Atari? Não, meu primeiro videogame foi um Odyssey.

Vou confessar uma fraqueza pessoal: há semanas coloquei na cabeça minha necessidade em planejaro segundo semestre, dedicando um bom tempo a atividades acadêmicas e projetos pessoais. Mas uma brincadeirinha saudosista está me desconcentrando um bocado. O atraso não se limita aos afazeres, mas também à tecnologia envolvida: um console que nada tem a ver com Playstation 3, Nintendo Wii ou simuladores de última geração.

Uma revirada nas minhas gavetas me levou de volta ao dia das crianças de 1984. Meu pai chegou em casa com uma caixa enorme, embalada com o papel vermelho e branco da Ultralar. Arregalei os olhos, comemorei e o abracei bem forte quando vi do que se tratava: um videogame absolutamente diferente daqueles que invejava dos amiguinhos.

Dentro da caixa do meu Odyssey Phillips, uma “máquina de escrever eletrônica” com fonte de alimentação e controles embutidos – os fabricantes não imaginavam como seria fácil desplugar essas coisas ou substituí-las em caso de pane. O manual do proprietário apresentava o trambolho em letras garrafais. “Parabéns, você acaba de comprar a última palavra em videogames! Ele é mais sofisticado que a maioria dos jogos de fliperama, empregando um microprocessador que executa funções eletrônicas complexas, tecnologia de ponta inimaginável há alguns anos!”.

Aquele manual dizia que meu videogame, bem conservado, seria diversão garantida durante anos. Talvez o engenheiro mais otimista sequer imagine que eu (e certamente outros nostálgicos doentes) ainda vibrem com tamanha ação em oito bits. Não exatamente diante do aparelho, mas sim ao emulador para Mac OS (versão pra PC aqui). Não tenho vergonha em dizer: poderia buscar simuladores que remetem ao meu passado nerd, como Mega Drive, Super Nintendo ou mesmo Atari. Preferi aquele que me dá mais saudade.

Alguns mil cruzados – Minha estréia foi diante do jogo de Fórmula 1 (espécie de “Enduro” do Atari, mas contra o relógio e com fundo lilás). Tinha outros dois jogos no mesmo cartucho: Interlagos (para duas pessoas, disputa automobilística que chegou a ser prova do Bozo) e Criptologic (jogo da forca, um dos três ou quatro jogos onde o teclado alfanumérico fazia sentido).

Cada cartucho, extremamente bem acabado e com um preocupado manual de instruções, custava o equivalente a meio salário do meu pai. Com um agravante: a inflação que adorava pregar peças, mesmo com os fiscais do Sarney tentando segurar o Plano Cruzado. Por conta disso, tinha poucas opções. Come-Come (variante batuta do Pac Man), Demon Attack e Q-Bert (versões do Atari), Serpente do Poder (horrível, tremenda compra perdulária!)…

Com o emulador devidamente instalado, tratei de revê-los todos, além de testar alguns que sempre quis ver como é, mas passei a infância sem saber como é. Senhor das Trevas, Tartarugas, Abelhas Assassinas, Popeye, Batalha Medieval…

É isso aí, pissit! – Nenhum deles conseguiu reacender o mesmo fascínio do clássico Didi na Mina Encantada, uma bela mistura de Pitfal com Donkey Kong. Se hoje qualquer jogo é capaz de proporcionar experiências gráficas bem reais, imaginar um enredo diante de linhas e pixels limitadas pode parecer idiota. Mas não importa: era uma delícia.

A associação com o filme “Os Trapalhões na Serra Pelada”, de 1982, foi perfeita: com uma picareta em mãos, Renato Aragão se transforma em um aventureiro em busca de ouro. Além de atingir pedras que rolam sem parar, o trapalhão caminha, salta e se agacha, movimentando-se entre escadas e crateras. Em pouco tempo, sua ferramenta quebra: para continuar a saga, é preciso atenção: o choque entre duas rochas pode revelar uma nova picareta ou uma chave, que lhe abre passagem para outra área da mina.

Esqueça os games com diferentes cenários, desenvolvimento, “chefões” a cada nível e desfecho feliz: a mina é interminável. Quer dizer: só acaba quando o cearense é atingido por uma pedra sem picareta. Uma comparação do que se vê na tela com a capa do manual explicam o que, nos anos 80, poucos sabiam: tanto na versão européia quanto na norte-americana, lançada no final dos anos 70, o jogo chamava-se Pick Axe Pete (Pedro Picareta). Como era, na verdade, um “boneco de pauzinho”, a Phillips poderia ter licenciado com qualquer famosão da época – Menudos na Mina Encantada, Fofão na Mina Encantada, Gugu Liberato na Mina Encantada…

Enfim, talvez não deixasse tanta saudade, a ponto de tomar meu tempo 25 anos depois.

