Anatomia de uma matéria sobre blogs

A frase “só quem tem um blog sabe o que é um” ainda soa como verdade absoluta. Mas a coisa está mudando: aos poucos, a grande imprensa abre caminho na selva de páginas web e trilha o caminho da explicação. O exemplo mais recente está na matéria da revista Istoé desta semana. Antes que você diga o que achou, preste atenção nesta historinha.

Digamos que, por alguma razão qualquer, a redação da revista decidiu pautar uma repórter para escrever sobre blogs – entre as milhares possíveis, a razão poderia ser o texto da Veja, que saiu no final de maio. Para fugir do conceito “coisa séria” da concorrente, apostou em mais um texto sobre comportamento.

Escalaram Juliana Vilas, uma repórter fascinada pelo tema. A proposta inicial do texto: os blogueiros “lado B”, que aproveitam a facilidade e o anonimato para contar histórias sobre prostituição e consumo de drogas.

No meio da produção, mudança de planos: por que não incluir o “lado A” blogueiro no texto, ainda na mesma linha – a influência deles na vida das pessoas? Tratou de conversar com alguns sujeitos, alguns deles anônimos, mas que fazem um trabalho bacana e, por isso mesmo, representativo dentro da blogosfera nacional. Entre eles o Alex Castro. “Fiquei mais de uma hora e meia no telefone com a Juliana e foi ótimo”, diz ele.

Deve ter ouvido muita coisa sobre blogs, fotologs, podcasting, videoblogging, rss, open-source… Certamente a repórter ficou mais fascinada e repleta de dados interessantíssimos. De repente, nova mudança de planos: por que não dar um respaldo maior ao tema incluindo gente famosa? Até porque, não teríam condições de fotografar as fontes consultadas até então. Mais trabalho, mas tudo bem: a matéria sairia apenas na semana seguinte, e com mais espaço.

E assim fez. Aproveitou o ótimo momento do Ricardo Noblat e o episódio envolvendo seu blog e o mensalão (assunto tratado como merece pela Cora). Conversou com três conhecidas e talentosas moças (Fernanda Lima, Samara Felippo e Thalma de Freitas). Foi atrás do presidente da Abranet e de um psicólogo, para costurar tudo.

Em quase duas semanas, a Juliana ouviu meio mundo – juntou material suficiente para montar um caderno especial semelhante ao que o Instituto Humanitas, da Unisinos, lançou recentemente. Mas tinha apenas três páginas. Cortou, colou e juntou peças com a orientação que já conhecemos: o público-alvo da Istoé não sabe mesmo o que é um blog.

Pronto. Pode dizer agora que a matéria ficou abrangente demais, mas com uma pinta de “falta algo”. Diante das circunstâncias todas, eu adorei.

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Assim que a Veja soltou sua matéria “blog é coisa séria”, pipocaram críticas (pincei duas delas, a da Gorete Figueiredo e a do Rafael Lima). Vamos esperar as observações do texto da Istoé e a resposta da Época – a única das três “superpoderosas” que não destacou o assunto nas últimas semanas.

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Falando em Ricardo Noblat, no meu singelo ponto de vista o “blogueiro” mais importante e influente do país, apresentou nesta semana seu novo visual e endereço. Não deixe de ler ainda sua entrevista ao André Luís Leite, publicada no Observatório da Imprensa.

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Por fim, uma crítica a “nossa categoria”. Há duas semanas, o Senac promoveu uma série de debates sobre blog e linguagem. Desde análises de forma e conteúdo até sua multiplicação e impacto entre as pessoas. Só o Sérgio Corrêa Vaz, colaborador do Intermezzo, citou resumidamente como foi. Os outros participantes esqueceram que podiam saciar a curiosidade de quem não teve tempo para ir e contar como foi – podiam até usar blogs pra isso.

André Marmota é um rei momo sem dono, sem trono, um pierrot mal-amado... Não, esperem, esse é o Ed Motta. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. De cara: a matéria da IstoÉ ficou bem melhor que a da Veja. Seleciono uma frase muito boa: Os blogs, enfim, parecem ter saído da adolescência e chegado à maturidade.
    Teu post fez uma bela síntese do tema.
    Thanks.

  2. Belo post, Marmota. Eu também achei que a matéria da IstoÉ ficou muito boa. Muitas vezes a gente mete o sarrafo na imprensa, mas nesse caso, dentro das circunstâncias, a jornalista fez um trabalho excelente. E a universidade também vai descobrindo os blogs. Acaba de ser defendida uma tese na UNICAMP, que eu ainda não li, mas parece boa:

    http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/junho2005/ju290pag09.html

    (link via Brigatti: http://www.zipernaboca.blogspot.com/)

    Abraços,

  3. Uma das coisas que reparei na matéria da Isto É foi que não aprofundaram muito o assunto blog, blog mesmo. Ficaram mais no conteúdo e experiências de alguns blogs e blogueiros.
    Antes da tese da Fabiana da Unicamp, tem duas dissertações defendidas sobre blogs, a da Denise Schittine (UFRJ) e a minha (UFRGS. O bom é que todos os enfoques são diferentes :)
    Nestes casos, a academia é mais lenta que a imprensa, porém mais profunda :)

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