{"id":89,"date":"2007-11-02T23:30:59","date_gmt":"2007-11-03T02:30:59","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/pensamentos-soltos-sobre-web-2-0"},"modified":"2007-11-02T23:30:59","modified_gmt":"2007-11-03T02:30:59","slug":"pensamentos-soltos-sobre-web-2-0","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/pensamentos-soltos-sobre-web-2-0\/","title":{"rendered":"Pensamentos soltos sobre web 2.0"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/fiquepordentro.gif\" align=\"right\" \/>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar na professora <a href=\"http:\/\/www.polipress.com.br\" target=\"_blank\"><b>Pollyana Ferrari<\/b><\/a>, especialista em jornalismo digital (e autora de dois livros sobre o tema). Em junho de 2006, ela colocou no ar o projeto <a href=\"http:\/\/www.remixnarrativo.com.br\" target=\"_blank\"><b>Remix Narrativo<\/b><\/a>, site que se transformaria em seu objeto de estudo no doutorado. A id\u00e9ia \u00e9 gerar um coletivo colaborativo com intensas trocas de narrativas. Al\u00e9m de mapear o banco de dados para entender a estrutura das participa\u00e7\u00f5es, a proposta \u00e9 verificar o impacto do jornalismo &#8220;open source&#8221; na tradicional m\u00eddia de massa: com o poder da informa\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, o homem muda completamente seu modo de se relacionar com o mundo.<\/p>\n<p>Foram quatro anos, at\u00e9 a <a href=\"http:\/\/remixnarrativo.blogspot.com\/2007\/10\/tramas-cognitivas.html\" target=\"_blank\"><b>defesa de sua tese<\/b><\/a> no final de outubro. N\u00e3o foi s\u00f3 seu t\u00edtulo de &#8220;doutora&#8221; que me deixou com um sorriso no rosto, mas tamb\u00e9m o fato de ter contribu\u00eddo um tiquinho com seu trabalho ao responder tr\u00eas perguntinhas inocentes sobre esse riqu\u00edssimo per\u00edodo em rede. Enviei o e-mail aos 47 do segundo tempo &#8211; se por um lado o tema reacende minha vontade de investir num mestrado, a eterna procrastina\u00e7\u00e3o questiona meu sucesso acad\u00eamico&#8230;<\/p>\n<p>Mas enfim. Diz ela: &#8220;sua entrevista para a tese foi a mais comentada e a Lucia Le\u00e3o (autora do livro &#8220;O labirinto da hiperm\u00eddia), que tava na banca, quer te conhecer&#8230;&#8221;. Enquanto a Pollyana n\u00e3o publica sua tese, reproduzo aqui minhas respostas, todas baseadas em pensamentos aleat\u00f3rios (muitos deles j\u00e1 reproduzidos neste espa\u00e7o em momentos descentralizados). Quem conseguir chegar ao fim, pode perfeitamente dizer se o fato de uma PhD em comunica\u00e7\u00e3o querer conversar \u00e9 algo bom ou ruim&#8230;<\/p>\n<p><u>1) Qual sua opini\u00e3o sobre a web 2.0? Que exemplos voc\u00ea me daria como solu\u00e7\u00f5es 2.0 na rede?<\/u><\/p>\n<p>N\u00e3o gosto da express\u00e3o &#8220;web 2.0&#8221;, apesar de respeitar seu conceito e especialmente admitir a populariza\u00e7\u00e3o desta express\u00e3o. Nada contra o Tim O&#8217;Reilly&#8230; Digo que n\u00e3o gosto porque o termo foi criado levando em conta apenas os novos servi\u00e7os onde o usu\u00e1rio colabora e organiza a informa\u00e7\u00e3o. Como se houvesse uma necessidade de &#8220;rotular&#8221; o atual momento da web, em fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Eu penso que a influ\u00eancia da rede na sociedade, envolvendo pessoas e comunidades conectadas em um ambiente democr\u00e1tico, sem fronteiras e colaborativo (o que chamamos de cibercultura) j\u00e1 traz esse conceito. J\u00e1 ouvi a express\u00e3o &#8220;web 3.0&#8221;, que diz respeito a uma organiza\u00e7\u00e3o ainda mais eficiente, baseada em &#8220;mashups de softwares&#8221;, bibliotecas de c\u00f3digos conjugados pelos pr\u00f3prios usu\u00e1rios&#8230; Isso me parece bobagem, especialmente num pa\u00eds onde, se usarmos a mesma nomenclatura, ainda estamos na &#8220;web 1.1 beta&#8221;: s\u00e3o apenas 20% de habitantes que j\u00e1 tiveram contato com a Internet em algum momento.<\/p>\n<p>E destes, ainda sobram aqueles que recebem por e-mail aquele apelo ou promo\u00e7\u00e3o fake, aquele texto que n\u00e3o \u00e9 do Ver\u00edssimo\u2026 Enfim, todas as bobagens que v\u00e3o parar na Internet e que, no meio do mais puro entretenimento, se transforma em verdade absoluta. Quando descobrem ferramentas de busca como o Google, surge outro problema: os usu\u00e1rios n\u00e3o separam o joio do trigo. Qualquer resultado de busca, independente da origem, aparece na mesma tela. Atualmente, s\u00f3 existe uma forma de controlar isso: a partir do discernimento do pr\u00f3prio internauta, isoladamente.