Cangaíba cai na rede

Não sei se todos sabem, mas fiz uma comemoração esses dias. Já são cinco meses que abri mão de meu posto: era chapeiro em um quiosque de fritar bolo. Deve ser uma falha de caráter, mas não consigo entender como pode um quiosque desses funcionar tendo só três frigideiras – isso quando não falta óleo, farinha, gás de bujão – enquanto o dono, ao invés de investir em fogões e ingredientes, prefere pagar por moleques distribuindo propagandinhas do quiosque. É frustrante não atender a clientela, não estimular os fritadores de bolo, essas coisas.

Lembro que conversei sobre isso com o Zé, semanas depois da minha dispensa. O Zé não precisou tomar decisão alguma: sem querer, herdou um bar em Cangaíba – ele só descobriu que era filho do antigo dono quando o velho morreu, de cirrose, deixando o boteco ao menino que nunca havia conhecido, em testamento. Deu sorte: a notícia se espalhou rapidamente pelo bairro, e isso ajudou Zé a se tornar um dos sujeitos mais populares de Cangaíba.

Foi quando Zé teve uma idéia genial:

– Pô, você sempre foi um sujeito batalhador, com boas idéias… Você precisa de um estímulo batuta. Já sei! Vamos fazer uma festinha pra você aqui no bar! Vai ser uma espécie de “Marmota Esperança”! A galera vai te ajudar e a gente aproveita pra fazer uma promoção do boteco! O que acha, hein? Hein?

Confesso que fiquei um pouco incomodado com a proposta… O que pensariam de mim? Pensei por alguns minutos. “Isso é errado? Ah, somos humanos, oras. Uma mistura homogênea de coisas certas e erradas… Se alguém achar errado, é só realçar as razões certas! Beleza!”. Então topei.

O Zé chamou alguns amigos de confiança e começaram a traçar estratégias. Começaram com algumas horas na lan house, mergulhados em buscas no Google. Talvez eles nem saibam o que significa o termo “mimética”, mas foi exatamente isso que fizeram. Em poucas horas, já tinham inspiração suficiente para transformar o festão num sucesso.

Começaram pela lista de convidados. Num telefonema, Zé foi taxativo.

– Você pode levar um ou outro amigo seu, a mãe, a namorada… Mas vai por mim: ninguém vai ligar pra eles lá. O negócio é chamar a galera do balacobaco. Dono de loja. Gente rica. As mamas fofoqueiras. Os tiozinhos do gamão. A turma da escola de samba. A bateria. As passistas. Só gente selecionada, hein! Esses caras vão passar a semana toda falando de você, do boteco, da festa… Periga falarem da festa lá na Vila Curuçá, já pensou?

Quase desisti quando ouvi o Zé menosprezar pessoas que realmente importam pra mim. Creio que ele entendeu meu súbito momento de fraqueza.

– Ei, relaxe, é só uma noite, eles nem vão se importar. E quer saber? Amigos são seus dentes, e mesmo assim eles mordem sua língua. Não esquece disso!

Tudo bem, autorizei a estratégia. Zé e os caras começaram o inglório trabalho de RSVP. As primeiras respostas surpreenderam a turma: “só vou se tiver comida ou bebida na faixa”; “cobro cinquenta pilas de cachê”. Depois da surpresa inicial, Zé refletiu e mandou o recado: “esses caras precisam vir de qualquer jeito”. Reservou um orçamento pra garantir os convidados. Ao fim do dia, os caras tiveram que prever “traslado de van” para alguns deles no check-list, entre outros mimos.

Poucos dias antes da festa, um amigo telefonou, indignado.

– Seu filhadaputa!!! O bairro todo tá ouriçado por causa de um festão no Boteco do Zé… Em sua homenagem! E como é que você não me convida?!?
– Ei, calma! Quem tá controlando a lista de convidados é o Zé! Fala com ele!
– Eu já falei, aquele maldito perguntou “quem eu era mesmo”. E ainda disse que eu tava era com inveja dos outros!!! Ah, tomanucu!, meu!!

Foi quando lembrei das palavras sábias do Zé: ninguém ia se importar com meus amigos irrelevantes. “Então vamos juntos, os caras nem vão controlar”. Acabei chamando outros amigos pessoalmente, antes deles reagirem contra… Influenciar outras pessoas de Cangaíba é bom, mas sem perder os amigos de vista.

