{"id":874,"date":"2006-03-03T01:33:37","date_gmt":"2006-03-03T04:33:37","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/atencao-creuzebeque"},"modified":"2006-03-03T01:33:37","modified_gmt":"2006-03-03T04:33:37","slug":"atencao-creuzebeque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/atencao-creuzebeque\/","title":{"rendered":"Aten\u00e7\u00e3o, Creuzebeque!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/backfut.gif\" align=\"right\">Foi numa tarde qualquer do segundo semestre de 1995 que, sintonizado no meu velho radinho FM, ouvi pela primeira vez uma musiquinha escrachada e bem mais ou menos.  Era um portugu\u00eas convidado para uma suruba, e roda roda vira, solta roda vem, passaram a m\u00e3o na bunda e n\u00e3o comi ningu\u00e9m. Ignorei a letrinha e nem me dei ao luxo de esperar pelo an\u00fancio do locutor. \u201cDevem ser os Raimundos\u201d, pensei.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram. Tratava-se de uma trupe nova, catapultada gra\u00e7as a um garoto chamado Rafael. Ele era baterista de uma banda chamada Baba C\u00f3smica, mas isso n\u00e3o \u00e9 importante. Rafael \u00e9 filho do ent\u00e3o diretor art\u00edstico da EMI-Odeon, e os dois curtiram certo dia uma fita demo dessa trupe. Adoraram e contrataram os caras em 28 de abril de 1995.<\/p>\n<p>At\u00e9 chegar ali, essa patota da classe m\u00e9dia de Guarulhos precisou ralar muito. No princ\u00edpio, eram quatro. O japon\u00eas Alberto Hinoto, o Bento, tocava guitarra. Julio C\u00e9sar tocava teclado, e para improvisar um nome art\u00edstico, inverfteu seu sobrenome e virou Rasec. Quem tamb\u00e9m se baseou no sobrenome para rebatizar foram os irm\u00e3os Reis de Oliveira, o baixista Samuel e o baterista S\u00e9rgio viraram Reoli. Os quatro criaram um conjunto chamado Utopia e cantavam covers de Tit\u00e3s e Legi\u00e3o Urbana. Durante um dos shows, os caras incorporaram o vocalista. Chamava-se Alecssander Alves, mas todos o conheciam por Dinho.<\/p>\n<p>Antes de gravarem a fita demo que foi parar na EMI-Odeon, a banda Utopia chegou a gravar um CD de sucessos batidos, que sequer passou da marca de 100 c\u00f3pias vendidas. Foi quando perceberam que os covers n\u00e3o faziam tanto sucesso quanto as brincadeiras com os amigos, as palha\u00e7adas e as can\u00e7\u00f5es debochadas. Prepararam a fita nova, selando a mudan\u00e7a radical de estilo com um nome apropriado: Mamonas Assassinas.<\/p>\n<p>O Vira Vira do portugu\u00eas foi o primeiro sucesso a pipocar nas r\u00e1dios FM do Brasil. E antes mesmo de Dinho avisar que a bras\u00edlia amarela est\u00e1 de portas abertas pra mode a gente se amar pelados em Santos, a banda j\u00e1 tinha conquistado o p\u00fablico, especialmente crian\u00e7as e adolescentes. Antes mesmo de 1995 acabar, os Mamonas Assassinas j\u00e1 tinham vendido 1 milh\u00e3o de CDs. Impressionante.<\/p>\n<p>O tempo parecia curto para o grupo de maior sucesso daquele ano. Mas os Mamonas eram incans\u00e1veis: eram capazes de fazer cinco shows por semana em todo o Brasil. Bateram ponto em todos os programas de TV. Muitos se perguntavam: como diabos uma banda com m\u00fasicas do naipe de Robocop Gay era capaz de arrebatar tantos f\u00e3s? Mais: at\u00e9 quando duraria o g\u00e1s desses rapazes esfor\u00e7ados?<\/p>\n<p>A resposta nunca vir\u00e1. J\u00e1 estava no primeiro ano da faculdade e trabalhando como t\u00e9cnico contratado no laborat\u00f3rio de metrologia quando, na manh\u00e3 de domingo do dia 3 de mar\u00e7o, eu e o pais fomos surpreendidos por uma dessas informa\u00e7\u00f5es inacredit\u00e1veis. Na noite anterior, s\u00e1bado, 2 de mar\u00e7o, os Mamonas seguiam sua exaustiva maratona de shows, numa apresenta\u00e7\u00e3o no est\u00e1dio Man\u00e9 Garrincha, em Bras\u00edlia. Em poucas horas, todos viajariam para Portugal.<\/p>\n<p>Os cinco, al\u00e9m do assistente de palco, o seguran\u00e7a, o piloto e o co-piloto, estavam num avi\u00e3o Lear Jet 25, prefixo PT-LSD da empresa Madri T\u00e1xi A\u00e9reo. Pr\u00f3ximo da aterrissagem, o piloto decidiu arremeter e tentar um segundo pouso. N\u00e3o deu tempo: a aeronave se chocou em um morro, na Serra da Cantareira. A mata fechada dificultou o acesso da equipe de resgate. Quando chegaram, encontraram fuselagem, figurinos, corpos, tudo espalhado pela mata. N\u00e3o houve sobreviventes.<\/p>\n<p>As imagens daquele acidente tornaram-se o primeiro fen\u00f4meno de troca de arquivos da nov\u00edssima internet comercial brasileira. O vel\u00f3rio dos m\u00fasicos, no gin\u00e1sio Paschoal Thomeu, em Guarulhos, reuniu 65 mil pessoas. Programas especiais, revistas, apresenta\u00e7\u00f5es inteiras em \u00e1udio, CD com grava\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas&#8230; Tudo foi insistentemente reproduzido durante semanas, meses, anos.<\/p>\n<p>O fim da carreira mete\u00f3rica de um dos maiores fen\u00f4menos da m\u00fasica nacional, que completa dez anos neste final de semana, transformou a alegre febre dos Mamonas em tristeza, em uma das trag\u00e9dias mais lembradas de nossa hist\u00f3ria. Tenho certeza de que, se voc\u00ea n\u00e3o chorou, ao menos fez a pergunta: <a href=\"http:\/\/www.omelete.com.br\/musica\/artigos\/base_para_artigos.asp?artigo=3049\" target=\"_blank\"><b>ser\u00e1 que, se estivessem vivos, o sucesso permaneceria?<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi numa tarde qualquer do segundo semestre de 1995 que, sintonizado no meu velho radinho FM, ouvi pela primeira vez uma musiquinha escrachada e bem mais ou menos. 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