. Foi graças a sua longa presença na noite que Alencar conheceu sua primeira mulher. Dessa relação, nasceu Rosana.

Só que esse episódio não teve lá um destino dos melhores: desorientada, a moça largou companheiro e filha. Mais desorientado ainda, Alencar fez o que esteve em seu curto alcance: Rosana ficava um tempo com a família dela, outro com os irmãos adotivos…

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Alencar nunca teve um pai, muito menos alguém que o amasse. Natural que entregasse apenas isso para sua primeira filha, que não demorou para seguir a sina dos pais e sumir do mapa. Difícil perceber quem sentiu mais solidão e desprezo.

Alencar era a personificação do que podemos chamar de ausência. A tia Maria, curiosamente, era exatamente o oposto: enquanto via seus irmãos deixarem a casa para casarem e construírem seus próprios lares, ela continuava ali, dedicada aos pais. Quando a relação entre o trabalho no campo e os dividendos passou a ser desfavorável, esteve ao lado deles na mudança para a cidade.

Sempre que eu passava o final de ano em Pelotas, dava um jeito de visitar a “tia” Maria. E era impressionante como, a cada ano, as coisas estavam exatamente iguais. Hoje eu fico me perguntando o que faltou para que ela pudesse “soltar as amarras”, ao menos um tiquinho, e aproveitar melhor sua vida…

Enfim, agora não é momento para perguntas complexas. Porque não muito longe dali, o Alencar buscava por uma guinada em sua vida. Sua formação como garçom o motivou a tentar a carreira de vendedor. Investia cada centavo conquistado em novas mercadorias para comercializar. Como empreendedor, mostrou ter boa lábia, mas péssima estratégia: era comum acumular mais quinquilharias do que cruzeiros.

Foi como vendedor que Alencar conheceu sua segunda mulher – e dessa vez fez o possível para acertar. Casou-se no papel, como manda o figurino. Foram morar numa bela casa alugada – a garagem, lógico, virou depósito de bugigangas. Tiveram três filhos e, finalmente, uma família que parecia encaminhada.

Não fosse por um detalhe: sua mulher faleceu, quando o filho mais novo tinha três anos. As más línguas dizem que foi puro desgosto, já que Alencar nunca soube o que é amar alguém de verdade. Nada disso importa: ao contrário da irmã doidivanas Rosana, os três outros filhos de Alencar foram morar com parentes da mãe – cada um com um tio, ao que parece. Melhor para as crianças, apesar de Alencar se ver, mais uma vez, sozinho.

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Peço ajuda e desculpas aos meus amigos psicólogos pela simplificação grosseira. Mas ouvi certa vez que, dentro de uma das filosofias possíveis, todo ser humano pode ser categorizado entre psicóticos, neuróticos, geológicos, narcóticos… Não vou lembrar exatamente, mas entre estes rótulos, é possível identificar pessoas que, inconscientemente, estarão predispostas a preencher vazios. Outras, da mesma forma, esperam encontrar alguém que o preencha. Normalmente, são perfis cuja atração é inevitável.

Lembrei disso agora ao me dar conta que a tia Maria é tudo. E Alencar, o nada. Fatalmente seria um encontro explosivo, um “big bang”. Eles só precisariam de algum daqueles truques inexplicáveis – aquilo que muitos definem como “Deus”, lembra?

A tia Maria era ouvinte de um programa noturno, repleto de músicas grudentas e recadinhos românticos. Em uma realidade sem aglomerações egoístas, telefone ou Internet, é possível entender que algumas destas mensagens eram enviadas por solteiros e solteiras em busca de um amor. Pois é, garotada: antes do disque-amizade ou da sala de chat, os “encontros no escuro” funcionavam com cartas ao locutor da estação.

Ela nunca falou abertamente sobre isso, mas é fato que foram alguns os pretendentes encontrados desta forma. Em um dos finais de ano que estive lá, ela estava namorando um rapaz muito falante e divertido. Parecia um sujeito boa praça, carinhoso e amigo. Soou maluquice quando soube, antes do Natal seguinte, que o namoro havia acabado – e que ela já havia marcado casamento com outro!

A essa altura, eu fico pensando: provavelmente a tia Maria deve ter saído com uma porção de galanteadores após sintonizá-los em casa à noite. Evidentemente, nenhum deles era perfeito, e nessas circunstâncias, é fácil criar confusão. Talvez aquele cara bacana não tenha lhe dado flores, não saía para beber, nem dito palavras doces ou algo assim. Pior pra ele. Enfim, não me admira que nosso inconsciente possa identificar opções diversas e decidir, inexplicavelmente, apenas pelo simples fato de que “eu posso preencher o vazio dele” e vice-versa.

É óbvio assim: o autor das palavras doces, que deve ter entregue flores à tia Maria e acabou casando com ela há vinte anos, era o Alencar.

