Aborto: reflita antes de julgar

Tenho uma grande amiga que trabalha há anos na recepção de um pequeno hospital da Zona Leste paulistana – praticamente o mesmo tempo em que estuda enfermagem. Apaixonada por obstetrícia, chorou como nunca ao assistir um parto pela primeira vez. E ainda se emociona ao passear pelos bercinhos da maternidade.

Mas seu dia-a-dia não são apenas sorrisos, charutos e mães felizes. Certo dia, apareceu alguém com uma história de arrepiar. A mulher tinha provocado aborto e apareceu para realizar a curetagem (traduzindo: remover o resto). Não contou como foi, mas sim as razões: estava grávida do amante, e provocou o aborto escondido do mario.

Depois de uma cirurgia complicada, a mulher acertou tudo, passou seu batom e voltou para casa – saiu do hospital com a estratégia armada: ia contar pro marido que a menstruação chegou antes.

Antes que você condene a personagem central da história, saiba que essa história não é única. Pelo contrário: aborto clandestino é prática constante e indiscriminada, especialmente nas camadas de baixa renda. Trata-se da terceira causa de morte materna no Brasil. Há tempos deixou de ser uma questão filosófica: é um grave problema de saúde pública.

Atualmente, aborto só e permitido no Brasil em caso de estupro ou se a mãe sofrer risco de vida. Nas demais situações, a clandestinidade e a insegurança imperam. Felizmente, muitos estados brasileiros já liberaram quando o feto tem má formação – a tendência é a de que os processos similares, que se arrastam na Justiça, se baseiem na jurisprudência.

A questão vai mais longe: enquanto for considerado crime, a nossa personagem e tantas outras não terá o direito de praticar o aborto de maneira segura e com apoio do SUS. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer o trabalho de prevenção e planejamento familiar, além da capacitação ética dos profissionais de saúde. E o mais importante para evitar esse e outros problemas sociais sérios: educação e esclarecimento. Principalmente para quem sofre mais com tudo isso e acaba não tendo acesso nem pelo que já é seu de direito.

Minha amiga quase-enfermeira registrou assim sua opinião sobre a mulher que engravidou do amante: “Tem muita sacanagem e falta de vergonha na cara como nesse caso. Mas apesar da inconsequência, não podemos julgar e sim ajudar. Por ser ilegal, o aborto gera muitos problemas: as mulheres praticam sem nenhuma informação e acabam no hospital com varias complicações – e especialmente com medo de serem julgadas. Essas mulheres precisam de assistencia e não de quem as condenem”.

Esclarecimento e assistência são as palavras-chave.

***

Este blog apóia debates sobre temas espinhosos, polêmicos e afins, mas dificilmente toma partido de forma explícita. Por outro lado, não tem como não se envolver com a questão diante da iniciativa do Nós na Rede. Mais uma vez, muitas cabeças aproveitam o dia não apenas para opinar, mas principalmente convidar os internautas à reflexão.

A data coincide com o dia latino-americano pela descriminalização do aborto, um dia após a entrega do respectivo Projeto de Lei à Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. A proposta: permitir o aborto até a 12ª semana de gestação ou a qualquer momento quando a gravidez implicar risco de vida à mulher ou em caso de má-formação fetal, tudo pago pelo SUS – e, quem sabe, por planos de saúde.

Lembre-se da história presenciada pela minha amiga enfermeira e responda: até que ponto vale a pena conduzir as mulheres à clandestinidade ao invés de lhes dar a chance de escolher? Não é estimular, mas sim ter o direito, que é bem diferente.

O convite está feito: navegue pelos blogs amigos do Nós na Rede e veja o turbilhão de informações sobre o tema. Tente, se possível, despir-se de todas as suas convicções políticas e religiosas: o seu bom senso é suficiente.

Comentários em blogs: ainda existem? (20)

  1. Concordo com a liberação do aborto, a descriminalização. Parto do princípio de que a Constituição garante ao cidadão o direito a exercer a liberdade no que quer que seja, e isto incluiria o aborto. O Estado não possui direitos sobre a pessoa, mas apenas o direito de “controlar” o modo no qual a sociedade vive, o chamado “bem estar social”. Isso significa dizer que o Estado não teria o direito de dizer a você se deve ou não abortar, se por estar doente deve ou não fazer um tratamento, se por estar cansado deve descansar ou não, se por estar em fase terminal deve ceifar a própria vida ou não.

    Esses casos, como aborto e eutanásia, infelizmente provém de dogmas religiosos que, ao longo dos anos, infiltraram-se na sociedade e tornaram-se valores morais difíceis de serem combatidos, e que findaram por ser positivados (transformados em lei).

