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Considerações sobre o “evangelista” de mídias sociais

A primeira parte do livro Linked, do Albert-László Barabási, lembra a história de Paulo de Tarso, visto entre os cristãos como a figura mais importante para o desenvolvimento do cristianismo. Antes de ser convertido, Paulo era judeu ortodoxo, defendendo as tradições de sua crença ao perseguir os adeptos ao “blasfêmio” Jesus de Nazaré. Ao tomar partido, percebeu que, para facilitar a conversão dos gentios, era necessário “afrouxar as regras”. Somado a isso, percorreu mais de 16 mil quilômetros durante 12 anos, utilizando os conhecimentos que dispunha em redes sociais em pleno Século I. Suas viagens contribuíram para que a religião católica dominasse o hemisfério ocidental nos últimos dois mil anos.

Talvez essa história ajude a explicar um termo que faz parte do vocabulário corrente nas algumas corporações do mundo digital, cuja primeira referência são os livros que sustentam a doutrina cristã a partir da vida e história de Jesus: o evangelho. Assim como os discípulos de Paulo de Tarso, empresas de mídia em ambientes de rede, interessadas no conteúdo produzido pela colaboração de usuários, também contam com “evangelistas”.

Essa palavra faz parte da cartilha onde reinam outras “buzzwords”, expressões de efeito cujo significado é poucoo questionado se comparado ao seu poder mercadológico (alguém lembrou de “web 2.0”?). Tomo emprestadas as palavras de um artigo publicado por Juliano Spyer, que reforça a estranheza do termo: “evangelista de mídia social é uma designação ridícula, estranha, desengonçada, mal-traduzida do inglês, mas por enquanto é a única que chega perto de nomear uma das atividades desse profissional”.

Evangelizar é fazer crer?

Spyer faz referência ao ex-CEO da Microsoft, Robert Scoble, o título de “primeiro evangelista” do mercado, em 2003. Scoble conversava com clientes e aficcionados da marca em seu blog, em comunidades, fóruns e outras plataformas de publicação pessoal, contribuindo para diminuição da imagem negativa da empresa. O mesmo comportamento é denominado por Augusto de Franco, referência quando o assunto é redes sociais, de “netweaving”, que pode ser resumido rapidamente como o estímulo e articulação de usuários através de ações sistemáticas de direcionamentos, sempre com finalidades específicas.

Mas como fazer isso? Esse certamente é o grande dilema de quem lida com mídias sociais, e uma das perguntas que costumo repetir com frequência aos meus colegas da área. Como conceituar e sistematizar tais ações de movimentação? Quais características definem o perfil de quem deseja desenvolveer trabalhos nesta área? A resposta, na maioria das vezes, recai para o emiprismo – tentativa e erro.

A coisa fica ainda mais complexa se lembrarmos que, além da relevância das informações dentro de uma rede, o caráter emocional, a “intensidade da mensagem”, prevalece na construção e fortalecimento desses laços. E aqui retomamos a utilização do termo “evangelista” em mídias sociais, apontando o caráter emocional para um viés, por que não, doutrinário. Podemos pressupor que o evangelista limita-se a fazer com que seus pares acreditarem no que diz, prometendo “o céu para quem o segue e o inferno para quem o condena”.

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra

Esse cenário deixa claro a existência de dois caminhos. Um, mais árduo, é o de encarar a demanda como uma oportunidade de estruturar idéias. O outro é insistir no discurso questionável de que “o caminho é a luz”, que podem deixar tanto desenvolvedores quanto os participantes destes ambientes longe de uma análise crítica.

Como cristão e entusiasta de novas tecnologias, acabo adotando uma postura equilibrada: construir alicerces para o uso de redes sociais embalado pelo entusiasmo dos evangelistas, tendo cuidado para não dar atenção a qualquer novo profeta ou tribunal de inquisição.

(Publicado originalmente no IDGNow)

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