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Ganha um brinde, comprado na loja de R$ 1,99 e comercializado pelo Alencar, quem puder dizer como foi a relação entre os dois pombinhos. O pai da tia Maria pouco a aconselhou: morreu dois anos depois, semanas após o nascimento do Fernando, uma das crianças mais queridas que já conheci.

O Alencar sempre gostou muito de seu quinto filho, mas não demorou para a tia Maria conhecê-lo de verdade… E não foi fácil. As vendas iam mal, mas problemas de saúde o impediam de procurar um trabalho. Acabava em casa, diante da TV, enquanto a mulher sustentava a família. A relação com os parentes degringolou quando foi a vez da mãe dela padecer, debilitada. Na tentativa de se dividir entre seu trabalho, a casa e os cuidados da mãe, Alencar chegou a dizer que “ela devia receber, dos outros irmãos, um salário para cuidar da sogra”.

Cheguei a visitá-los uma vez. Tudo o que fiz foi brincar e dar risada com o Fê, enquanto meus pais, na cozinha, se impressionavam com os modos de Alencar. Maltratava não só os convidados, mas também a própria. Eram frequentes os comentários inacreditáveis dos conhecidos: “fomos lá na Maria e o Alencar não saiu da cama sequer pra dizer oi”. Ou “antes de se retirar, o Alencar ainda disse pra Maria guardar as panelas e parar de comer, pois estava gorda como uma porca”… Humilhante assim.

Eu me sinto até mal em lembrar que, em qualquer comemoração reunindo família e amigos, só a tia Maria e o Fernando apareciam… E não me importava com a ausência do Alencar. Na única festa de reveillon que participamos juntos, não consegui abraça-los à meia-noite, pois precisavam “voltar logo para casa”. Mas… Por que ele não estava lá? Pois o amargurado não media palavras ao confidenciar para a esposa que “odiava toda essa gente”. Então tá.

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Quando estive em Pelotas em janeiro deste ano, para o casamento de uma prima, vi a tia Maria e o Fernando rapidamente, na cerimônia. Eles não puderam ir à festa, pois queriam ficar em casa com o Alencar. O próprio foi buscá-los, de carro, em frente à catedral. Fui até eles para me despedir dos dois e, ao menos, dar um aperto de mão no sujeito – ele podia me odiar, mas eu não tinha nada com isso.

Alencar estava irreconhecível. Abatido. Sombrio. Eram nítidos os efeitos implacáveis do álcool e do cigarro no decorrer dos anos. Perguntei a ele se, ao menos naquela noite, não valeria a pena esquecer qualquer coisa e curtir uma festinha ao lado de gente querida. A negativa, junto com uma breve despedida, foram as últimas palavras que troquei com ele.

Soube esses dias que Alencar havia sido internado na UTI, com enfisema pulmonar em estado muito avançado. Nos últimos dias, tinha sido transferido para um quarto, onde ficou até dar seu último suspiro essa semana.

Numa prosa que teve conosco há pouco, a tia Maria revelou todos estes e muitos outros detalhes da vida deste homem, que passou a vida inteira tentando descobrir o que é o amor. Ao que tudo indica, teve uma lição definitiva antes de morrer. Nas palavras dela, um dos últimos diálogos, que partiu de Alencar:

– Sabe… Agora eu me pergunto por que eu agi assim… De um jeito tão… Tão desumano, menosprezando tanta gente… Eu também me surpreendo porque, mesmo comigo agindo assim, você cuidou de mim… Sempre esteve ao meu lado…

– Ah, eu te amo, e você sabe… E sinto uma saudade muito grande da gente junto.

E seguraram a mão um do outro, bem forte. Não era preciso dizer mais nada.

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Alencar foi embora lamentando não ter feito muita coisa boa em sua vida. Partiu sem se despedir direito da mãe ou dos parentes emprestados de sua primeira família num passado muito distante. Deixou este plano sabendo que sua primeira filha, a Rosana, morreu numa prisão na Espanha, após ser presa por tráfico, e que seus três filhos do segundo casamento estão encaminhados, formados, felizes.

Nunca soube, no entanto, quem era o seu verdadeiro pai. Nasceu e morreu com essa mágoa. Enfim, dos males, o mais tênue: se dependesse apenas de seu histórico, o velho Alencar Antunes talvez não tivesse um velório, ou sequer uma história para ser lembrada.

Queria muito dar um abração na tia Maria e outro no Fernandão, que agora precisa lembrar que é o homem da casa. Por fim, esse longo episódio nos deixa uma lição: ao invés de se arrepender por algo que fez ou deixou de fazer, a melhor coisa do mundo é viver.

E hoje, mais do que nunca, acordei com vontade de ser pai.

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (3)

  1. Nós e os nós… Às vezes intrigantes… Mas que escolhamos o ‘escolher’, o ser, o externar (tanto sentimentos quanto sensações).
    Que desejemos – como você bem finalizou – viver!

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