<\/p>\n<p>Isso infelizmente s\u00f3 vai se concretizar quando o usu\u00e1rio tamb\u00e9m for &#8220;2.0&#8221;, isto \u00e9, quando outro conceito bem popular &#8211; o de \u201cinclus\u00e3o digital\u201d &#8211; for al\u00e9m de um simples \u201centregue um computador barato e uma conex\u00e3o pro nosso amigo a\u00ed\u201d. Melhor n\u00e3o ir mais longe, at\u00e9 porque uma por\u00e7\u00e3o de aventureiros, interessados em expandir seus neg\u00f3cios na rede, tamb\u00e9m est\u00e3o na fase &#8220;1.1 beta&#8221;.<\/p>\n<p>Mas enfim. Sobre exemplos, desde o boom do Wikipedia, esp\u00e9cie de &#8220;exemplo n\u00famero um&#8221; de web 2.0, muitas solu\u00e7\u00f5es apareceram especialmente ap\u00f3s a populariza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os baseados em tags (palavras-chave, como Flickr, YouTube ou del.icio.us), sem falar no Ajax, que combina JavaScript e XML, e que est\u00e1 na crista da onda &#8211; eu, por exemplo, n\u00e3o vivo sem minha janela do Netvibes, repletas de feeds organizados por temas.<\/p>\n<p>Apesar disso, eu acredito ainda mais no poder dos blogs &#8211; tanto que, entre os exemplos 2.0, \u00e9 certamente o mais popular. Um blog, seja ele mantido por uma \u00fanica pessoa ou um grupo bem definido, n\u00e3o funciona apenas como um filtro, ou um novo canal de not\u00edcias e opini\u00e3o. Ele \u00e9, acima de tudo, uma p\u00e1gina com identidade pr\u00f3pria. E o pulo do gato \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o do leitor com o autor, sem intermedi\u00e1rios. Todos discutem as id\u00e9ias, concordam, discordam\u2026 Isso se amplia constantemente, formando uma verdadeira micro-comunidade: os blogs \u201cconversam\u201d entre si , e quanto mais gente participar desse debate, mais chances n\u00f3s temos de democratizar a informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><u> 2) Como voc\u00ea enxerga a produ\u00e7\u00e3o coletiva de conte\u00fado na web?<\/u><\/p>\n<p>Penso que isso ainda n\u00e3o est\u00e1 muito claro, nem para quem estimula a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado colaborativo e menos ainda para o usu\u00e1rio comum. Como se ainda n\u00e3o fosse poss\u00edvel identificar claramente  quem participa, quem participa e consome, e finalmente quem apenas consome &#8211; esse \u00faltimo grupo \u00e9 o maior, e n\u00e3o se sabe ao certo quantos deles v\u00e3o transmitir suas id\u00e9ias a partir do momento que estiverem conectadas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, existe uma expectativa para que a Internet se consolide como a voz de quem n\u00e3o tem acesso aos tradicionais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de massa. J\u00e1 existem comunidades restritas, que conseguem trocar id\u00e9ias coletivamente e, nesse movimento, gerar conhecimento. Mas se o objetivo final \u00e9 formar uma sociedade cada vez mais preparada para os desafios do nosso cotidiano, estamos bem longe. Enquanto alguns poucos recantos se interligam positivamente, a rede est\u00e1 sendo ocupada por uma &#8220;horda de b\u00e1rbaros&#8221;, cujo conte\u00fado produzido e disseminado em blogs, fotologs, sites de v\u00eddeo possui car\u00e1ter neutro (antes fosse apenas isso) ou destrutivo.<\/p>\n<p>A coisa fica um pouco mais delicada quando nos referimos a um dos tipos espec\u00edficos de &#8220;produ\u00e7\u00e3o coletiva de conte\u00fado em rede&#8221;: o jornalismo cidad\u00e3o (ou colaborativo, ou participativo, enfim). J\u00e1 virou chav\u00e3o dizer que &#8220;qualquer indiv\u00edduo com um computador ou um celular com c\u00e2mera, conjugado com acesso \u00e0 internet, \u00e9 um produtor de conte\u00fado jornal\u00edstico em potencial&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que todo &#8220;blogueiro&#8221; \u00e9 um jornalista. Pois eu tenho algumas ressalvas. Independente de quem o fa\u00e7a, o jornalismo cidad\u00e3o obedece os pr\u00e9-requisitos da profiss\u00e3o: toda informa\u00e7\u00e3o deve ser apurada, checada, com dados devidamente levantados e organizados. Dessa forma, qualquer um que tiver acesso \u00e0s ferramentas, que tenha motiva\u00e7\u00e3o para compartilhar informa\u00e7\u00f5es e que obede\u00e7a esses crit\u00e9rios, pode relatar fatos em alguns cliques e se transformar em rep\u00f3rter, redator, editor\u2026 Existe material de sobra, todos sob licen\u00e7a Creative Commons (outra &#8220;marca&#8221; da web 2.0), que refor\u00e7a aquelas dicas da primeira aula da faculdade de comunica\u00e7\u00e3o para qualquer um: definir o que \u00e9 ou n\u00e3o not\u00edcia, ouvir as pessoas certas e os dois lados da hist\u00f3ria, checar e cuidar bem de todas as informa\u00e7\u00f5es\u2026 Basta querer fazer.