Finalmente, o dia chegou. Logo na entrada, uma moça bem vestida pediu gentilmente para que meus amigos e eu assinássemos um documento. “É um termo para cessão dos direitos de uso da sua imagem para promover o Marmota, o Boteco do Zé e a ação Cangaíba Cai na Rede, senhor”. Minha nossa!!!

Claro que meus amigos gargalharam. “E aí, vai autorizar a espetacularização de si mesmo?”. Idiotas. Tinha certeza de que o Zé e os caras não faziam idéia do significado daquilo. “O que ele vai fazer com esse papel depois?”, pensei. Então assinei e entrei.

Nunca vi aquele boteco tão cheio. Pessoas que nunca vi me cumprimentavam efusivamente, como se fossem velhos conhecidos. Em uma dessas cenas, o diálogo foi absurdo.

– Então você é o grande Marmota, hein? Muito prazer em conhecê-lo, sou o Phil Costa, da Mercearia Costa!
– Quê? Pô, você é o Felipe Zumba, fomos colegas na oitava série! Até ficamos no mesmo alojamento naquela viagem pra Porto Seguro, não lembra? Que papo é esse de “muito prazer”, cheirou acetona?
– Ah, é… Puxa, que coisa, né?

Perto do janela, uma caixinha de papelão funcionava como ponto de coleta, com um cartaz colado. “Ajude o Marmota com o que puder”. Acima, um quadro de cortiça repleto de papeletas afixadas: era um formulário, intitulado “Eu ajudei!”. Abaixo, duas lacunas: “nome” e “valor”. Passei longos segundos olhando aquilo, sem entender. Até ser abordado pelo Zé. “Gostou? É pra incentivar a turma a apoiar essa campanha!”.

Eu juro que, não fosse a abordagem, não reconheceria o Zé. Estava impecavelmente bem vestido, barbeado, gel no cabelo… “Olha, esse aqui é o meu cartão. Legal, né? Fiz alguns pra você, toma. Distribui aí pra todo mundo e não esquece de pegar um monte, é bom pro networking!”.

Num intervalo entre conversas sobre plano de negócios e influência, decidi pegar uma bebida. Perto do garçom, um rapaz sentado na frente do computador. Parecia alheio ao ajuntamento de povo, à batucada do samba…

– O que está fazendo aí, vem aproveitar a festa, tem uma porção de potenciais misses loucas pra te dar bola!
– Não posso, o Zé e os caras me pagaram pra tuitar tudinho e estimular a galera da Internet a escrever “Cangaíba Cai na Rede”. Precisa ver, esse troço aqui tá bombando!

Antes de ir embora, fui abordado por uma mocinha. Apresentou-se como estagiária do jornal de bairro. Perguntou o que estava achando daquilo. Sem pensar, emendei uma resposta.

– Ah, eu estou feliz em estar aqui, ao lado de tanta gente legal. E o Bar do Zé é o lugar perfeito para fazer um evento desses. Tem bons petiscos, bebida gelada, muita música agradável, gente bonita…

Dias atrás, quando o Zé pagou a minha parte dos lucros, soube que a festinha realmente chegou aos ouvidos da galera na Vila Curuçá. Nunca me senti tão entusiasmado. Talvez até desenvolva essas idéias todas num livro – o Zé vai adorar organizar uma festinha de lançamento.

André Marmota fala, lê e escreve razoavelmente em português castiço, engrish macarrônico e portunhol com legendas. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (17)

  1. Confesso que tive que ler seu post com muita atenção e mais de uma vez: da primeira vez não entendi lhufas. Mas foi só me “antenar” melhor e, meu, muito bom post!

  2. Huahuahuahua! Além do texto irretocável, vc ainda conseguiu trollar outros eventos blogosféricos, todos em um só! o/

    E é nesses momentos que eu fico feliz de ser seu amigo do mundo real, porque pude enteder todas as referências, que jamais entenderia na época de apenas leitor! Hahaha!

    Abração, meu caro!

  3. Nunca ri tanto com um texto de blog e olhe que nem entendi todas as referências mas a grande maioria…
    Vai ter parte 2 com os barracos atuais? Tem q ter. Adoro ver o circo pegando fogo.

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