    Particularmente, não vejo nada contra a prática do aborto. Isso é uma decisão individual, e não vai afetar toda uma sociedade. Não vejo o porquê do Estado processar uma mulher pela prática do aborto como se fosse uma criminosa, alegando a prática de um homicídio, se o próprio Código Civil não considera o nascituro (bebê no ventre da mãe) um cidadão, um portador de direitos. O Código fala apenas que ele é um portador de EXPECTATIVAS de Direito, ou seja, que terá seus direitos validados a partir do momento em que nasça com vida.

    Daí já se pode retirar a acusação de prática de homicídio por parte da mulher que praticou o aborto, haja visto que a própria lei não considera o feto como um cidadão, nem como uma pessoa (que, juridicamente, são denominações distintas). E, tirando a possibilidade de uma condenação, descriminaliza-se.

    O aborto será praticado, queira o Estado ou não (hoje já o é). Penso que a liberação seja inevitável, mas que o Estado também crie mecanismos de controle para evitar uma massificação desse processo, que poderia acarretar em mortes acidentais ou coisas mais graves.

  2. Cara, eu como mulher, não sei o que pensar sobre isso – depois dos dezoito, acho que já dá pra se considerar mulher, não dá? Não? -, sinceramente.

    Fico meio assim: Poxa, a mulher tem que poder escolher! Mas… Não é justo com a criança, caramba!

    Sei lá!

  3. Há dezenas de razões que levam uma mulher a optar pelo aborto. Pode ser porque ela é criança demais para criar um filho, porque ela é pobre demais para sustentar alguém, porque o parceiro não quer assumir a paternidade, ou porque foi constatado um defeito genético grave no embrião. Só a mulher deve ter o direito de decidir se o motivo é válido ou não. Os políticos, juízes e padres não farão nada para ajudá-la se a obrigarem a levar adiante uma gravidez indesejada. É hipocrisia pura. Apóio 100% o direito ao aborto, e falo mais sobre isso no meu post de hoje.

    Abraço,

  4. A mulher tem o direito de tomar decisões sobre sua própria vida e seu corpo. Claro que no caso de gravidez, isso exige uma grande responsabilidade. Entretanto, nada justifica o fato de mulheres prejudicarem sua saúde por causa de hipocresia.
    Tantos abortos ocorrem e a sociedade e os religiosos preferem ignorar o problema de saúde pública em troca de dogmas. Na minha opinião o aborto rpecisa ser legalizado para todos os casos e que junto com ele venha um programa sólido de planejamento familiar, assistência à mulher e menos hipocresia.

  5. Marmota, parabéns pelo post “sério”. Eu também to nessa. Crimes de verdade são cometidos e nem estão no código penal. Largar crianças pelas ruas parece que é bem mais tolerável que extrair um ovulo fecundado do utero. Acho que só trazendo estas discussões é que a sociedade avança. Lentamente, mas acredito que avança. UM abraço.

  6. Hipocrisia maior é viver numa sociedade onde os bons frutos da ciência, da técnica, do conhecimento, são monopólio de alguns poucos. Gravidez indesejada e abortos são consequencias e não causas. Não se muda as coisas acabando com as consequencias.

  7. Descriminalizar o aborto não significa estimular o aborto. (A mesma coisa com o uso de drogas.)

    O estado é laico, devia regular tudo o que a população quer fazer, não o que a população pode ou não querer fazer.

  8. Só não podemos usar o aborto como método anticoncepcional….

    Você o Milton com histórias para ficar na cabeça da gente, né???

    Beijão

  9. Muito bom seu post, Marmota… eu imagino tudo que as profissionais de saúde presenciam nos hospitais brasileiros da vida. Trabalho com agentes de saúde que são as primeiras a socorrer as meninas da comunidade que acabaram de tentar abortar com as famosas agulhas de tricô e as levam ensanguentadas pros hospitais… barra pesadíssima…

    Mas, também quero defender a mulher de classe média, que traiu o marido, engravidou e não pode ter a criança de jeito nenhum.

    Quem pode saber alguma coisa sobe os mistérios do coração? a paixão, o desejo… e as consequências num país machista como o Brasil podem ser até a morte daquela mulher… acho que não dá pra ninguém atirar pedra…

    Um abraço e parabéns pelo excelente post!

  10. Eu acho que o exemplo não foi exatamente correto, do ponto de vista da proposta.
    Sou a favor do aborto assistido, nas condições citadas no fim do texto: em caso de risco à vida da mãe ou má formação do feto, além, é claro, do motivo de estupro.
    Mas, eu jamais aprovaria deslocar uma equipe médica, num sistema de saúde falido como o nosso, pra fazer um aborto pra uma “senhora” que é tããão livre e independente, no entanto, burra e irresponsável.
    A palavra liberdade, que as pessoas tanto adoram soltar, como se fosse um peido, é atrelada àquele velho limite: a minha liberdade termina onde começa a de outro.
    Se as suas ações envolvem consequências apenas para você, ótimo. Mas, a partir do momento que envolve outros, daí esse “EU, “MEU DIREITO”, “MINHA ESCOLHA”, tudo isso acabou.
    Hipocrisia é um valor (ou falta de valor) que permeia os dois lados da moeda.

