A lendária e maldita maldição das três luas

Atenas (Grécia) – Prometi a mim mesmo que não repostaria nenhum calhau. Mas acho que, desta vez, não será possível. Em 18 de julho de 2004, ano de Olimpíadas, decidi publicar este pequeno esforço histórico para resgatar mitos e lendas da Grécia Antiga, berço dos Jogos.

A pequena história que você vai ler a seguir é uma delas. Foi descoberta em 18 de julho do ano passado em um sítio arqueológico em Atenas, durante as obras das novas instalações esportivas. Escrita na própria pedra, em um dos inúmeros dialetos áticos usados na região há mais de quatro mil anos, narra os primeiros anos de vida do jovem Marmos, e apresenta uma série incrível de personagens mitológicos. Divirta-se!

Marmos era um rapaz de origem indo-européia, que nasceu à beira do Mar Egeu por volta do ano 330 a.C. Foi durante uma viagem de férias de sua família ateniense ao sul da península balcânica. Fato bastante raro para os costumes da época: seus pais eram humildes camponeses. Eram trabalhadores e honestos, mas divergiam à sociedade da época por não levar o politeísmo a sério. Talvez por essa razão, o casal deparou-se com a imagem de uma estranho espectro após o nascimento do rebento.

Era Demósfocles, o Deus do Fracasso. Cunhado de Perseu e contemporâneo de Polideuces, era um dos menos conhecidos entre os que viviam no Olimpo, mas inconfundível graças a sua barbicha malfeita, o bigode ralinho e o rabo de cavalo. Anos mais tarde, envolveria-se com uma taberneira, que daria luz ao pequeno Medas, futuro rei da Botocúndia e responsável por incríveis mazelas…

Mas enfim, voltando ao Mar Egeu. A aparição de Demósfocles naquela tarde foi suficiente para gerar uma leve brisa e levantar alguma poeira. Um pouco atrapalhado, o Deus do Fracasso virou-se para o pequeno Marmos e rogou poucas palavras.

– Oh pequena criatura de olhar tímido e rosto engraçado. Você terá uma vida longa e feliz ao lado de seus progenitores, mas terá que pagar pela indolência deles!

– Por Zeus! Tende piedade do meu filho…

– Cale-se! O único Deus por aqui sou eu! Bom, onde eu estava… Ah, sim. Garotinho serelepe, durante a sua existência conhecerás lindas mulheres. Uma delas será a sua alma gêmea, que o acompanhará para todo sempre. Mas enquanto não encontrares, irá se decepcionar com as outras. Ficarás tentado a dividir sua vida com todas elas, mas seu envolvimento não resistirá a três luas, trazendo-lhe muita tristeza e sensação de fracasso! Uhuhuahahahaha!!! – sentenciou, erguendo seus braços e sumindo entre as nuvens.

Os pais de Marmos mudaram sua postura religiosa e, durante anos, acenderam velas para Afrodite, preocupados com a felicidade de seu filho. O jovem Marmos cresceu e, sabendo da maldição perpetrada por Demósfocles ao nascer, tratou de isentar seus pais de qualquer culpa e, ao invés de procurar por garotas, decidiu frequentar a Academia de Platão, mergulhando nos estudos. “Filho, não deixe que o tempo e esta maldição lhe retirem anos preciosos de sua vida”, dizia seu pai. Mas Marmos era teimoso.

Não demorou para que as divindades impusessem a Marmos sua primeira armadilha. Foi num de seus passeios de férias a Creta, onde festejou a Saturnália e a Sigilaria, uma espécie de ano novo grego misturado com um culto a antigos heróis, ao lado de alguns parentes distantes. Tinha dezoito anos quando encontrou uma jovem aldeã de feições minóicas.

– Oi bonitinho! Eu sou Acidália, quer dançar comigo?

– Boa noite, nobre donzela! Eu me chamo Marmos, sou filho de Heródoto e Dardânia e estudo para me tornar…

Marmos não teve tempo de explicar. Acidália tascou-lhe um beijo ardente e, enquanto tentava descobrir o que acontecia, já estava gamado nela. Ao voltar a Atenas, lembrou-se da história contada por seus pais a respeito de Demósfocles e suspirou: “tomara que Acidália seja a mulher da minha vida”.

Exatas três luas se passaram até que Marmos pudesse voltar a ilha de Creta e rever Acidália. Não havia nenhuma guerra ou mesmo comemoração religiosa, o que provocou a surpresa da jovem.

– Marmos?!? O que fazes aqui?

– Vim revê-la, minha amada!

