A Santa Ceia segundo os Estúpidos

Depois de sete anos de história, a Sexta-feira Santa semi-pagã na churrascaria parece ter esgotado todo o estoque de bobagens atreladas à religiosidade. Prefiro acreditar que o baixo índice de histórias cabeludas seja reflexo das ausências espontâneas de três personagens fundamentais: Sakate, um dos maiores desconhecedores do catecismo; Trotta, mais um cristão para defender o time de MC Empada; e Lello, o herege graças à Deus.

Já imaginávamos que o nosso “bebê diabo” refugaria diante da namorada, sabidamente católica. Mas eu ouvi de sua própria boca, com todas as letras: “eu deixo ele ir, não quero virar a Yoko Ono dos seus amigos”. Mais: no começo da semana, Lello confirmou presença, desmentindo todas as tendências. No fim, o bobão, todo apaixonado, desistiu de sua cadeira cativa na ceia da Paixão por vontade própria. Imperdoável.

“A gente bem que podia sair daqui e invadir o apartamento daquela bichona”, sugerimos ainda com a maminha na manteiga respingando na boca. Seria muita sacanagem: da última vez que fizeram isso com ele, num domingo à noite, ele simplesmente deixou de olhar na cara da pessoa. Optamos por algo mais sossegado, porém sabidamente ineficiente: bombardeio de SMS.

“Vai, anotem aí: nove nove zero zero, vinte quatro meia nove. Agora podem escrever o que quiser”. Dada a ordem, a avalanche de adjetivos pouco polidos durou uns vinte minutos. Pena que a frase mais legal, “Lello! Boiola! ***** com a carola!” foi vetada, em total respeito ao casal. Para compensar, antigos fantasmas foram invocados: “Lello, estou grávida”, escreveu uma moça na mesa, cujo nome remete a um episódio lamentável – talvez ele nem saiba, mas a tal gravidez da nossa querida amiga (não da xará de seu passado) é mesmo verdade.

Minutos mais tarde, outra furona decide ligar. “Não sei o quê, não sei o quê, fui na despedida de uma amiga, não sei o quê, não sei o quê, já é tarde bagarai”. Tudo bem, naquela altura do jantar, bastava ela cooperar com o spam telefônico. “Pegou o número? Beleza. Pode escrever o que quiser. Chama de viado, ladrão, maconheiro, palmeirense, qualquer ofensa dessas”.

Provavelmente o celular do Lello estava desligado – afinal, havia muito mais a fazer do que receber mensagens. Que sirva de lição: mesmo à distância, outros fiéis companheiros da nossa tradição derramaram seus recados, como símbolo da eterna aliança. Isso feito em nossa memória, amém.

Festa da carne – Como os maiores debatedores estavam longe do Paulista Grill, restou para Narazaki, Fagundes e Adilson divagarem, rapidamente, sobre os temas de praxe.

– Afinal, por que diabos carne de boi não pode, mas peixe e frango podem?
– A carne do peixe é branca, por isso pode… Mas frango acho que não…
– Pode sim, o Vaticano autorizou alguns anos atrás, por causa do aumento dos preços dos peixes.
– E essa gordura da picanha aqui? É branca! Posso comer?
– E essa lata de refrigerante aqui? É vermelha! Então não pode!!!

As meninices só acabaram quando ressuscitaram o significado do jejum, da purificação… Tudo aquilo que se faz depois do Carnaval – esta sim a autêntica “festa da carne” para os cristãos.

– E por que a quarta-feira é de Cinzas? É porque o ano renasce como a fênix?
– Pois é… É cada nome… Cinzas, dia de Ramos… Tem a ver com a Praça Ramos? Com o Tony Ramos?
– Olha, se é a festa da carne, eu não sei. Tudo que eu posso dizer é que no Carnaval os homens cheiram mais bacalhau, e não na Sexta-feira Santa…

Infame. Só faltaram ressuscitar a piada do “qual a parte do corpo da mulher que cheira bacalhau”.

Enfim, a Santa Ceia – Cansados de questionar bobagens sem chegar a qualquer conclusão, Fagundes tratou de arrumar logo uma. Sem sombra de dúvidas, a melhor explicação que já ouvi sobre a histórica celeuma da carne vermelha.

– A história é muito simples. Como os apóstolos não eram lá muito abastados, a última ceia precisava ser como qualquer festa na periferia: cada um tinha que trazer alguma coisa. Simão e Pedro levariam um prato de doce; Bartolomeu e Tadeu, algum salgado. João levaria bebidas, e Mateus o carvão. Então, no começo da noite, me aparece Judas, com a maior cara de pau: “pessoal, desculpe, mas eu não trouxe a carne”. Mas é um traidor de uma figa!
– Garçom, a conta.

Pena que ninguém lembrou também de elencar os novos pecados (manipulação genética, uso de drogas, pedofilia, aborto, desigualdade social e a poluição ambiental) e relacioná-los com a carne vermelha. Belém belém, mais perguntas para o ano que vem. Se possível, longe do Paulista Grill, cujo preço está pra lá de Jerusalém. Se Deus quiser, por que não viabilizar nosso churrasquinho à luz do dia, em Aparecida?

Ok, admito que aí já seria demais… Não?

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O Pentecostes segundo os Estúpidos
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André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (6)

  1. O Lello se vendeu por 30 moedas! Lamentável!

    Faltou ainda a infame história de Jesus e o Poquêr. Quando no Domingo de Ramos todos o saudaram com Ramos (que representavam o dinheiro) e implorando: All-in!All-in!. Ele se deu mal e Judas, o traidor da carne, rapelou as 30 moedas.

  2. Fagundes,

    te garanto que Lello trocou o churrasco por bem mais que trinta moedas de prata! ;)

    E eu não vou nem falar que quando começou a avalanche de SMS eu perguntei se ele ia responder, mas ele quis desligar o celular. Enfim…

    Ano que vem tem de novo, né?

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