Cinco formas divertidas (e extremamente amadoras) de se pular corda

Recebi esses dias um presente muito bacana, e de cunho altamente saudosista: uma corda para pular! Cortesia da primeira equipe de corda de rua do Brasil – que conta com a ilustre presença de Chico Barney, contemporâneo da saudosa época do blog-moleque e do post-arte.

A proposta dos caras é altamente profissional: movimentos audaciosos derivados do “rope skipping”; termos como “Chinese Wheel”, “Double Dutch”, “Toad”, “Cougar”, “Caboose”; apresentações em distintos programas de TV (Faustão, Eliana, Otávio Mesquita e Amaury Jr)… Apesar dos praticantes afirmarem que a modalidade “não exige muito dos que se vêem fascinados e resolvem aderir”, tanto as manobras quanto os termos me fazem pensar duas vezes antes de arriscar.

Foi quando lembrei que não é necessário se profissionalizar na corda para fazer algum exercício e se divertir. Quem atravessou a infância em qualquer rua ou escola apinhada de crianças aprendeu pelo menos uma das milenares brincadeiras envolvendo uma corda e alguns cânticos e afins. Na minha bocada, as mais populares eram as seguintes:

#5 Cobrinha – Essa é a mais elementar, perfeita para crianças que nunca viram uma corda na vida. A corda não é “batida”: ela permanece no mesmo nível do chão. Os dois “batedores” ficam agachados, sacudindo a corda para os lados simulando o movimento de uma cobra. Tudo que a garotada precisa fazer é pular, sem que a cobrinha encoste em suas canelas. O nível de dificuldade aumenta na mesma medida da frequência do movimento – quanto mais veloz a senóide, mais difícil escapar.

Se não houver ninguém para ajudá-lo com a cobrinha, dá para amarrar a corda num poste e balançá-la sozinha. Ou ainda: ao invés de chacoalhá-la, posicione-se no centro, dobre as duas pontas da corda, mantenha-a esticada e gire, como se a corda fosse um ponteiro de relógio. A molecada, dentro de um círculo imaginário, precisa ser rápida no raciocínio. Essa variação também é chamada de “chicotinho” – é conhecida ainda por deixar o responsável pela corda completamente tonto.

#4 Batalhão – Com o tempo e algum treino, qualquer sujeito descoordenado consegue calcular o ritmo das batidas e dar seus primeiros saltos. Nesse estágio, uma das brincadeiras mais bacanas é a do batalhão: uma trupe de novatos se posiciona ao lado da corda, enquanto os “batedores” ditam o ritmo. Cada vez que algum cururu não consegue pular, é eliminado da rodada. O último que sobrar, evidentemente, é o vencedor.

Para se dar bem nessa disputa, o melhor a fazer é ficar no meio, onde a parábola faz a curva. É no ponto de maior amplitude que a corda leva um pouco mais de tempo para dar uma volta completa – lógico que você pode ser um novato “kamikaze” e pular mais perto da ponta, mas o risco é todo seu…

#3 Um dois três entrada – Já consegue saltar sem dificuldades? Ótimo. Seu próximo desafio agora é entrar na dança com a corda em movimento. Espere a parábola chegar ao alto, posicione-se abaixo dela e continue a saltar. Quer aumentar o nível de dificuldade? Enquanto espera a corda bater no chão três vezes, diga “um, dois, três, entrada”. Enquanto estiver saltando, conte novamente até três: “um, dois, três, saída”. Pule fora e espere pela próxima rodada.

Essa brincadeira vagabunda da minha rua não se compara com a versão mais conhecida nacionalmente desse estilo de salto: aquela acompanhada pela cantiga “um homem bateu em minha porta… E eu… a… Bri”. Essa é a hora de entrar e saltar. As instruções prosseguem: “senhoras e senhores, ponha a mão no chão… Senhoras e senhores, pule de um pé só… Senhoras e senhores, dê uma rodadinha…”. Finalmente, “e vá… Pro olho… Da rua!”.

#2 Foguinho – Então você já está com seus sete, oito anos de idade, e com isso já demonstra maturidade para se arriscar mais. É hora de “pular foguinho”. Antes de virar motivo de chacota diante da molecada, faça o teste sozinho: pegue uma corda mais curta e aumente o ritmo. Só não vá tropeçar.

Quando estiver preparado, respire fundo e encare o ritual sagrado desta clássica instituição da corda. Os “batedores” anunciam a intensidade das batidas com versos fortes. “Salada saladinha, bem temperadinha. Sal, pimenta, fogo, foguinho”. O que parece uma tremenda baitolagem se transforma em violência gratuita em forma de criancisse.

#1 Zerinho – Já repararam que a maior parte das brincadeiras amadores envolvendo cordas estão no diminutivo? Não importa, esta era a mais divertida na minha vizinhança. Mobilizava mocinhas e rapazes de todas as idades. Era praticamente uma instituição aos finais de semana: o zerinho.

O desafio é simples: tome seu lugar na fila e espere a sua vez. Para começar a saltar, é preciso passar por baixo da corda – é o “nivel zero”. Na vez seguinte, pule uma vez após entrar… Depois duas, três… O primeiro que chegar a dez é o vencedor. Mas não é fácil: qualquer tropeço, erro na contagem ou outro deslize e você volta para o zerinho. Quando isso acontece, voltar para o fim da fila vira um tremendo martírio…

Enfim. Depois que você virar campeão no zerinho alguns finais de semana seguidos ou pular foguinho, já dá pra pensar em virar profissional. Ou não.

Atualizado – Recebi, por e-mail, uma pergunta que certamente muitos fizeram: “teu último post recebeu patrocinio? Se não, como você procede em relação a isso?”. Bem, tudo que recebi dos responsáveis pelo site foi uma corda de pular, uma camiseta (que vou presentear) e um release. Nada mais. Não conhecia a ação, achei interessante e, além do link, escrevi minhas impressões – e certamente a agência responsável não ficaria chateada se eu não comentasse nada. O único patrocínio que este blog recebe vem na forma de banners. Não tenho nada contra quem recebe dinheiro vivo para escrever textos, mas pessoalmente sou contra a política do “escreva aí sobre meu produto que eu pago uma graninha”.

Atualizado, de novo – Sensacional! Chico Barney curtiu minha listinha de pulagens arcaicas e convocou alguns amigos para brincar! Vá ver.

André Marmota adora usar a função “rand” do PHP, combinada com um array repleto de frases diferentes. Paaaaarabéns! Quer saber mais?

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