{"id":863,"date":"2006-02-07T16:10:01","date_gmt":"2006-02-07T19:10:01","guid":{"rendered":"http:\/\/marmota.org\/blog\/reflexoes-pueris-sobre-a-intolerancia"},"modified":"2006-02-07T16:10:01","modified_gmt":"2006-02-07T19:10:01","slug":"reflexoes-pueris-sobre-a-intolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marmota.org\/blog\/reflexoes-pueris-sobre-a-intolerancia\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es pueris sobre a intoler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marmota.org\/blog\/secoes\/pedra.gif\" align=\"right\">Acompanho \u00e0 dist\u00e2ncia os desdobramentos relacionados \u00e0 <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/mundo\/ult94u92343.shtml\" target=\"_blank\"><b>publica\u00e7\u00e3o de charges ofensivas aos mu\u00e7ulmanos<\/b><\/a>, e admito aqui a minha ignor\u00e2ncia: talvez tivesse uma opini\u00e3o mais clara se conhecesse um pouco mais a respeito do Isl\u00e3. Ou mesmo as raz\u00f5es que levam o homem a fundamentar suas vidas a algum conceito inflex\u00edvel, seja ele qual for, mas cuja forma predominante de afirma\u00e7\u00e3o esteja baseada na viol\u00eancia e na opress\u00e3o a todos que n\u00e3o pensam da mesma forma.<\/p>\n<p>Permitam-me, portanto, falar sobre o assunto de uma forma ing\u00eanua e infantil.<\/p>\n<p>Sabem, as pessoas s\u00e3o diferentes. N\u00e3o, n\u00e3o adianta passar a vida inteira procurando algu\u00e9m parecido: n\u00e3o existe cabe\u00e7a igual a sua. Tudo bem, tem pelo menos uma centena de anos que as pessoas n\u00e3o se importam mais com as outras. Passam boa parte do tempo trabalhando em busca de seus pr\u00f3prios objetivos, muitas vezes desconsiderando a presen\u00e7a de qualquer ser vivo ao seu lado.<\/p>\n<p>Mas apesar de nos virarmos bem com esse individualismo (somos at\u00e9 capazes de ser felizes assim), n\u00e3o conseguimos viver sozinhos por muito tempo. A come\u00e7ar com a institui\u00e7\u00e3o familiar &#8211; que, c\u00e1 pra n\u00f3s, tamb\u00e9m anda enfraquecida. Mas enfim. Com o tempo, encontramos uma ou outra afinidade e formamos um grupinho de pessoas bacanas e felizes. Algumas vezes, por obra do destino, essas turmas s\u00e3o formadas aleatoriamente: sala de aula, condom\u00ednio, escrit\u00f3rio, piscina coletiva&#8230; Coragem, homem: precisamos conviver com as pessoas.<\/p>\n<p>Sempre foi assim, e a coisa fica ainda mais clara quando se trata de rela\u00e7\u00f5es afetivas. Nesse caso, a afinidade e a aleatoriedade s\u00e3o acompanhadas por uma boa dose de sentimentos &#8211; que, de t\u00e3o complexos, n\u00e3o deixam de ser afins e aleat\u00f3rios ao mesmo tempo. Diante das nossas diferen\u00e7as, que tipo de rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser um imenso desafio?<\/p>\n<p>Agora imagine aquela criatura ador\u00e1vel, que at\u00e9 esses dias parecia trazer em suas m\u00e3os a tampa perfeita para aquela sua panela imunda. De repente, sem que voc\u00ea perceba, alguma coisa rid\u00edcula e sem o menor cabimento a deixa incomodada. Quando voc\u00ea tenta decifrar o que aconteceu para n\u00e3o repetir a mesma atitude, a criatura se incomoda ainda mais &#8211; afinal, voc\u00ea n\u00e3o precisa se preocupar com isso. Voc\u00ea acaba, naturalmente, adotando uma postura passiva diante da vida, que tamb\u00e9m a incomoda. Nisso, sua paci\u00eancia vai parar na Lua &#8211; e voc\u00ea tamb\u00e9m se incomoda. Afinal de contas, n\u00e3o faz a menor id\u00e9ia das raz\u00f5es que provocaram tanto inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>Pior: continua tentando corrigir a rota, aumentando consideravelmente a carga de incomoda\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, fazendo com que aquela criatura ador\u00e1vel suma do mapa misteriosamente. Aquilo que voc\u00ea sentia vira raiva, desilus\u00e3o, cansa\u00e7o, dores no corpo e na cabe\u00e7a. Uma coisa horr\u00edvel que poderia ter sido evitada com uma \u00fanica resposta: afinal de contas, tem cabimento esquentar a cabe\u00e7a com uma bobagem que pode ser resolvida simplesmente com boa vontade e uma dose de respeito \u00e0 diferen\u00e7a de pensamentos?<\/p>\n<p>Tudo bem, estou falando de uma historinha cuja abrang\u00eancia muitas vezes n\u00e3o passa de um quartinho pouco iluminado, ou at\u00e9 tr\u00eas ou quatro longos e enfadonhos e-mails. Dores de cabe\u00e7a que variam de acordo com nossa predisposi\u00e7\u00e3o em t\u00ea-las, e muitas vezes encaradas como &#8220;coisas da vida&#8221;. Mas se algu\u00e9m me dissesse que uma guerra alimentada por diferen\u00e7as de pensamento come\u00e7ou de um jeito parecido, n\u00e3o duvidaria.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, vejamos. Imagino um zeman\u00e9 qualquer. Pode estar perdido no meio do Oriente M\u00e9dio h\u00e1 milhares de anos, ou parado agora mesmo em algum morro do Rio. Ele alimenta uma id\u00e9ia pouco amistosa a respeito de um pobre coitado, a alguns metros de dist\u00e2ncia. Sem questionar, e at\u00e9 mesmo sem pensar muito no que est\u00e1 fazendo, pega uma pedrinha do ch\u00e3o e arremessa em dire\u00e7\u00e3o ao sujeito. O atingido, t\u00e3o ou mais zeman\u00e9 que o outro, esquece de respirar fundo, procura uma pedrinha maior e lan\u00e7a de volta. Afinal de contas, foi o zeman\u00e9 do lado de l\u00e1 que come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, o \u00f3dio e a intoler\u00e2ncia j\u00e1 est\u00e3o embutidos nas almas dos dois cururus. Dedicam o resto do tempo a maquinar formas inteligentes e eficazes de jogar pedras cada vez maiores, de maneira r\u00e1pida e precisa. Encontram formas diversas para financiar suas id\u00e9ias malucas e substituem as pedras por artilharia sofisticada. Aproveitam a necessidade do homem viver em bando e convencem de que est\u00e3o certos, conquistando cada vez mais espa\u00e7o. E o apedrejamento, seja ele real, virtual ou verbal, continua.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa se for uma batalha com pano de fundo pol\u00edtico, religioso ou simplesmente uma briga boba no fim da noite com aquele algu\u00e9m que voc\u00ea julga ador\u00e1vel. Muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 preciso acabar com tudo e provocar um desastre: basta encarar o desafio e buscar uma conviv\u00eancia harmoniosa. A intoler\u00e2ncia vai dar lugar ao respeito facilmente, assim que percebermos o \u00f3bvio: estamos atirando pedras em nossas pr\u00f3prias cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>(\u00c9, eu sei que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim. Mas eu avisei que seria ing\u00eanuo e infantil.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanho \u00e0 dist\u00e2ncia os desdobramentos relacionados \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de charges ofensivas aos mu\u00e7ulmanos, e admito aqui a minha ignor\u00e2ncia: talvez tivesse uma opini\u00e3o mais clara se conhecesse um pouco mais a respeito do Isl\u00e3. 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