BBB e a ética do marceneiro

Alguns assuntos são recorrentes em mesas de bar com os amigos. Um dos mais comuns, por incrível que pareça, diz respeito a ética. Normalmente, acontece quando um dos cavalheiros inventa de pedir refrigerante diet e uma porção de picanha na chapa. “Isso não está dentro das regras que orientam uma conduta baseada na moral. É desonesto”, vocifera alguém, antes do árduo debate que vem na sequência: pedir refrigerante diet e picanha é antiético?

Ultimamente, outro tema inquietante deixa as redações e as borracharias para ganhar vida nos botecos: Big Brother. Um negócio que tinha tudo para encher o saco rapidamente, mas cuja quinta edição vem ultrapassando todos os recordes de audiência – e aqui, uma ressalva: não por minha culpa. Ao que tudo indica, as intrigas e joguinhos provocados no programa, além da divisão entre o bem e o mal, são as grandes responsáveis pelo sucesso.

Durante as últimas semanas, o debate sobre o programa recaía em Rogério Padovan, cirurgião que ganhou a antipatia do país – ao menos dos 92% que o convidaram para deixar a casa. Num desses papos, veio à tona o nome de Cláudio Abramo, jornalista cuja história de vida talvez não seja tão conhecida nas faculdades quanto seu livro, A Regra do Jogo, e a sua não menos conhecida Ética do Marceneiro.

Abramo tinha como hobby a marcenaria: gostava de fazer móveis. E dizia: “minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista – não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão… O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito”.

Ou seja, segundo ele, o ser-humano não pode ter duas éticas: uma no seu trabalho, outra fora dele. Instintivamente, a idéia de Claudio Abramo foi aplicada ao rejeitado Doutor Rogério. Que saiu, segundo fontes, dizendo que “quanto mais conhecia os homens, mais gostava dos seus cachorros”.

Tudo bem, trata-se de um programa de entretenimento família, uma novela com cidadãos comuns representando em busca de um milhão. Mas até que ponto a ética do BBB Rogério se mistura com a do cirurgião Rogério – ou mesmo com a do cidadão Rogério? Faz sentido ter duas ou mais regras de conduta?

Como o assunto vai longe – e pode ser aplicado em outra casa infestada de jogadores doidos para faturar uma grana, vou pedir mais um refrigerante. Normal, claro.

André Marmota acredita em um futuro com blogs atualizados, livros impressos, videolocadoras, amores sinceros, entre outros anacronismos. Quer saber mais?

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Comentários em blogs: ainda existem? (6)

  1. A lógica do refrigerante diet depois do espeto corrido é – apesar da dieta já ter ido pro espaço – por que acrescentar mais calorias se é possível optar por algo virtualmente sem nenhuma sem prejuizo do sabor (para quem gosta de refrigerantes diet). Aí entra o gosto pessoal, e gosto é que nem pescoço, cada um tem o seu.

    O mesmo não se pode dizer da ética. Sou daqueles que pensa – para continuar no campo dos trocadilhos infames – que ética é como mãe, só há uma.

    Ainda bem aqui no Canadá não tem Big Brother…

    abraço

  2. Há uma frase, atribuída a Mahatma Gandhi, que corrobora essa tese do Abramo: “Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível”.

  3. O Caso Rogério BBB foi ridículo, o que me deixa mais irado nessa de BBB é que os caras entram em parafuso, eles não conseguem falar de outra coisa, senão de eliminação, paredão e indicação (tudo ão como você pode ver, não pode dar em boa coisa).
    Eles deviam aproveitar mais a casa, pois aquilo é um hotel de luxo em que você tem que lavar, passar, cozinhar e limpar. De resto é tudo de bom, mas não, são 24 horas falando das ameaças e calculando riscos desnecessários.
    Tomemos por exemplo o Paulo André, tá na cara que o cara é porra loca e um bon vivant, porém dentro da casa ele mudou completamente, tornou-se ranzinza e chato, ou seja, não demonstrou quem é ele na verdade… mas, vai-se entender o que rola na cabeça da pessoa em confinamento.
    Abraços

  4. Boas associações André. Ética é a canga (ela te aprisiona sim, te limita) que escolhemos carregar. E que é necessário carregar para que possamos ser críveis. Agora quero ver quem vai negar que nunca pisou numa zonaa franca. 😉

  5. Muito boa discussão! Muito bom pensar sobre este assunto! Agora, pensar sobre o Big Brother é pura perda de tempo. E o tal médico, que ele volte a ter a vida dele e não sofra com complexos de rejeição.

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