<\/p>\n<p><u> 3) A narrativa digital pode ser vista como um avan\u00e7o das wikis, jornalismo participativo, social bookmarking, google news, tags, entre outras aplica\u00e7\u00f5es? Como voc\u00ea projeta este crescimento em 5 anos? E quais s\u00e3o suas apostas nesta \u00e1rea?<\/u><\/p>\n<p>Pode, sim. Todas essas aplica\u00e7\u00f5es facilitam o entendimento e a aproxima\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio diante desses fen\u00f4menos colaborativos. Uma vis\u00e3o ut\u00f3pica, para al\u00e9m desta gera\u00e7\u00e3o (talvez muitas outras), \u00e9 a do fim dos \u201cmonop\u00f3lios\u201d da informa\u00e7\u00e3o. Pena que isso ainda pare\u00e7a distante, mesmo se levarmos em conta os pr\u00f3ximos cinco anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem ainda ache que blog funciona como \u201cquerido di\u00e1rio adolescente\u201d. Outros grandes portais, que j\u00e1 descobriram a ferramenta, simplesmente puseram seus colunistas para reproduzir opini\u00f5es, mas ainda n\u00e3o entenderam como funciona esse neg\u00f3cio de &#8220;conversar com os outros&#8221;. Al\u00e9m disso, como disse antes, as pessoas n\u00e3o diferenciam o link de um blog qualquer para o de um portal ou at\u00e9 outros sites quando ele aparece no resultado de buscas do Google, por exemplo. Pessoalmente, ainda acho que s\u00f3 quem mant\u00e9m um blog sabe o que \u00e9. Talvez as pessoas que sequer saibam o que \u00e9 um blog hoje, ou para que ele serve, diminuam com o passar do tempo, a medida em que alguns nomes ou mesmo comunidades de blogs tomem corpo e se tornem mais relevantes.<\/p>\n<p>Esse processo tamb\u00e9m ser\u00e1 lento, afinal nem todos os blogueiros est\u00e3o realmente interessados em adotar essa postura colaborativa. Alguns partem do pressuposto que \u00e9 muito f\u00e1cil monetizar seus sites atrav\u00e9s de redes de an\u00fancios relacionados, como o Google AdSense, e quando ultrapassam a barreira do &#8220;preciso de conte\u00fado relevante&#8221;, adotam uma postura individualista &#8211; como o do ouvinte daquela r\u00e1dio especializada em tr\u00e2nsito na capital, que ao inv\u00e9s de informar o trajeto que fez e as condi\u00e7\u00f5es atuais, liga apenas para perguntar como est\u00e1 o caminho que interessa s\u00f3 a ele.<\/p>\n<p>O contr\u00e1rio tamb\u00e9m existe. Oferecer conte\u00fado na rede pode ser uma atividade descompromissada, sem uma &#8220;obriga\u00e7\u00e3o financeira ou jornal\u00edstica&#8221; embutida. Aqui a analogia das redes \u00e9 feita com uma &#8220;grande conversa de bar\u201d. Tal qual fora da rede: se no dia-a-dia a maioria prefere jogar conversa fora no boteco ou na frente do port\u00e3o e deixar o barco correr, quem \u00e9 que vai querer perder tempo bancando o jornalista? \u00c9 uma quest\u00e3o cultural muito forte, concebida bem longe do &#8220;mundo virtual&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, essa mesma cultura faz com que a maioria dos potenciais &#8220;jornalistas-cidad\u00e3os&#8221; ainda se relacionem com a informa\u00e7\u00e3o da mesma maneira que fazem h\u00e1 dezenas de anos: a partir das empresas de comunica\u00e7\u00e3o de sempre. Talvez no futuro, qualquer um pode abrir seu celular (ou um smartphone, ou um gen\u00e9rico) e perceber o quanto \u00e9 simples participar de uma incr\u00edvel via de m\u00e3o dupla das comunica\u00e7\u00f5es a partir de uma rede p\u00fablica sem fio, sendo capaz de distribuir informa\u00e7\u00e3o como qualquer um e ter sua voz garantida, podendo ganhar for\u00e7a e dar a t\u00e3o sonhada independ\u00eancia \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Mas sinceramente, n\u00e3o saberia dizer quando isso pode acontecer, nem mesmo qual o papel de quem ainda monopoliza o poder da imprensa nesse cen\u00e1rio &#8211; sejam elas as &#8220;familiares&#8221; de sempre, capitaneadas por marinhos ou mesquitas, ou as que est\u00e3o tomando lugar delas &#8211; as empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar na professora Pollyana Ferrari, especialista em jornalismo digital (e autora de dois livros sobre o tema). 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