  11. Eu, tavez dogmaticamente, sou contra o aborto.

    Por um único motivo: a sua LIBERDADE acaba quando começa a LIBERDADE do outro. Ou seja, você SÓ pode tomar decisões sobre a sua própria vida, sem invadir o direito do outro.

    Ainda mais de esse OUTRO é um filho.

    Um abraço!

  12. Enquanto a hipocrisia impera, uma menina de 14 anos morreu hoje, em São Vicente (SP), por causa de um aborto mal-sucedido, em uma clínica fétida. Será que ela não tinha o direito de escolher?

  13. Sou a favor do aborto, desde que seja feito de forma organizada, controlada e até a metade da gestação. Mas, antes disso, penso que o correto seria conscientizar as mulheres, ou melhor, os casais, a fazerem um controle de natalidade. Fico indignado quando vejo matérias nos telejornais de famílias miseráveis, do Nordeste principalmente, mas que ainda assim têm uma prole enorme… A ignorância deve ser combatida com o mesmo empenho com que é defendida a legalização do aborto.

    Abraços!

  14. Há inúmeras razões para se fazer um aborto desde irresponsabilidade do casal até estupro ou má-formação do feto. Acho que a mulher deve ter o direito sobre o seu corpo e sobre a sua gestação: a liberdade de optar.

  15. Oi, Marmota! Acredito que a mulher deva ter direito ao próprio corpo. Mas também tem obrigações para com esse mesmo corpo. Gravidez é a conseqüência de um ato. Se esse ato é feito com responsabilidade, essa discussão não tem razão de ser. Na maioria dos casos, o “ato” é feito com irresponsabilidade. Na hora do ato sexual, ninguém se preocupa com as conseqüências. E HÁ conseqüências!!! Não podemos considerar a gravidez como algo que ocorre sem mais nem menos. Se fosse assim, óbvio, todos deveriam ter que escolher. A gravidez é conseqüência de um ato consciente (não adianta culpar a bebida ou o tesão!). Na minha opinião, obviamente com a exceção de casos de estupro e de má-formação do feto, a mulher não tem direito nenhum a interrupção da gravidez. Fez? O problema é seu. Essa massa de mulheres que aborta por conta própria é só vítima da falta de educação. Criar clínicas “legais” evitaria muitas mortes, claro, mas só estimularia a irresponsabilidade com o aval do Estado. Transar é bom, é ótimo e não precisa de campanha a favor.

  16. ANTES DE ENGRAVIDAR VIVIA JUGANDO AS PESSOAS Q FAZIAM O ABORTO E AGORA ESTOU ESTOU SENDO JUGADA NAO COMETI O ABORTO AINDA MAS ESTOU TOMANDO CORAGEM AGORA NAO SEI SE VOU FAZER O CERTO OU ERRADO APRENDI A NAO JUGAR AS PESSOAS

  17. Sou totalmente a favor da legalização do aborto!
    De maneira q concordo plenamente q todo mundo esta certissimo qd diz q: tem tantas maneiras d prevenir…,ou, na hora d fazer não foi bom?
    Mas vamos a analisar a questão por outro angulo:
    em um pais como o nosso,ond vive uma sociedade hipocrita e preconceituosa,deve ser direito sim da mulher escolher c quer ou não ter um filho!!!
    Ate pq,pra criticar e opinar ta cheio d gente,mas pra ajudar ou dar um apoio não tem ninguem…

  18. O aborto é crime. Em qualquer circunstância é crime, mesmo quando se trata de estupro ou com risco de vida para a mãe.
    Este pequeno ser humano que tem um pai estuprador deve nascer sim. A mãe tem a opção de ficar com ele ou entregar ao Estado que procurará pais adotivos para ele.
    E se houver risco de vida para a mãe. Existe UM RISCO, e por causa deste risco não faz sentido MATAR a criança.
    Ivo Samel

  19. É simples assim. A mulher trai o marido, engravida do amante e pratica o aborto. Então, alguém vem e diz: coitada! quase morreu! tem de fazer aborto em uma clínica, com equipe médica preparada para não morrer… Que modo de pensar é esse? O pragmatismo é agora uma forma de cegueira? Há uma vítima nessa história: o coitado que foi gerado em meio a um ato de irresponsabilidade de um casal adúltero. A ele não foi dado o direito de opinião. Cadê o respeito ao direito do feto de ter liberdade? Não há justificativa para o abortamento. Quem crê nisso é geralmente um idiota!!!

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