Comentários em blogs: ainda existem? (13)

  1. Hilário esse Didi na Mina Encantada! Eu sonhava com vídeogames na época (qualquer um), mas nunca pude tê-los. E tinha muita inveja das crianças que tinham. :)

  2. Gente! Mas é um exercício para a imaginação esse tal de Didi na Mina Encantada! Como é que se enxerga nesse gráfico uma mina, um didi, pedras? Carácoles!

  3. nossa que saudades!!! me lembrei agora do senhor das trevas, boliche, tartaruga… como faço para comprar um Odyssey em funcionamento. Tenho muita vontade de mostrar aos meus filhos?

  4. Eu era doida por esse jogo do Didi! Eu tinha um Atari, mas minha amiga tinha o Odyssey e eu ia toda semana na casa dela jogar. Como era bom…

  5. Simplesmente sensacional rememorar velhos consoles. Parece que eles te fazem voltar ao passado.

    Sou um pouco mais novo, meu primeiro videogame veio em 1991, com o Atari. Mas, cara… que game!!

    Indescritível, hoje em dia, jogar um “River Raid” ou mesmo “Pac Man” nos atuais dias de gráficos mirabolantes.

    Perfeito para um dia estressante pois é com esses consoles que a inocência da infância retorna aos tempos atuais. E toda preocupação se dissipa, dando margem ao vício jogatino – que, convenhamos, é uma delícia!

  6. Depois de muito tempo sem comentar não consegui me conter, Didi na mina era fantástico! Eu não tinha, mas trocava com meu vizinho pelo o excelente Senhor das Trevas. :)

    Até hoje tenho esses jogos no emulador e as vezes faço vontade a minha aura pueril e jogo, mas estou longe de ser aquele craque dos anos 80, perco fácil para meu eu de 8 anos, hehehehe

  7. Cara, as vezes me fascina este tipo de coisa. Me lembro desse equipamento, embora, na época, meus pais não tinham condições de me comprar um. A primeira (e única) vez que joguei nele foi na casa de um amigo da escola, que NUNCA mais eu vi – tampouco lembro o nome.

    Meu primeiro videogame foi um Atari. Ganhei num sorteio da Prefeitura do Recife, onde a gente mandava nota fiscal e ganhava prêmios. Me lembro que, na época, o Atari era o melhor videogame que tinha. E eu tinha ficado tão feliz… Até meu pai me dar um Master System, hehehe…

    Bons tempos.

  8. rs ah tb sou nostalgica com esses joguinhos antigos
    o de casa era atari; e a um tempinho atrás jogava com os emuladores no pc mesmo (acho q tinha de todos os videogames :P)
    nossa que epoca boa.. adorava o pitfal

  9. Não sei se vocês têm a mesma sensação que eu, mas as embalagens dos cartuchos entravam de um jeito incrível na nossa imaginação.

    Elas traziam uma promessa de personagens vivos, como se eles fossem aparecer em nossas telas quase em 3D. A promessa obviamente nunca foi cumprida, mas não precisava ser. Seu papel era fazer a gente criar identidade com cada jogo, fazer a gente sonhar em ter os jogos que ainda eram exclusivos dos amigos.

    E conseguiam. Afinal, dá saudade da emoção que era ganhar um cartucho novo. Era tão emocionante quanto a manhã de um sábado que antecedia um bailinho na casa de alguém.

  10. Caramba Cassio, agora voce chegou no ponto. E eu entendo perfeitamente o que voce quis dizer. =)
    Lembro particularmente da primeira vez que consegui entrar de cabeça na leitura de uma HQ para adultos do Monstro do Pantano. Realmente um mundo magico se abriu naquele momento. Olhar para as capas das fitas era assim tambem. Lembro de ficar lendo os manuais das fitas do Master System interminavelmente…Altered Beast, Phantasy Star…faltam palavras para descrever.
    Uma magia que depois raramente retorna, ou senão se transforma e vira outras coisas, sei lá. =)

  11. Eu adorava tartarugas, pra mim não tinha melhor, eu virava o jogo umas 4 vezes, ficava uma disputa na minha casa, eu, minha mãe e meu irmão, hoje fico querendo jogar as tartarugas, mas ñ fasso idéia de como conseguir… oh tempo bom… ñ vejo muita graça nos jogos de hoje…

  12. Nossa me lembrei do tempo que jogava com o Geovane Silva Miranda kaka e o alessandro, era campeonato de senhor das trevas, DIDI, COme COme,, muito legal… como nosso imaginario contava mais que belos graficos e sons ,,,, ainda hj guardo aqueles dias como os mais felizes,, tempo q a mãe e o pai jogavam tambem,,,,

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