A feiosinha chega à formatura do ginásio

Lembra daquela menina muito feia da sua oitava série? Arrumava-se mal, vestia-se como os meninos e jogava futebol como um deles; usava as piores gírias para conversar com os colegas e os professores – e quando isso acontecia, normalmente era para enrolá-los de alguma forma. A primeira vista, ninguém entendia como aquela criatura conseguia aparecer a cada semana com um namorado diferente. Na verdade, como ela era filha do diretor e, ao menos, tinha uma região glútea bem delineada, a feiosinha da oitava série acabava sendo “a menina maravilhosa”.

Sua constante circulação na secretaria, seja para responder por alguma traquinagem ou dar um alô aos amigos, transformou a mocinha em uma espécie de símbolo da comunidade estudantil. Tanto que, por mais que houvessem alunos mais dedicados e inteligentes, ou ainda mocinhas mais bonitas e perfumadas, a feiosinha da oitava série acabou escolhida pelo conselho de formatura para ser a oradora da turma.

Apesar dela ter recebido a notícia semanas antes, ela só tomou alguma providência na última hora. Faltou em todas as aulas de fonoaudiologia e etiqueta propostas pelo conselho. Comprou o vestido mais caro em uma das lojas mais chiques da cidade – um modelo parecido poderia ser encontrado no Bom Retiro pela metade do preço, mas como ela tinha um cheque em branco do pai, não deu a mínima. Faltando algumas horas para o grande evento, ela esbanja os últimos recursos (que não são dela) em uma maquiagem da pesada. Era a mesma feiosinha de sempre, mas estava irreconhecivelmente gatinha depois daquele banho de loja.

Durante a festa de formatura, muita gente ficou de boca aberta… Esnobes que sempre a ignoraram agora convidavam-na para dançar. Claro que ela pisava nos pés alheios, dava umas tropeçadas e, na hora do discurso, emendava algumas engasgadas. Mas no geral, mostrou desenvoltura suficiente para arrancar alguns aplausos e ser venerada até mesmo pelos professores – que, diga-se, sempre deixavam a feiosinha em recuperação no final do ano. Naquela altura, não importava mais: o sonho agora era o competitivo vestibular de medicina.

Já entendeu a metáfora? – Os Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, que custaram a vários bolsos (entre eles o nosso) cerca de R$ 3,5 bilhões, reúnem a partir desta sexta-feira nada menos que 5.500 atletas, sendo 659 brasileiros. A elite do esporte nacional vai competir de igual para igual com os melhores atletas do continente em diversas modalidades. Quer dizer, como o Pan não é assim, digamos, uma competição que valha alguma coisa, alguns países (como Canadá e EUA) mandaram para o Brasil o time B (em alguns casos, o C), para tentar abiscoitar algumas medalhinhas. Isso quer dizer que nem todo esporte vai contar com aquele nível de excelência encontrado em campeonatos mundiais, seletivas pré-olímpicas ou os Jogos Olímpicos propriamente ditos.

Resumidamente: o Pan é a festa de formatura do Ginásio, que não deixa de ser muito divertida mas, na prática, está longe de ser a pomposa (e mais difícil de conseguir) colação do curso de medicina. E a cidade do Rio de Janeiro, depois de ser convidada para ser a rainha da formatura, pode até sonhar com um futuro melhor – e tem tudo para isso. Mas enquanto ela não parar de se apoiar na influência nos bastidores, estudar o tempo todo para aprender no fim ao invés de se preocupar apenas em passar de ano, e em apenas dar uma guaribada antes do baile com dinheiro que não é dela, vai continuar sendo apenas a feiosinha da oitava série.

Um, dois, ele vai te pegar – O que dizer de um evento que começa em plena sexta-feira 13? O azar começou com a nossa enquete, no ar há quase dois meses. Deviam ter pelo menos 200 votos, a maioria para a alternativa “quero mais é que o Pan se lasque”. Todos foram perdidos, de alguma forma totalmente misteriosa. Para que ela não perca totalmente a validade, vamos deixá-la no ar mais um tempo.

