Curitiba em pequenas doses

Tenho o péssimo costume de planejar coisas. Idealizar e prever acontecimentos diante das possibilidades. Por mais que eu tente evitar, é incontrolável. Foi assim com meu final de semana em Curitiba. Felizmente, para alegria dos meus neurônios, o planejamento foi soberbo.

Ou melhor, quase. Mas enfim, o balanço final foi altamente positivo!

O fato é que fica impossível contar, em poucas linhas, detalhes curiosos e as observações interessantes sobre mais este passeio inesquecível – com direito a festa de casamento. Portanto, prepare-se: vem aí mais um post campeão de kilobytes do MMM. Tudo sobre a viagem de três amigos – Marmota, Lello e Priscilla – rumo a capital paranaense. Senta que lá vem a história!

– Como sabem os leitores mais antigos deste blog, o trecho que separa São Paulo e Curitiba é um velho conhecido meu. Todos os perigos ocultos nas curvas da BR 116 – a famigerada Régis Bittencourt – saltam aos meus olhos com uma sensação de deja vu impressionante. Melhor assim: as seis horas no volante, tanto na ida quanto na volta, parecem mais rápidas.

De um lado da foto é São Paulo. Do outro é Paraná.– Aliás, a imutabilidade da estrada e seus demais elementos (como as paradas obrigatórias no Buenos Aires e no Petropen) chega a irritar. Até as placas de “modernização”, encravadas nos primeiros anos do governo FHC, já estão caindo. Por que não transformar a “rodovia da morte” numa espécie de “Nova Régis”? Seus usuários seriam eternamente gratos.

– Por volta das duas horas do sábado, já estávamos sobre o viaduto Colorado, saindo da Avenida das Torres, a procura do nosso hotel. Em poucos minutos, descobri que as principais avenidas de Curitiba, mesmo as que possuem um canteiro central, seguem em um único sentido. Depois de algumas voltas desnecessárias pelos arredores da movimentada Visconde de Guarapuava, paramos na tranquila General Carneiro. “Até o fim do passeio, a gente acerta o caminho”, profetizou Lello. Normalmente é assim mesmo.

– “Filho, você esqueceu o cinto”, alertou minha mãe, no trivial telefonema “chegamos bem”. Disse que não me importava, afinal a roupa do casamento já estava em estado desolador após os solavancos no porta-malas. “Filho, suas calças vão cair na festa. Arrume um cinto”. Nunca duvidei da sabedoria de minha mãe, por isso decidi ir atrás do acessório. A pé mesmo.

– Anote: a partir do dia 24 de abril, o cruzamento da rua Mariano Torres com a Sete de Setembro passa a se chamar “cruzamento do maluco”. Tudo porque o cururu aqui prosseguiu telefonando enquanto caminhava e, sabe-se lá porque, não parou. Só se ouviu a buzinada e um “maluuuuco”, a poucos centímetros de um carro em alta velocidade. “Putz, ele veio do nada”, testemunhou Lello. A Pri, coitada, quase desmaiou.

Difícil vai ser esse trem sair do Shopping Estação... (piada fraca)– Finalmente, o simpático Shopping Estação, com museu ferroviário embutido e curiosos chafarizes. Pausa para o almoço. Optei por uma saladinha, já que estávamos com pressa. Pedi uma bem simplesinha num lugar chamado The Sub’s. Em poucos instantes, fui surpreendido por um balaio de alface, ovos cozidos, tomates inteiros e muito, mas muito molho de queijo. Pouco mais de meia hora comendo e ainda não estava na metade. Incrível, mas pela primeira vez na vida, fui vencido por uma saladinha.

– Ainda com remorso por ter deixado a comida no prato, corri para as Lojas Americanas. Peguei o primeiro cinto que vi na frente, aproveitei o bom preço de um casaco simpático e me mandei para o caixa. Sobrou pouco tempo para voltarmos ao hotel e nos aprontarmos. Dito e feito: eram cinco e meia, hora da cerimônia, quando estávamos prontos para sair.

– Ah, sim. Estava quase saindo quando lembrei do cinto novo. Peguei por uma ponta, fui enfiando-a nas alças da calça envolvendo-o na cintura… Até ser interrompida, bem longe da fivela! “Eu perguntei se você tinha experimentado o cinto”, lembrou a Pri. Acho que eu não ouvi…

– Felizmente, o roteiro elaborado pelo Luis estava perfeito: seguimos todas as orientações até chegarmos, pontualmente as seis da tarde, ao local do casório. Tive certeza de que estava certo quando vi uma bandeira do Inter na entrada. Idéia brilhante, que certamente vai ser usada no meu casamento!