– Mas, mas… Ai, céus… Por Zeus…

Nitidamente desconcertada, Acidália revelou a Marmos que, dias após sua partida, conheceu um rapaz garboso, conhecido de seu tio Tebas. Como achava que jamais voltaria a ver Marmos, decidiu esquecê-lo e casar-se com o outro.

– Será em alguns dias, o tio Tebas está pagando tudo…

– … Que legal, né? Tomara que dê tudo certo – desejou Marmos, antes de se despedir e voltar frustrado para Atenas.

O tempo passou e Marmos, alheio ao crescimento de Esparta e da intervenção macedônica comandada por Alexandre o Grande, seguia sua vidinha burocrática em uma escola helenística e, nas horas vagas, participava dos ensaios de um gupo tragi-cômico de teatro e acompanhava os shows da banda de cítaras do Mestre Orfeu e seus Argonautas, da qual era fã de carteirinha. Ao mesmo tempo, esqueceu Acidália e conheceu Minerva, Ariadne, Core, Mirta, Lídia, Latona, Atena…

Histórias de amor que começavam de maneira diferente. Umas arrebatadoras, outras discretas… Todas marcantes, mas que se perdiam rapidamente após três luas. Marmos se esforçava para não cometer erros, sem qualquer sucesso. Acabava ofendendo três ou quatro gerações de Demósfocles, por não acreditar nos deslizes que cometia. De nada adiantava. Sentia-se o mais fracassado dos homens, como o Deus do Fracasso havia predestinado.

Prestes a jogar a toalha, Marmos julgava estar condenado a jamais cultivar um relacionamento duradouro. Cinco anos se passaram desde seu último beijo quando, numa dessas surpresas da vida, conheceu Calíope. Ao se apresentar, a moça contou ao rapaz que seus antepassados deixaram o Peloponeso – mais precisamente Acaia, onde viviam nas margens do Lago Estínfale – para viver na metrópole e respirar os ares da democracia.

Num primeiro instante, Marmos pouco ligou para a história de sua vida. Estava mesmo era fascinado por aquele par de olhos claros ocultos em longas madeixas loiras. E aquele sorriso… “Só pode ser ela… Só pode ser ela!”, comemorou Marmos. O rapaz driblou o medo, ignorou sua falta de prática e começou a namorar Calíope, determinado a não cometer erros desta vez.

Era um misto de entusiasmo e cautela: Marmos sabia que, se o relacionamento durasse mais de três luas, a maldição seria desfeita. Melhor: viveria para sempre ao lado da mais bela entre todas que passaram em sua vida. Estava cada dia mais apaixonado, mas ao mesmo tempo conduzia sua nova história com muita paciência, sem gerar qualquer expectativa. A resposta de Calíope era imediata: demonstrava claramente que jamais havia conhecido alguém tão dedicado e bondoso.

Apesar disso, tanto Marmos como Calíope estavam muito envolvidos com suas próprias vidas, o que impedia encontros frequentes. Mas Marmos ainda acreditava que seu fardo estava com os dias contados. Tanto que não conseguiu conter a ansiedade na noite em que o namoro completou três luas: queria celebrar ao lado de Calíope o fim da maldição, com um passeio romântico na Acrópole regado a néctar.

Aquela noite começou especial para Marmos. Calíope estava deslumbrante, suas vestes brancas decoradas com discos e jóias de ouro deixaram o rapaz ainda mais nervoso e sorridente. Trêmulo, Marmos se aproximou da amada e, sem tirar os olhos dela, segurou suas mãos macias. Subitamente, pouco antes de beijá-la mais uma vez, algo estranho aconteceu com Calíope. Seu sorriso deu lugar a uma aparência sombria.

– Querido, precisamos conversar…

– Conversar? Mas como assim? O que foi? Explique-se, não me deixe angustiado…

– Preciso lhe confessar: acho que não devemos continuar juntos… Desculpas, mas algo não está bom, me sinto estranha…

Atônito, Marmos não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Para piorar, Atenas foi tomada repentinamente por nuvens negras e uma tempestade assustadora, deixando-o ainda mais desnorteado.

– Por Hera, o que está havendo… Meu amor, não diga uma coisa dessas! Sei que poderíamos estar mais presentes, mas não consigo entender o que mais eu possa ter feito para lhe causar tamanho sofrimento, ainda mais assim, de uma hora para outra…

– Ai, Zeus… Peço-lhe desculpas, querido… Mas você não fez nada errado. Pelo contrário: tu és uma jóia rara, daquelas que jamais encontrarei de novo na vida… Mas…

– Pois então!?! Você não consegue imaginar o quanto é importante pra mim, tudo que você representa na minha vida?! Por favor, me dê uma chance de ser feliz ao seu lado, eu lhe suplico!

