AOL Brasil, mais uma história que acabou

Depois de mais ou menos um ano após a América Online desembarcar no Brasil, tive a oportunidade de visitar as suntuosas instalações da empresa, em um centro empresarial ao lado da Ponte do Morumbi, na beira da Marginal Pinheiros.

Era para ser uma reunião simples sobre parte do conteúdo esportivo do portal – a Gazeta Esportiva era um dos parceiros. Acabei conhecendo pessoalmente uma turma que até hoje garimpa novidades nessa saara virtual. Também revi amigos de longa data, que aproveitaram o auge da AOL Brasil e fizeram parte daquela redação.

Mas enfim. A reunião era coordenada por uma “gerente-mor” de qualquer coisa, que fazia questão de mostrar sua liderança e posição na empresa. Mandava como poucas, mas nitidamente não fazia idéia do que estava falando, nem se era possível mesmo executar as sandices que ela exigia (bom, convenhamos, isso não é novidade no mundo corporativo). “Não ligue pra ela. A preocupação dela é simplesmente pelos resultados. Certamente algum gerente acima dela pediu isso, e não duvidaria se mais algum acima dele também o fizesse”, confidenciou um dos responsáveis pelo conteúdo. Então tá.

O caso explica nitidamente como foi a chegada dos caras no Brasil, em 1999, a partir da America Online Latin America. Eles nitidamente não se preocuparam se era possível fazer diferente, simplesmente impuseram seu jeito de ser e jogaram muito dinheiro. Verba gasta exatamente como se mandava na época: metade para garantir o bem estar da equipe e suporte tecnológico, metade com publicidade agressiva. Há quem ainda guarde os famigerados CDs de acesso, que instalava um software proprietário, descaracterizava o browser tradicional (e todo o computador), mas abria janelas para um ambiente intuitivo e muito fácil de navegar, a partir de palavras-chave.

Deu certo, ao menos no início. Em três meses distribuindo CDs, foram 50 mil clientes, e crescendo. Ao mesmo tempo, experimentavam produtos inovadores: em 2001, pegando carona nas TVs do UOL e do Terra, lançou Mona Dorf como âncora virtual, sendo uma das pioneiras na produção de conteúdo em banda larga. Obviamente, nem todo mundo gostava daquele estranho sistema de navegação: a maioria dos outros internautas, mais experientes, criaram grande rejeição ao sistema da AOL.

Aos poucos, o modelo baseado em propaganda pesada e conteúdo diferenciado não se pagava mais. E a mentalidade de quem manda de fato levou um bom tempo para mudar: quando eles acabaram com o software proprietário, disponibilizando acesso em vias normais e conteúdo para qualquer navegador, já era tarde. O “balão” da AOL já se esvaziava, e o chão era o limite.

Não demorou para a AOL acionar seus mecanismos para sobreviver. Encerraram muitos contratos de parceria até maio de 2005, quando demitiram funcionários e fecharam os escritórios do prédio bacana do Morumbi, mantendo apenas a unidade de Santo André. Também pararam de fazer propaganda, estagnando a base de usuários em cerca de 125 mil clientes.

Enfim, nesta semana, a AOL Brasil, primeiro serviço da America Online Latin America, anunciou o encerramento das atividades. Vai ser possível se conectar à AOL até o dia 17 de março; acessar o portal e todo o conteúdo até o dia 30 de março e, caso o assinante resolva mudar para o Terra, continuará com o e-mail @aol até 31 de julho.

“Não estarão disponíveis o acesso ao conteúdo do portal AOL Brasil nem os serviços oferecidos pela AOL Brasil, como o blog, disco virtual, álbum de fotos, calendário, páginas pessoais, turmas, salas de bate papo, mensagens instantâneas, atualizações do antivírus kit e do kit de segurança, atendimentos ao cliente on-line, recebimento e envio de e-mail AOL, etc. Todos os seus arquivos gravados no disco virtual, no blog, ou no álbum de fotos da AOL serão apagados… Para que você continue acessando a Internet, a AOL indica o Terra como provedor… Foi um prazer e uma honra ter você como cliente durante esses seis anos de atividade no Brasil… Esperamos ter atendido às suas expectativas e proporcionado uma experiência on-line de qualidade, com a qual estivemos sempre comprometidos”, diz o melancólico comunicado final.

Não menos triste foi o desabafo de um amigo, presente em todos esses momentos na empresa. “Meu, a AOL foi para-ráio de malucos. Foda… Cada coisa que já aconteceu aqui que até Deus duvida. Só poderia acabar assim mesmo. Acompanhei poucas decisões coerentes nesses seis anos aqui. Eu também estou chateado com tudo isso, mas fazer o que… Eu sempre estive trabalhando, e os caras do dinheiro decidiram tudo. Enfim, é a vida”. Sorte para ele e para todos que, assim como muitos, também já viram seus ousados projetos online se transformarem apenas numa longa história em tão pouco tempo.

Veja também a matéria da revista Istoé dessa semana.

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