Um dia perfeito no safari

Por Adriano Trotta

Havia um grande executivo, muito rico, porém muito pessimista. Ele tinha uma bela assistente pessoal, que o acompanhava em todos os seus negócios. Sempre que ele encarava alguma situação de forma derrotista, ela respondia dizendo:

— Não se preocupe, senhor. Tudo ficará bem no final.

Aquele otimismo sem sentido irritava o executivo. No entanto, de certa forma, o fazia se sentir melhor. Por isso, quando ele resolveu fazer um safari na Indonésia, levou sua assistente com ele.

Durante uma caçada, o executivo e a assistente se viram acuados por um tigre. A fera pulou sobre o executivo e o atacou ferozmente, enquanto este gritava desesperado, esperando a morte certa. Mas sua assistente não se deteve, pegou uma pesada pedra do chão, atirou-se sobre o tigre e o golpeou fortemente na cabeça. O felino fugiu assustado em disparada, sumindo em meio à floresta.

Enquanto os dois se recompunham do susto, puderam perceber que, no calor da batalha, o tigre abocanhou o polegar da mão esquerda do executivo. Assustado com o sangue, só então ele começou a gritar de dor. Sua assistente rapidamente chamou os guias pelo celular, e disse:

— Não se preocupe, senhor. Tudo ficará bem no final.
— Tudo ficará bem? TUDO FICARÁ BEM?! Eu perdi meu dedo! Como vai ficar bem?! Pra mim já chega! Seu otimismo me irrita, você está despedida! Vá embora daqui, suma da minha frente!

Os guias chegaram, encontraram a assistente cabisbaixa e o executivo gritando e xingando de dor. No mesmo dia, ela pegou um voo de volta para seu país.

Depois de recuperado, o executivo saiu novamente em mais uma caçada na selva, desta vez, sem a companhia de sua assistente. Logo ele se perdeu dos guias e se viu sozinho. Após muito caminhar, resolveu acender uma fogueira e gritar por ajuda… mas isso apenas atraiu a atenção de um grupo de canibais que passava por perto. Os nativos então o capturaram, e o levaram amarrado para a aldeia.

Ao pôr do sol, os canibais fizeram danças e rituais em torno do fogo e, então, levaram o prisioneiro para ser oferecido em sacrifício a seus deuses. Diante do executivo amarrado, o sacerdote dos nativos pegou uma longa espada e a elevou lentamente acima de sua cabeça. O aço reluzia com o reflexo da fogueira. No momento de desferir o golpe, um dos nativos gritou ao longe:

— Berhenti! Dia cacat. Tidak ada satu jari.

Imediatamente, as festividades se encerraram. Os nativos reclamaram, as amarras foram soltas, e o executivo foi libertado.

Após caminhar durante toda a noite pela selva, o executivo finalmente encontra seus antigos guias acampados, pois haviam organizado buscas para encontrá-lo. Muito surpresos, eles ouvem seu relato. O executivo, então, pergunta o que queria dizer aquela frase: “Dia cacat. Tidak ada satu jari”. E um dos guias responde:

— Significa: “Ele está defeituoso, falta um dedo”.

Tudo fez sentido. E assim, o executivo resolve voltar para casa.

Tão logo ele chega, procura sua ex-assistente e conta toda a história de como se salvou dos canibais. Então, o executivo oferece a ela o antigo emprego, com um substancial aumento. E ela aceita, é claro.

Em prantos, ele pede desculpas pelas coisas que disse à assistente. Ao que ela responde:

— Está tudo bem, senhor. Se eu não tivesse sido demitida, estaria com o senhor na caçada, também seria capturada pelos canibais, e seria eu a sacrificada para os deuses, porque tenho todos os dedos.

Por isso, pare de reclamar. Espere. Tudo sempre fica bem no final.

Enquanto Marmota passa por dias perfeitos descansando e viajando, a série Colônia de Férias apresenta textos gentilmente preparados por seus amigos.

Comentários em blogs: ainda existem? (4)

  1. Baahh!! Parece aquelas mensagenzinhas que chegam por e-mail em arquivo powerpoint.

    Eu fiquei achando que o tal chefe ia comer a assistente no meio da selva.

    Pensem bem, se fosse mesmo um dia perfeito, os canibais teriam matado o chefe mal-humorado.

Vai comentar ou ficar apenas olhando?

Campos com * são obrigatórios. Relaxe: não vou montar um mailing com seus dados para vender na Praça da República.


*