De onde saíram esses dois manés?– Apesar do horário, o tempo fechado e uma fina garoa provocavam uma falsa impressão: parecia tarde da noite. A sensação piorou quando percebemos os convidados no salão, os arranjos sendo retirados e os noivos tirando fotos ao fundo… Mais alguns segundos para que alguém me acordasse e dissesse: “perdemos a cerimônia”… Put I keep are you!

– “Ah, mas foi rápido mesmo. Os músicos não são como os do Titanic: ao menor sinal de chuva, tchau”, explicou Luis. “Mas a cerimônia foi linda”, concluiram os noivos. Vou ter que esperar para assistir ao vídeo em minha próxima passagem por Floripa… Enfim, sei que é meio chato ter que dizer isso, mas tenho que admitir: o jantar e a festa estavam ótimos!

– Antes da valsa e das fotos, um pedido especial do Luis: “meu amigo também é paulistano. De repente, rola uma carona”. Aceitei prontamente: “devo sair na segunda-feira cedo”. Só depois de alguns dias liguei o nome a pessoa: era o Ricardo Bittencourt! Foi quando descobri também que ele acabou voltando no domingo mesmo para São Paulo…

– A festança começou ao som de forró (?) e YMCA, e logo nos primeiros movimentos, constatei que minha mãe tinha razão. Nem mesmo uma rápida ajeitada no WC fez com que minhas calças permanecessem em ordem… Apesar de estarem com as roupas no lugar, meus companheiros de viagem também pareciam pouco à vontade. Optei por deixar os convidados se divertindo e terminar a noite em um lugar mais tranquilo. “Tem mais é que ir mesmo, estúpido. Por sua causa, perdemos a cerimônia…”, azucrinou Lello.

Pelo visto, os dois estavam gostando...– Por recomendação da Cacau, fomos ao Batel, uma espécie de “Vila Madalena”. Caminhamos um bocado até descobrirmos onde fica o burburinho. Descobrimos da pior maneira possível: um movimentado restaurante mexicano estava totalmente ocupado. Ao lado, fila de 40min em uma lanchonete do tipo fiftie’s denominada “Peggy Sue” (seu passado a espera). Ou 1h30 de espera no Bar Brasil, de um famoso e versátil empresário.

– No fim, caímos no Armazém São José, barzinho tranquilo ao final da Avenida Bispo Dom José. Ao som de Agepê, Djavan, Grupo Molejo e Beth Carvalho (eclético, não?), pedimos as especialidades da casa: uma porção de bolinho de mandioca com carne seca e um “ambulante” – sem saber direito do que se tratava. “Deve ser bom”. Veio a generosa porção de bolinhos e um sanduiche com carne e algumas fritas. “Não é daqui, não. Pedimos o ambulante”, disse. “Mas é esse aqui mesmo”. Estúpidos!

– Conseguimos driblar o frio apenas enquanto dormíamos: na manhã de domingo lá estava ele nos aguardando… Depois de um café com o Schumacher (e Rubinho em sexto), fomos raptar o meu pai, que coincidentemente estava trabalhando em Curitiba, para levá-lo ao Jardim Botânico. Chegar até ele foi fácil: difícil foi chegar ao parque sem se perder pela cidade, como da última vez. Passamos umas três vezes pela BR 116 até chegarmos ao estacionamento… Mas valeu a caminhada. O lugar, apesar da falta de maiores “legendas” na maioria das plantas, é maravilhoso.

É claro que eu tinha que fazer micagem. E o Lello com cara de apaixonado...
se ainda puder, não deixe de sair com o seu pai!

– A responsável pelo nosso almoço era a Cacau, que chegou ao Jardim Botânico ao lado da sua grande amiga Dani. Sugestão das moças: o Madalosso Novo, na Santa Felicidade, considerado o maior restaurante do Brasil. “Tá até no Guinness”, garantiram. De fato, o lugar é portentoso: praticamente toda a cidade de Curitiba estava almoçando por lá quando chegamos!

Um dos oito salões do Novo Madalosso. Um colosso.– O papo tava bom, mas ainda restava o fim de tarde. Satisfeitíssimo com o passeio, meu pai decidiu ficar no centro. Já os intrépidos aventureiros foram caminhar no Parque Barigui, o maior da cidade. Nessa altura do campeonato, os cinco já estavam absolutamente enturmados!

