Acadêmicos x profissionais: quero fugir dessa briga

Meu amigo Cássio detesta veementemente qualquer cururu que se apresente como teórico, professor mestre ou doutor, especialmente na área de comunicação. Ele é um dos defensores ferrenhos da idéia: “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Admito que essa idéia faz algum sentido, mas a verdade é que ainda vejo com bons olhos a idéia de investir alguns anos da minha vida ao menos em um mestrado.

Mas talvez eu leve mais tempo do que supunha para fazer isso. Cheguei a essa conclusão após o debate que vi no seminário de imprensa multimídia. Ficou bem claro que, mesmo entre professores, a forma como as universidades encaram os profissionais está longe de ser a ideal – e desde já, me corrijam se eu estiver errado.

O professor Nilson Lage, da UFSC, lembra que o curso de jornalismo, instalado pela primeira vez em 1945 (o pioneiro foi o da Cásper Líbero) foi reestruturado nos anos 60, agregando todas as áreas de comunicação e tornando-se, segundo ele, uma coisa estranha – e até hoje defasada. “Imagine se tivéssemos filosofia da medicina, ou sociologia da medicina, em um curso de medicina… Para que serviria?”, exemplificou, criticando ainda a massificação dos cursos de comunicação.

Dácia Ibiapina, da pós-graduação da UNB, aponta problemas parecidos: há uma resistência grande entre os teóricos. Ou melhor, entre aqueles que só sabem dar aula. O resultado são linhas de pesquisas que se limitam a refletir as circunstancias, normalmente orientados por acadêmicos que dificilmente vivenciaram o assunto tratado. Essa bola de neve empobrece os trabalhos. “Os pesquisadores se preocupam apenas em publicar um paper na revista para dar um upgrade no seu Lattes”, ironizou.

Em uma análise superficial, verificamos que o mercado não exige titulação acadêmica de seus profissionais. Em muitos casos, questionam os próprios cursos de jornalismo, culminando em discussões sobre o fim do diploma. Obviamente, nenhum educador diria que as universidades são desnecessárias. A professora Dácia defende uma aliança entre acadêmicos e profissionais. “O mercado deveria investir em pesquisa e incentivar a formação continuada, aproximar quem reflete e quem faz”. Uma das formas de conseguir aprimorar as técnicas de organizar e processar informações é aproximar a área de comunicação das engenharias, por exemplo. Seria muito interessante.

Realmente, é na universidade que qualquer profissional tem a chance de adquirir fundamentos humanísticos e sensibilidade para enxergar o mundo pelo viés do conhecimento – e isso é um compromisso para toda a vida. E para preparar melhor as pessoas que vão trabalhar com a revolução da informação, as instituições de ensino precisam de um tratamento de choque. Vai ser difícil, a resistência é grande. Mas se houver alguma tendência de mudança, vou estar por perto e fazer parte disso.

Até porque, como diz o professor Nilson Lage, existe uma outra opção. “Em Florianópolis e no Rio de Janeiro, para ser lixeiro, é preciso ter noções de inglês e segundo grau completo. Se o curso superior acabar, podemos ganhar como lixeiros”. Sei não, de repente eu largo essa vida e vou montar minha barraquinha de churro com acesso à internet na praia.

(Publicado em Brasília, dezenove horas – como a Voz do Brasil – em 15/03/2006)

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Comentários em blogs: ainda existem? (5)

  1. Realmente essa discussão é enorme. Eu estudo Direito em Brasília no Uniceub. O Uniceub e a UnB, vou ser direto, são as duas melhores faculdades daqui. Estudo no Uniceub pq não consegui passar na UnB. Não me arrependo, a faculdade é ótima, entre o corpo docente estão mais de 10 ministros, vários juízes, promotores, grandes advogados, muitos com livros publicados, a maioria com títulos de mestrado, mas vários com títulos de doutorado. Já a UnB trabalha mais com professores de formação acadêmica alta, mas são somente professores(o que no final não é mal). Não é por orgulho, mas prefiro os professores do Uniceub. Um professor meu no primeiro semestre, advogado, possuia 4 títulos de ensino superior e 2 mestrados, ele desprezava os professores que somente eram professores, sua argumentação era válida, na área do Direito quem não trabalha nela não está atualizado para ensiná-la, nem mesmo preparado. Abração.

  2. Gostei da análise, e do fechamento dela. Mas teu amigo Cássio é apenas o outro extremo daquilo mesmo que ele critica: de um lado, teóricos que não avançam na prática, e de outro lado, ‘práticos’ totalmente burros, sem visão daquilo mesmo que fazem. Isso existe sim, e muito, e maioria. Os puramente ‘teóricos’, mesmo q em nada ajudem, ficam pelo menos inofensivos, trancados na universidade, e são minoria. Agora, essa grande massa de profissionais que não sabem o que fazem, aí é que está o perigo, e o grande prejuízo para nossa sociedade.

    Sorte que existem uns gatos pingados que estão no meio: sabem que não existe teoria sem prática, e vice-versa…

  3. Uma coisa que me incomoda no Brasil com o jornalismo é a mentalidade “quero trabalhar na globo” ou equivalente. Nossa mídia está na mão de 1/8 de dúzia de pessoas, todas comprometidas com alguma ideologia. Enquanto jornalistas americanos derrubaram Nixon, produzimos o Alexandre Garcia paparicando o Fernando Collor, que mais tarde seria derrubado por ferir interesses, não por iniciativa de nenhum jornalista. Ou o jornal nacional inteiro levantando a Roseana Sarney para depois, pouco depois, jogá-la de volta ao quase ostracismo.

  4. Acadêmicos x profissionais: quero fugir dessa briga“Meu amigo Cássio detesta veementemente qualquer cururu que se apresente como teórico, professor mestre ou doutor, especialmente na área de comunicação. Ele é um dos defensores ferrenhos da idéia: “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. ”

  5. Noronha, felizmente a Internet aos poucos vai quebrando esse paradigma. Hoje você não precisa necessariamente estar na Globo (ou em alguma de suas co-irmâs) para ser um jornalista reconhecido e prestigiado. André Rosa que o diga.

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