Cinco maneiras de nos tornarmos uma nação leitora

Terminou no domingo passado mais uma edição da Bienal Internacional do Livro. Por uma série de razões, não consegui ir. Aliás, pelas mesmas razões, ainda não tive condições mentais de, pasmem, pegar um livrinho que seja e ler, de ponta a ponta. Deve ser por isso que meu cérebro costuma travar vez ou outra.

Mas enfim. Minha dislexia temporária não se compara ao problema maior do nosso país: apesar de promovermos uma grande feira (a edição 2006, no Anhembi, foi a maior desde a primeira, em 1970), a Câmara Brasileira do Livro calcula que o brasileiro alfabetizado e maior de 14 anos lê, em média, 1,8 livro por ano. Na França, esse número chega a sete.

Mas enfim, poderia seguir com a idéia inicial do Top 5 e listar cinco livros que mudaram a minha vida. Vamos guardar essa idéia para outro dia. Agora, seguem cinco ações que poderiam estimular nosso povo a ler mais, melhorar a forma de se expressar e de construir suas opiniões. E quem sabe, entre outras consequências, votar direito.

#5O caminho autor/leitor. Alguém escreve um livro bacana. Esse alguém adoraria que seus leitores tivessem pleno acesso aos seus leitores. Entre eles, temos editores, livreiros, gráficos, distribuidores… Mas os caminhos para as publicações chegarem ao seu destino final são muito complexos. Seria de bom tom deixar esse caminho mais fácil, a custos mais baixos.

#4Títulos atraentes. O curioso é que a nossa produção editorial é gigantesca, mas ainda assim, nem todos os assuntos são contemplados nas prateleiras. Precisamos de mais livros interessantes e atraentes, portanto. Especialmente para o público infanto-juvenil: há quantos anos você não ouve falar que os títulos da Série Vaga Lume são os melhores? Depois dessa leva, o único lançamento que realmente fez barulho entre os mais jovens foi Harry Potter. Ou estou errado?

#3Compartilhar. Recentemente, o país viu um movimento incipiente, mas bastante interessante: cada um deixou em algum banco, calçada ou espaço público, um livro. Assim, quem achá-lo vai poder ler, e você poderá se sentir melhor ao compartilhar cultura. Mas esse incentivo não precisa ser público: podemos indicar ou oferecer um texto bacana dentro de casa, na própria família. Ou mesmo entre amigos ou vizinhos.

#2Incentivo governamental. Nem toda família pode incluir livros na cesta básica, outros agentes podem contribuir para criar o saudável hábito da leitura desde cedo. A começar pelas escolas de ensino fundamental e médio (o bom e velho primeiro e segundo grau), num movimento que termina em bibliotecas públicas – estas, aliás, sofrem com um dos três males: falta livro, falta profissionais, ou falta público mesmo… O projeto Embarque na Leitura é um grande passo: o convite estampado na estação Paraíso, “leve um livro emprestado, é grátis!” devia ser irresistível.

#1Desligar a TV. Eu admito: a televisão me deixou burro, muito burro demais. Eu e outras pobres crianças vítimas da universalização da mídia eletrônica, entre outros males. Em 2004, a MTV lançou uma campanha comentada em todo o país: enquanto o locutor dizia “tédio, falta de criatividade, falta do que fazer, burrice e conformismo”, além de um zunido irritante, a mensagem “Desligue a TV e vá ler um livro!” permanecia no ar por alguns minutos. Segundo pesquisa divulgada na época, 14% dos espectadores entre 15 e 29 anos, público-alvo da emissora, realmente desligou a televisão. Devia ter feito isso mais vezes na minha infância.

André Marmota tem uma incrível habilidade: transforma-se de “homem de todas as vidas” a “uma lembrancinha aí” em poucas semanas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. Sinceramente, acho que o preço é o pior. Por exemplo, pra comprar um livro apenas de Direito para estudar, tenho que desembolsar no mínimo R$ 70. Pra mim fica meio pesado, e imagina pra alguém de baixa renda?

    Você quer comprar algum livro razoavel para ler, e tem que desembolsar seus R$40, em média. Um pai de família, com salário apertado, nunca vai poder dar pros filhos uma boa leitura. E as escolas públicas, pelo amor de Deus, pra quem precisa delas, livro é uma raridade…

