A gente se encontra aqui, no meio da multidão

Reitero aqui minha opinião dos últimos anos: se um dia decretassem o fim do Carnaval Brasileiro, certamente não faria diferença na minha vida. Mas preciso admitir que nem sempre foi assim. Quando criança, achava divertido ficar acordado de madrugada para assistir aos desfiles da TV. Brincava com o controle remoto pra comparar a transmissão da Globo e a da Manchete – aliás, achava que a Manchete era a “dona do Carnaval”, tudo por causa da escultura em forma de M na praça da apoteose…

Lembro bem do Carnaval de 1989. Tinha quase doze anos, e acabara de retornar de Brasília, onde “moramos” por pouco mais de dois meses. Estendia um colchão velho na sala e dormia ali mesmo, com a TV ligada. Acordei com o desfile da Beija-Flor, com toda aquela gente maltrapilha e um Cristo Redentor ensacolado, com a mensagem “Mesmo proibido, olhai por nós”. Achei aquilo diferente, e por isso mesmo sensacional. Bateu uma pontinha de frustração quando vi a Imperatriz e seu “liberdade liberdade abra as asas sobre nós” derrotar a ousadia de Joãozinho Trinta.

Aos poucos, aquela sensação ingênua da infância foi se perdendo em meio a liberalidade total e exploração gratuita de bundas e peitos. paralelamente, achava besteira as escolas de samba perderem pontos por questões tão subjetivas quanto harmonia ou mestre-sala e porta-bandeira.

E o que é mais estranho: esse monte de regulamentações, que talvez faça algum sentido em carnavais como São Paulo e Rio, também é aplicado em cidades como Pelotas ou Mogi das Cruzes, com escolas modestas e sem estrutura para botar um tripé na avenida – ora, pra quê sambódromo ali? Por que não pegar esse dinheiro e aplicar em blocos tradicionais, carnaval de rua, entre outras atividades mais atrativas?

Resumidamente: o mais importante não era festejar com alegria, mas sim estabelecer metas técnicas, como uma empresa tentando obter a certificação ISO 9000. Tanto que faz pelo menos dez anos que não me dou ao luxo de saber qual é o samba-enredo da escola tal.

Apesar de ter uma certa curiosidade jornalística em saber o que houve com a Unidos do Cabuçu, que certa vez homenageou os Trapalhões no Grupo Especial (Didi Dedé, Mussum e Zacarias… Seu mundo é, encanto e magia…).

Mas enfim. Num desses relances televisivos em meio ao plantão carnavalesco da redação, peguei vinte minutos do desfile da Caprichosos de Pilares. Minhas referências passadas eram ralas: tinha uma visão irreverente do puxador Carlinhos de Pilares, além de enredos não-menos irreverentes. Abstraí o exagero midiático em função da Luma de Oliveira e prestei atenção na escola: tratava-se de uma homenagem aos 20 anos de Liesa, a liga das empresas de samba do Rio, que coincide com a inauguração do sambódromo.

E passavam as alas, cada qual com um nome que remetia a trechos de sambas de carnavais passados. Alguns marcantes, como as águas rolantes da Mocidade, as bananas da Imperatriz, o Kizomba da Vila Isabel, o Ita do Salgueiro…

Durante aqueles 20 minutos, lembrei o quanto eu achava bacana tudo aquilo. Até cantarolei o samba da Caprichosos…

Hoje é Carnaval
Vem se encontrar, chegou a hora
Vamos recordar e ver também o bumbum de fora
No me dê, me dá
A Caprichosos brinca com você
Ajoelhou tem que rezar, olha aí tem ti-ti-ti
De novo na Sapucaí

Eu ouvi alguém gritar bota fogo nisso
A virgindade já levou sumiço
Pisa na casca de banana e escorrega
Moça bonita aqui também não leva
Bumbumpaticumbumprugurundum nos avisou
Nessa kizomba, viu, tudo mudou
Carnaval, sedução, palco de ilusão
Vista sua fantasia.

Povo e liga se abraçam, 20 anos de passam
O “Ita” foi só alegria
A rosa que desabrochou campeã
Numa explosão de amor… (Parabéns)
Parabéns, palmas para os sambistas
Carnavalescos, artistas, sem vocês não tem show
Não vai dá pra terminar, eu tava de bobeira
Um pivete beteu-me a carteira

É carnaval, é samba a noite inteira
Mulata, cachaça, tem muita zoeira
Vem cá meu bem, me dê seu coração
E não a bolsa, o relógio e o cordão

Na quarta-feira, soube pelo Zero Hora que “a Beija Flor era tricampeã com enredo gaúcho”, sobre os sete povos das Missões – aliás, típica manchete do ZH. E que a Caprichosos, cujo desfile foi tão bacana, ficou em 11º. Detalhes, detalhes: alguns décimos em cada quesito. Depois não querem alimentar o desprezo pelo Carnaval do Rio…

(Postado em 10/02/2005. Coincidência, esse ano a Beija-Flor ganhou de novo…)

Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Trotta pelo movimento CALHAU É LEGAU! o/

    Olha, tô aprendendo a gostar de carnaval esse ano. E esse seu texto tem tudo a ver! É só dar uma chance pra ele, coitado! Vc acaba achando algo pra gostar, hehehe!

    Abraço!

  2. Como bom carioca, te deixo um desafio: vá passar um carnaval em Salvador que eu quero ver você repetir “Reitero aqui minha opinião dos últimos anos: se um dia decretassem o fim do Carnaval Brasileiro, certamente não faria diferença na minha vida.”

    :)

  3. Com certeza deveriam deixar regras pra esses carnavais televisionados, o carnaval de rua deveria ser mais cultivado no país inteiro, particularmente não sou fã de nenhum dos dois, mas quem vai sempre gosta né?

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