A história (resumida) das festas juninas

Está chegando a hora de gritar “viva São João”, além de se arrepender por ter esquecido de Santo Antônio – aliás, diziam na minha infância que só chove dia 24 porque alguém não fez fogueira no dia 13. Apesar de São João ser o mais aclamado (tanto que muitos dizem “festa joanina”), sempre achei que essa historinha do mau tempo fizesse sentido, já que o terceiro festejado é São Pedro, só no dia 29…

Mas enfim. Quem não estiver em Caruaru, Aracaju ou qualquer cidade do Nordeste especializada nessa festa durante o mês inteiro, vale a pena comemorar o dia de São João em uma quermesse, daquelas do tempo da Vivi. Com bolo de fubá e pé-de-moleque, barraca da argola e da pescaria, quentão e vinho quente, fogueira e rojão, quadrilha e chapéu de palha, cadeia e correio elegante… Mesmo que a sua idade não seja a mesma daquela época em que você vestia camisa de fazenda xadrez e calça de brim com retalho costurado – aliás, uma das providências deste final de semana vai ser justamente visitar uma festinha dessas.

Mas você sabe de onde partiu essa idéia de festa junina?

Curiosamente, a origem dos festejos não tem nada de católico: as mais antigas comemorações ao redor da fogueira eram consideradas pagãs pela Igreja! Estas festas bárbaras (e aqui “bárbara” não quer dizer “chiquérrima” ou “poderooosa”) datam por volta do Século VII, e celebravam o início do verão na Europa. O fogo e a dança eram usados para afugentar espíritos malignos e pedir sucesso na colheita.

Pois o que era diabólico na Idade Média chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, sempre com a tal conotação agrícola. Como tudo nesse país, a festa sofreu todo tipo de influência dos povos que aqui viviam. A começar pelos cristãos, que trocaram o motivo da comemoração: ao invés do solstício, os santos.

Antônio viveu no Século XII e fez sucesso no Brasil justamente por ter nascido em Lisboa. Ganhou fama de casamenteiro, apesar de sua biografia não revelar nenhuma história que garanta isso. Tão inexplicável quanto a tradição de deixar sua imagem de cabeça para baixo até encontrar o par desejado… Ficou ainda mais forte assim que inventaram o dia dos namorados, na véspera do dia 13.

Os outros dois figuram como grandes personagens do catolicismo: João Batista era primo de Jesus – sua mãe Isabel, prima de Maria, acendeu uma fogueira assim que o filho nascera (mais um sentido pro símbolo da festa). Pedro, o pescador, é um dos fundadores da religião – e considerado o primeiro papa.

Ao mesmo tempo, costumes negros e indígenas foram adicionados às tradições européias e cristãs, transformando a nossa festa junina em algo tipicamente nacional. Só no Brasil você encontra um povo tão religioso e animado – especialmente no nordeste, onde Campina Grande (Paraíba), Caruaru (Pernambuco) e Aracaju (Sergipe) passam o mês inteiro à base de forró, boi bumbá, milho e leite de coco.

Cantigas juninas
Esse post fica melhor
com a trilha sonora:

“Pula a fogueira Iaiá
Pula a fogueira Ioiô
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira
Já queimou o meu amor”

“O balão vai subindo
Vem caindo a garoa
O céu é tão lindo
E a noite é tão boa
São João, São João
Acende a fogueira
No meu coração”

“Com a filha de João
Antônio ia se casar
Mas Pedro fugiu com a noiva
Na hora de ir pro altar”

“Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimonio
São João disse que não
São João disse que não
Isto é lá com Santo Antônio”…

E a quadrilha? – Trata-se do momento alto da festa: o casamento caipira, com o noivo e a noiva abrindo a fila de casais. Sua origem é inglesa, por volta dos séculos XIII e XIV. Durante a Guerra dos Cem Anos, França e Inglaterra trocaram, além de balas de canhão, experiências culturais. Em pouco tempo, tornou-se uma dança palaciana nobre.

Chegou aqui junto com as festas juninas e, claro, não demorou muito para sair da corte portuguesa e cair no gosto do povo, alterando o ritmo da dança e incluindo o som da sanfona, do triângulo e da zabumba. Ganhou inúmeras variantes país afora, mas basicamente os “comandos” da dança são os mesmos. Vamos lembrar alguns?

Cavalheiros cumprimentam as damas – Depois de todos os casais entrarem com os braços dados, formam uma fila. Cada casal separa os braços, vira e fica um de frente para o outro – como resultado, temos duas filas. Ao sinal, os rapazes caminham juntos, tiram o chapéu e dão uma abaixadinha. Na sequência é a vez delas, que se abaixam enquanto seguram a barra da saia.

Balancê – O casal dança juntinho, ao ritmo da música e com o braço estendido. Também funciona bem caso o marcador, responsável pelos comandos, não souber o que vem a seguir: diz balancê e pronto.

A grande roda – Os casais se encontram novamente e se dão as mãos. Depois que a roda se armou, vem outros passinhos: a coroação (quando as damas ficam na frente e os cavalheiros botam o braço na frente) e o caracol (que leva alguns minutos até acabar).

O caminho da roça – É a parte mais conhecida: as damas ficam na frente dos cavalheiros e caminham num sentido. Todos pulam e trocam de lado de acordo com o comando do maestro: olha a chuva/já passou, a ponte quebrou/já consertou, olha a cobra/é mentira…

Parte final – Aqui cada um faz de um jeito: tem o galope, onde as os casais ficam de frente e se encontram, um por vez, passando pelo meio do povo; tem o túnel, onde o casal da frente ergue os braços para o que vem atrás passar; e tem a despedida, quando os casais cumprimentam os espectadores.

Minha recordação com a típica dança junina não é das melhores. Eram dias de ensaios constantes no pátio, junto da minha parceirazinha, sempre ao som de um velho disco com musiquinhas tradicionais. Estava animado no dia da festa da escola, mas meu par não veio. Tive que dançar com uma professora chata… Foi traumático.

(Em tempo: as belas imagens de mais esse dispensável rascunho de idéias foram retiradas do site da Irene – dica da Roberta).

(Postado em 24/06/2005)

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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