– Acreditem: a Cacau é mais fanática por futebol do que eu ou mesmo o Lello: a cada rádio de pilha ligado, uma pausa para ouvir o resultado do Coxa. Foi o futebol, aliás, que nos levou a um barzinho encravado no parque – de onde vi a sensacional falha do Marcos diante do Colorado. E segue o papo, regado a suco…

– Ali, o ponto alto da tarde. A pequena Letícia, no alto dos seus doze anos, apareceu em nossa mesa vendendo rosas artificiais. Ela é daquelas insistentes, que se esforçam para engambelar seus clientes: declama poesias, discursa sobre o “fome zero de sua família”, entre outras coisas. Tanto eu, bancando o sonso desentendido. quanto Lello, verdadeiro canastrão, entramos na onda. Risadas certas!

Quer saber se acabamos comprando as flores? Perguntem pro Lello.

– Letícia, que me achou engraçado a ponto de me chamar de “Faustão”, cobra três reais por rosa – independente da cor ou da quantidade de “estrelinhas ou caretinhas” adesivadas. A lábia da garotinha lhe garante uma média de quinze rosas diárias – sem contar a despesa mínima com matéria prima, a precoce trabalhadora fatura sozinha 1300 reais brutos por mês. Imagine quando chegar aos 25 anos…

Atenção ao famigerado homem do esfregão, à esquerda...– Nos despedimos da Dani na entrada do Shopping Estação – terminamos o passeio exatamente onde ele começou. Num olhar mais atento ao redor das fontes, constatamos a presença de um homem mal-humorado, munido de um esfregão. Sua missão é simples: quando alguém mete a mão na água, ele deve secar tudo rapidamente. É claro que sua empáfia natural lhe dá crédito suficiente para meter medo nas crianças… Cuidado: o homem do esfregão pode pegar você!

– Parada obrigatória na livraria antes de comer: convidamos as meninas para encarar uma barca de comida japonesa. Para elas, um desafio inédito, a começar pelo trabalhoso hashii. Como tudo na vida, é só uma questão de prática.

– Percebemos o quanto valeu a viagem quando não percebemos o tempo passar: passava da meia-noite quando deixamos a Cacau em casa, em São José dos Pinhais (no caminho para Floripa). “Ainda dá pra conhecer a Rua 24 Horas”, disse, na volta para o hotel. Pessoalmente, pelo que conheço, não perdemos nada. E o fato de não passearmos pela histórica Rua XV ou mesmo na Praça Osório indica que precisamos voltar até lá… Vamos?

E acabou!

Comentários em blogs: ainda existem? (11)

  1. Ai, Marmota, muito engraçada a sua narrativa. Aquela do cruzamento do maluco ficou ótima!!!
    Boa a viagem, né? Você só não tocou no assunto limpeza. Curitiba continua insuportavelmente limpa?

  2. Faltou falar que Curitiba continua muito limpa, que eu competi com a geladeira durante à noite e que encontramos um sósia do Narazaki na saída do cinema. Mas aí o post ficaria grande demais… :-P

  3. Olá!
    Eu não apareço no meu blog, mas aqui, pra conferir sua narrativa, eu não poderia deixar de passar! Legal rever o final de semana! Ri sozinha, no escritório, ao lembrar da Letícia e suas rosas. A minha está muito bem cuidada, na estante do meu quarto!
    Anotado, então, que na próxima visita a Curitiba iremos fazer uma caminhada por todo o calçadão da XV, da praça Osório até o Teatro Guaíra, ok?
    Ah, e pra ser mais tradicional ainda, vamos ao Schwartzwald, o “Bar do Alemão” tomar submarinos, combinado?

  4. Eu sabia!!! Eu sabia que te conhecia de algum lugar! Mas como não te reconheci como colunista do 700km, achei que era só impressão. =p E eu tb tenho um problema de falta de cara de pau. Eu vi você no casório, no hotel e no buteco do jardim botânico! O passeio foi ótimo, sim, mas o frio foi dureza! E como a gente estava a pé, acabamos pedindo arrego e nos abrigando em algum lugar quentinho antes de ver a metade do que queríamos… Mais um bom motivo pra voltar! =) Quem sabe da próxima vez a gente perde a cerimônia?

    Abração,
    Clarice

  5. Não conheço Curitiba, mas depois deste seu relato parece que conheço cada pedaço da cidade. Parabéns. Gosto muito de seu blog e acompanho suas iniciativas na Web. O Virunduns foi antológico. Convido vc a conhecer o Blog 36 Seria uma honra recepcioná-lo por lá!

  6. Acho que você deveria trocar seu marmoturbo numa Topic ou microônibus do gênero. Assim poderíamos fretá-lo e participar destas adventures também. Porra, não fiz nada, fiquei bundando em SP!

  7. Existe mil maneiras de se substituir um cinto em casos extremos: já pensou em usa um clips de papel ou um pedaço de barbante? A propósito: Hoje vou me esbaldar de rir: Timão6x0Verdão

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