Castigo divino (ou A história se repete)

Antes de começar este longo episódio relacionado a imagem da semana, reproduzo aqui um antigo texto, escrito há cerca de um ano, ainda na era pré-blog.

Adilson, André, Narazaki e Sakate se encontraram na última sexta-feira santa. Os quatro pensaram seriamente em encontrar uma churrascaria rodízio e cometer uma blasfêmia. Sem sucesso, os quatro resolveram jogar uma partidinha de boliche amistosa no Shopping Anália Franco.

As emoções começaram no trajeto, todos a bordo do Fuzomóvel. Circulando durante à noite pela cidade, o rapaz certamente acumulou mais 672 pontos na carteira. O "mortorista" ainda gastou meio tanque de combustível andando pela cidade com os estúpidos. Já no local da peleja, os quatro tiveram uma nova frustração: restaurantes fechados e sem um vestígio sequer de uma suculenta picanha mal passada.

"Assim é demais, deveria ter comido os jabás das escuderias", reclamou Narazaki, que estava sem comer há horas em função da cobertura da Fórmula 1 em Interlagos. Depois do joguinho, mais uma volta pela cidade até chegar a mais uma parada, desta vez para apreciar o clássico bauru do Ponto Chic. Carne, afinal. Mas já era sábado.

A história rendeu comentários entre os amigos durante semanas. Um ano depois, novamente vivíamos a data sagrada para os católicos. No esforço de criar uma tradição em estupidez, os mesmos amigos se reuniram outra vez na noite da Paixão de Cristo. Missão: churrasco.

Além dos quatro citados acima, Lello e Max também foram convidados – com isso, dividimos o grupo entre o Fuzomóvel e o Marmoturbo. “Apesar de ser temente a Deus, não acredito que é pecado comer carne na Sexta-feira Santa”, argumentou Max. Realmente, com fé no coração, também acho que é possível. “Os heréticos da turma se resumem a mim e ao Lello. Todos os demais são fiéis cordeiros seguidores do Velho e do Novo Testamento. Estou ansioso para cravar meus dentões numa picanha suculenta”, babava Adilson.

Pouco antes das dez horas, os seis intrépidos iniciaram a longa jornada pela cidade de São Paulo. Primeira parada: Marginal Tietê. Assim como no ano passado, passamos em frente a nossa churrascaria preferida. “Não me lembro bem do que aconteceu no ano passado. Será que nós não chegamos tarde demais? Não tinha nenhuma outra churrascaria aberta?”, perguntava Adilson, o mais entusiasmado. Não era o horário: mais uma vez, ela estava com as portas fechadas.

Mas a esperança reacendeu alguns metros depois, com uma grande faixa: “Pare aqui! Estamos funcionando! Temos carne e frutos do mar!”. Ótima pedida para quem ainda relutava em comer carne. Antes de decretarmos o fim da viagem, nos aproximamos da entrada e perguntamos como a casa – que por sinal era muito chique – funcionava.

– Tem carne aí? – questionamos, apenas para confirmar.
– Sim, senhor. E apetitosos frutos do mar, além de um farto buffet de saladas.
– Beleza. Quanto morre?
– O preço, especial para este feriado, é de 31 reais. Bebidas e sobremesas não inclusas.
– CARAL… Ops, Ah, sim. Obrigado.

Antes de prosseguir a busca, pausa para reunir o conselho.

– Trinta paus? Mas nem…
– Já vi esse filme antes. Olha o bauru do ponto chic…
– Imagine, aqui na Marginal tá cheio de churrascaria!
– É, mas se duvidar, o preço vai ser esse mesmo…
– Pessoal, tive uma idéia. Eu conheço uma que é classe A lá na ZL.
– Beleza, vamo nessa.

A tal churrascaria classe A ficava ao lado do Carrefour Aricanduva, tão longe quanto a minha casa. No trajeto, sinal evidente do desespero provocado pela fome: Adilson, que ia na frente, notou uma churrascaria aberta e parou o carro. Era uma daquelas cujo cartaz com o preço é maior que a placa com o nome do estabelecimento: R$ 7,90 por pessoa. Para os padrões paulistanos, podemos definir o lugar como… joinha. Apelidei a espelunca com o singelo nome de “Churrascaria Boi Bumbá”. Nova reunião do conselho.

– E aí? Essa tá aberta!
– Sete e noventa pra comer nesse boi bumbá? Cê tá loco?
– Boa. Eu concordo. Viemos pra jantar, não pra nos matar.
– Aliás, estou com fome. A gente tá longe da Aricanduva?
– Tá um pouco. Mas relaxe. O lugar é classe A, vocês vão ver.
– Beleza. Fora Boi Bumbá.

Eu estava convicto de que seria um risco entrar naquela biboca. Mas tenho certeza de que muitos se arrependeram de não tê-lo feito. Mais alguns quilômetros, incluindo algumas ruas próximas que remetiam a algum capítulo de “Turma do Gueto”, até finalmente emborcarmos os bólidos no estacionamento do hipermercado, pouco depois das onze horas.

Logo no guichê, a ducha fria. Churrascaria fechada. Um misto de riso e desespero que culminou em uma nova – e nervosa – reunião do conselho.