Até porque, mesmo nesta quinta-feira, quando já tivemos partidas de futebol feminino válidas pelo torneio (entre elas a espetacular peleja entre Equador e Jamaica), pouca gente havia se dado conta que o Pan começou. Como mostrou o Bruno Doro, no começo da tarde: nada de novo na borracharia do seu Zé, nem na loja de plantas do seu Wilmar. Todas bem próximas do estádio do Complexo Miécimo da Silva, em Campo Grande.

Talvez porque, oficialmente, o Pan comece nesta sexta. Aliás, se estiver lendo isso depois da abertura, não deixe de escrever aqui o que achou, tá?

Pan todo dia? Aqui, ó – Eu bem que tinha pensado, no início do ano, em dedicar este espaço aos joguinhos do Rio enquanto a brincadeira estivesse sendo realizada. Até rabisquei em meu caderno de anotações alguns assuntos batutas para desenvolver paralelamente ao decorrer do Pan. Agora, percebi que se eu realmente parar para escrever apenas sobre as competições, vou ficar totalmente pirado.

Para reforçar o plano de seguir a tônica de sempre e alternar o Pan com outras bobagens palpitantes, vou levar em conta o comentário muito simpático da Mara: “é disso que eu gosto nesse blog, tem sempre uma surpresa interessante. Uma hora é aquele revival anos 80, outra hora, alguma atualidade das comunicações ou dos esportes, e, quando menos se espera, um textinho singelo.” Obrigado, Mara! É a certeza de que o objetivo deste lugar (servir como extensão dos meus pensamentos aleatórios) está sendo atingido!

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (7)

  1. De todos estes blogs do Interney, até tentei começar a ler os outros, mas o seu é o único que achei legal pois não fica na pira de metalinguagem, ou seja, só falando dos próprios “probloggers”…

    Teu blog é bacana, parece despretencioso, mas tuas opiniões são, via de regra, muito parecida com as minhas, então é legal ler e ver que outros pensam como esse bobo aqui tbm…
    hehehehe

    E o Rio??? Torço pra não dar muuiito errado esse Pan!!

  2. Andrézão meu broder,
    Eu não entendo nada de PAM, não gosto, troco de canal quando falam disso. Mas numa veizinha que eu não troquei de canal tinha uns cabeção da espn (acho) que tavam falando exatalymente isso, que muitas modalidades só teriam competições realmente de nível se fosse qualificatórias pra tal das olimpiádas. Então, isso serviu pra me convencer de que o tal do PAM não é lá tão importante quanto querem fazer o pocotó médio acreditar. bléeh! Pior é que vejo muita gente pagando maior pau pra competição, provavelmente por falta de assunto mais importante né. Ou alguém se preocupa com a daiane hipolito ou a daniela dos santos quando elas não estão no pam?
    abração broder, bom final de semana pra ti

  3. Eu não vou escrever sobre o Pan no blog.

    Ou melhor: vou escrever 2 vezes…

    1)pra te indicar – quem quiser se atualizar, que venha pra cá!
    2) ao final, pra colocar o quadro de medalhas, quem sabe!…

    Afinal:
    * o assunto é chato;
    * vai ter trocentas pessoas falando disso em todos os lugares que eu for (mas eu não confio em nenhuma!!)
    * tu é um dos poucos que tem competência pra falar nele sem me irritar… :P

    Boa sorte na cobertura do Pan!

    Tomara que tu saia vivo desa, hahaha!

    :D

  4. A cerimônia foi belíssima. Espero que tudo corra bem. Infelizmente o mal do Brasil é contar com uma população que não valoriza seu próprio país (todos acreditam que coisas ruins irão acontecer).

    E a prova foi a falta de educação das pessoas que vaiaram a comitiva americana e o nosso presidente. Por mais revoltados que estejam com a politica americana, descontar nos atletas não é certo. E muito menos desrespeitar a autoridade máxima de nosso povo para todo o mundo ver.

    Foram os dois pontos negativos da festa, que fora isso foi espetacular.

  5. Nó…quanto coisa dura…. hoje vc acertou em cheio.
    mas quer saber? adorei a abertura, achei a festa linda, e vou torcer pelo voley e pelas menininhas da ginastica, menos pelo irmão hipólito… sou hiper preconceituosa, num suporto quem tem cara de bundão…
    bjos bom domingo.

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