O vento aumentava na mesma medida do desespero de Marmos, enquanto raios e trovões cruzavam a Acrópole ateniense.

– Oh, Zeus… Será você, minha misteriosa Calíope, responsável por esta fúria da natureza? Será que são os meus olhos, que me fizeram encontrar em ti a criatura mais perfeita que já pude encontrar? Seriam estes olhos que não me fazem enxergar outra coisa? – E suspirou, antes de levar as mãos ao rosto e chorar.

Marmos já não ligava mais para a fúria da tempestade: as nuvens negras pareciam ser ainda mais intensas dentro de seu corpo, formando uma incrível carga de tristeza e fúria. Deu as costas para Calíope e, ignorando a força da chuva e do vento, fitou o céu e começou a gritar.

– É você, né Demósfocles? Seu… Seu… Como eu te odeio, Demósfocles, com todas as minhas forças! Você não passa de um… Um deusinho idiota, ignorante, nefasto, lazarento, biscateiro sem vergonha… Sua mãe tá na zona, seu desgraçado, marginal, vagabundo… Paunuseuku, Demósfocles fiadaputa ducaraio!

Marmos respirou fundo, tentou readquirir seu autocontrole e virou-se novamente para Calíope, que assistia a tudo desolada, mas impassível. Aproximou-se dela aos poucos, até chegar perto o suficiente para tentar sua última cartada.

– Calíope, podes achar que estou maluco, mas eu amo você. E vou te amar para todo sempre. De nada valem todos os templos dóricos e iônicos do mundo se eu não tiver você ao seu lado para adorar a cada hora do dia. E não existe maldição alguma que me faça desistir disso.

Em seguida, tomou Calíope em seus braços e, num último esforço para se livrar da maldição de Demósfocles, deu-lhe o mais apaixonado dos beijos que se tem notícia nos arredores do Parthenon. Enquanto beijava Calíope, um forte clarão tomou conta da Acrópole. Quando deu por si, Marmos ainda estava tomado pela luz, mas sem a amada nos braços.

– Maldita maldição – murmurou Marmos.

– Tenha calma, não fique assim…

Era a voz de Calíope! Mas ela não estava lá, apenas a luz… Marmos estava confuso, mas não precisou perguntar nada.

– Desculpe te fazer passar por esse apuro, querido. Usei o nome da filha de Júpiter e musa da poesia para me aproximar de ti… Na verdade, não passo de uma entidade luminosa enviada por Oniro, Deus do Sonho…

– Como assim?!? Tá mais pra outra brincadeira do Demósfocles… Ou de Lissa, a personificação da loucura…

– Não pense em bobagens… Vim aqui para te ajudar a desmistificar essa maldição, que na verdade, faz parte da história de qualquer mortal… Acomete até o mais nobre dos heróis, acredita?

– Sério? Quer dizer que, até para rogar maldições, Demósfocles é um fracassado?

– Pois é… Mas não duvide da força de Demósfocles. Tanto que, durante todos esses anos, você acreditou nessa maldição tola…

– Mas você me livrou deste fardo! Senti quando seus lábios encostaram nos meus… Você me ama, Calíope… Ou seja lá quem for… E é de verdade! Significa que.. Você estará comigo para todo sempre!

– Querido, claro que eu gosto de você… Mas não posso estar contigo sob a forma de Calíope. Ao invés disso, serei apenas uma eterna luz em seu caminho. Tenha certeza que outras decepções ainda maiores estão por vir – e não pense que você também não provocará nas demais, como se fosse uma simples obra de Demósfocles. Apenas lembre-se sempre: mesmo se a sua alma gêmea não surgir, você não deixará de ser uma pessoa iluminada.

E antes do clarão se apagar, Marmos ainda ouviu duas palavras: “fique bem”… E a tempestade deu lugar a um magnífico entardecer, imagem que perdurou na memória do jovem Marmos até o fim dos seus dias.

A lenda só não diz se ele viveu feliz para sempre. Culpa da pedra. Sempre.

Em tempo: clique aqui para aprender alguma coisa verdadeira sobre a Grécia antiga.

Comentários em blogs: ainda existem? (6)

  1. Para que clicar naquela página, se a verdadeira história da Grécia, a lenda real de Marmos, está aqui! SIM!! O escrito de Aristóteles, no qual falava do riso, não se incinerou em Alexandria! “Fique bem”, foi o que fez Deus sorrir!

  2. caraio, marmota…
    estou quase perdendo a hora de ir busca a mali no jazz, e não consegui para de ler…
    ahhh, que imaginação, Pô…..
    claro, que gostei!

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