– Put i keep are you, man! Tanta volta pra nada!
– E se a gente fosse ali no Macronalds ou no Habibs mesmo?
– Eu tô com foooome!!!
– Porra! Que mané Rabibis! Vamos comer carne!!!
– Então vamos decidir logo. Já está ficando tarde.
– E eu estou com fome!!!
– E se a gente antecipasse o final da história e fosse lá no Ponto Chic da Paulista?
– Não! Isso não!!! Não quero repetir o mesmo final!!!
– Tudo bem. Vamos tentar o Outback do Anália Franco. O que acham?
– Beleza. Bóra.

Mais voltas, mais gasolina. E alguns comentários.

– Vamos gastar no Outback os mesmos trinta paus daquela primeira…
– Que nada. É só não pedir a sobremesa.
– Querem saber? Não vamos gastar nada. Algo me diz que lá está fechado.
– Fechado uma ova! Eles ficam abertos até bem tarde!

Finalmente, o shopping. E a constatação: restaurante aberto apenas até as onze da noite. Atraso de meia hora. Desta vez, a reunião do conselho não foi tão tensa quanto a outra.

– Já estou vendo na minha frente o bauru do Ponto Chic…
– Tá, mas antes, já que estamos aqui, que tal um bolichezinho?
– Que mané boliche! Vamos decidir logo o que vamos comer!
– E o Burdog?
– Ah, pára! Se é pra comer no Burdog, vou comer em casa!
– Tive uma idéia. O Sujinho, da Consolação, fica aberto 24 horas.
– É legal lá. Podemos tentar.
– Eu já ouvi falar. Parece que eles fecham apenas um dia por ano, né?
– É. Pela nossa sorte, deve ser na Sexta-feira Santa…
– Hahahahahahahahahahahahahahaha!
– Beleza. Sujinho, então.

Voltamos praticamente ao nosso ponto de partida. Sem sequer tentar a zona Sul, poderíamos perfeitamente arriscar alguma coisa na Avenida dos Bandeirantes. Mas depois de quebrar a cara, certamente optaríamos por um café da manhã na padaria. No caminho de volta, passamos novamente pelo inesquecível “Boi Bumbá”. Já estava fechado, o que representava um alívio para mim.

Ainda faltavam alguns minutos para a meia noite quando o celular tocou, já na subida da Consolação.

– Cara, vamos tentar um último recurso. Paulista Grill, na Rebouças. Se não der, vamos de Sujinho mesmo.
– Beleza. Toca o barco.

Já não havia qualquer expectativa. Estávamos conformados com a hipótese de encararmos novamente o sanduíche com rosbife, o famigerado bauru do Ponto Chic, caso tudo desse errado. Próximos ao Paulista Grill, no entanto, uma luz: parecia aberto! Sim! Pessoas estavam lá dentro, sentados à mesa com aquilo que procurávamos durante toda a noite: um prato com carne…

Paramos o carro ao lado da porta. De longe, o gesto do manobrista: mais uma vez, nada feito. E eu, uma pedra. No rádio do carro, o locutor anuncia: meia-noite. Já era sábado de Aleluia. Na prática, a partir daquele instante, terminava a “proibição” respeitada pelos católicos, dogma que tentou ser quebrado pelos estúpidos pelo segundo ano consecutivo.

Foram horas em função de um objetivo, e outra vez as circunstâncias puseram fim ao nosso desafio às leis divinas. Parecia até castigo. Ou, quem sabe, uma lição, que pode ser resumida em uma única palavra: respeito.

“Que nada. A lição é fácil: ano que vem, vamos direto no Paulista Grill”, disseram alguns. Perfeitamente.

Enfim, a noite terminou no Sujinho, mais um tradicional ponto de encontro dos paulistanos. Na porta, o aviso que poderia ter evitado todos os parágrafos anteriores: “abertos à noite toda nesta sexta-feira”. Ainda deu tempo de “fugir” do flanelinha, em outra cena hilária desta odisséia. O jantar estava deliciosamente saboroso, não apenas pela qualidade dos pratos, mas por mais este inesquecível encontro de amigos, capaz de render uma história marcante em nossas vidas.

Links relacionados:
Nossa churrascaria preferida
Bauru do Ponto Chic
Carrefour Aricanduva
Outback Steakhouse
Lanchonete Burdog (a de sempre)
Sujinho da Consolação

André Marmota dialoga muito com o passado, cria futuros inverossímeis e, atrapalhado, deixa passar algumas sutilezas do presente. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (6)

  1. Well… li e se aceita sugestão a melhor alternativa é… organizar um belo churrasco, reservando uma chacara ou sitio e mandar ver.Mas se o esquema for lanche, o Joakins tem um hamburguer de picanha que é uma delicia, sobretudo divino quando voce sai da balada la pelas 4 ou 5 da matina

  2. Bem feito!!! Pecadores!!! Deus castigou!!!Fez vcs gastarem gasolina, tempo, dinheiro mas no fim evitou que vcs cometessem uma heresia!!!Ai que saudades (e fome) me deu esse post! Maldade, Dezao, vc nao pensa nos amigos que est’a longe dessas maravilhas nao? Bjocas,Valeria

  3. Que aventura!!! Também acredito que ingerir a carne, não é dos males piores.É apenas uma abstinência.
    O mais importante é o que sai da boca, do fundo do Ser.O que podemos fazer de bom para as pessoas.
    Pôxa, entrei para pesquisar sobre Jesus e olha só o que encontrei….

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