  2. Marmota, nos EUA, a população lê 25 livros per capta.
    E eles não sabem votar. Não há a menor dúvida disso. Ler não faz alguém mais inteligente. Ler ajuda a pessoa a ficar mais culta. Cultura e inteligência são coisas bem diferentes que o senso comum amarra no mesmo pacote.
    O Brasil é um país de pouquíssimas livrarias. As estatísticas são meio bizarras, mas a verdade é que um país de 170 milhões de cabeças como o nosso tem apenas 2008 livrarias. O que dá uma livraria para cada 84,4 MIL brasileiros.
    Comp0arando, só na CIDADE de Paris tem duas mil livrarias.
    A argentina dá banho na gente. Ainda hoje, em cada quarteirão das ruas Flórida, Santa Fé ou Corrientes, na capital argentina, há de duas a três livrarias. Só nessa área há mais livros do que em toda a cidade do Rio de Janeiro, a nossa capital cultural.
    O livro é caríssimo no Brasil. Só que essas estatísticas de leitura me deixam com o pé atrás. POrque a estatística é de compra de livros, o que não garante ser de leitura. Comprar livro pra enfeitar não dá cultura a ninguém. OUtra coisa, os jornais não são contabilizados, e nem mesmo a leitura na internet, ou de livros usados, que é um volume monstruoso, porque sebos não são contabilizados nas estatísticas de livrarias. Com a fraca economia nacional, o sebo vira uma solução de custo acessível para o cara que gosta de ler mas tá sem dinheiro. O volume de leitores das bibliotecas públicas também não é contabilizado. Isso poderia dar um retrato mais fiel da leitura no país.

  3. Eu estive na Bienal no domingo e posso dizer que nunca vi tanta gente comprando livro. Desde que me entendo por gente, vou a Bienal quando acontece em São Paulo e é a primeira vez que vejo tanta gente e, o melhor, praticamente todo mundo com uma sacolinha com livros.

    Acho que está na hora da Câmara Brasileira do Livro atualizar os dados… Acho que muita coisa já mudou no País.

  4. Eu fui duas vezes. Na 1a. vez, estava bem vazio em relação a 2a. vez que estava pelo menos 5 vezes mais cheia que na 1a.. Entendeu, né?
    Faz tempo que não leio um livro de cabo a rabo, a última vez foi em novembro do ano passado.
    Ainda falta muito incentivo à leitura, apesar de terem muitos alunos levados pelas escolas, a maioria estava mesmo era afim de zoar e os poucos que vi com livro na mão (lendo na hora ainda por cima) era sobre a Isis Surfistinha (uma blogueira prostituta que abandonou a família pq a vida de prostituta lhe rendia mais grana… No livro ela contava com detalhes suas peripécias sexuais). Três adolescentes lendo isso na minha frente qdo. me sentei para descansar. que leitura ótima, não?!?!?! Vão ficar bem instruídas!!!
    Lamentável!!!!
    Desculpe o desabafo…
    Beijos…

  5. O preço é q é complicado. Outro dia comprei um livro para reciclar meu ingles e foi quase 100 reais. Um único livro. A editora era a universidade de cambridge e o livro era para brasileiros, mas mesmo assim não sobrou grana para comprar outro livro para leitura. pena, né? Mesmo assim estou determinada a ler mais e a compratilhar de menos, pois todo livro q eu empresto nunca volta… risos…

  6. O livro é apenas um entre tantos suportes de transmissão de cultura. Ver uma exposição, assistir a uma boa peça de teatro, um filme do cinema-arte ou mesmo um programa televisivo com teor cultural são atividades igualmente valiosas. Já me questionei várias vezes pelo fato de ter lido menos livros do que achei que deveria ter lido. Cheguei à conclusão que a leitura deve ser uma coisa prazeirosa, não uma obrigação. Não é o fato de todas as pessoas “cultas” terem lido um determinado livro que eu me sinto obrigado a ler e gostar desse livro. Não passei do segundo capítulo de “A Peste”, de Camus, e não gostei, achei chato. Li atravessadamente “O Processo”, de Kafka, que achei complicadíssimo. Apesar de ter gostado de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, esse foi um livro que eu comecei a ler quatro vezes antes de engrenar de vez. Não li a “Divina Comédia”, de Dante, nem o “Don Quixote”, de Cervantes, nem muito menos o “Ulysses”, de Joyce. E não me sinto culturalmente inferior a ninguém por não ter lido. Também não sinto apelo nenhum por best-sellers, como “O Código da Vinci” ou “Harry Potter”. Na minha juventude (não faz muito tempo, hehehe), gostava mesmo era de Agatha Christie. Atualmente, aprecio livros-reportagens, livros técnicos sobre Comunicação e arte digital. E me sinto muito bem abastecido culturalmente.

  7. concordo com todos os comentários acima que apontam o preço como um problema. comprei poucos livros ano passado (ao todo 9) por conta do caixa em baixa. Em melhores condições financeiras teria aumentado em muito minha biblioteca e, ao que parece, só me interesso pelos livros mais caros. Deve ser algum problema meu, hehehe.
    Porém, acho que nosso problema é muito mais estrutural. o ensino não esta preparando o cidadão para ser um leitor. e não digo leitor de livros só. qualquer tipo de leitura. de jornais a anuncios de propaganda. se a escola não nos prepara para entendermos o que estamos lendo, a leitura não se torna prazerosa. são dois pontos a serem atacados. o preço dos livros (vamos diminuir impostos e lançar versões em brochuras em papel jornal mesmo) e realizar um amplo programa de incentivo a formação de grupos de leituras nas escolas. Quem sabe assim mudamos este panorama.

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